UM CHOQUE DE AUTOESTIMA

Daniel Thame*

Durante décadas, Itabuna foi uma das cidades mais importantes da Bahia e chegou a ocupar o posto de terceira maior economia do Estado, superada apenas por Feira de Santana e por Salvador, a capital.

Sem ser necessariamente uma grande produtora de cacau, por conta de sua modesta extensão territorial, Itabuna converteu-se no polo de comércio e prestação serviços de uma região com cerca de 100 municípios, impulsionados, todos eles, por um único (e à época altamente rentável) produto.

A cidade, vigorosa em sua economia, atraiu uma leva de empreendimentos que a modernizaram e lhe deram ares de metrópole.

Era a Capital do Cacau, como diziam seus moradores, rumo a seu futuro dourado.

A vassoura-de-bruxa, em duas décadas, interrompeu a marcha e reduziu o crescimento da cidade. Ainda assim, fruto do espírito empreendedor de sua gente, uma característica marcante, Itabuna ampliou o setor de serviços e viu nascer polos de ensino superior e de saúde privada.

A crise, entretanto, revelou aquilo que os momentos de fartura mascaravam: os imensos problemas estruturais de uma cidade sem planejamento, que cresceu de forma desordenada e que não consegue atender demandas básicas de seus moradores, como saúde pública, educação, saneamento e inclusão social.

O preço de ser a “Capital do Cacau” (agora, entre aspas) foi altíssimo: milhares de pessoas, despejadas das propriedades rurais por conta da crise do cacau, migraram para Itabuna, formando grandes bolsões de miséria na periferia, gente quase sempre sem qualificação profissional e, por conta dessa mesma crise, sem mercado de trabalho.

Itabuna ainda é uma grande cidade, mas estagnou-se. Foi superada, com folga, por Vitória da Conquista e, se não houver mudanças drásticas, corre o risco de, em menos de uma década, ser ultrapassada por Barreiras, Santo Antonio de Jesus, Eunápolis e Teixeira de Freitas, que vêm ostentado saltos significativos em suas economias.

Quem visita Vitória da Conquista, Teixeira de Freitas e Santo Antonio de Jesus, encontra cidades que tem problemas sim, mas respiram desenvolvimento.

Parece simplório, mas o itabunense ao entrar nessas cidades, com acessos bem cuidados, ruas e avenidas limpas e prédios comerciais bem conservados, não consegue deixar de traçar um paralelo com Itabuna e seus acessos, seja os da BR-101, seja os da BR-415 tomados pelo mato e pela sujeira, com as ruas esburacadas logo nas entradas da cidade.

Para quem aprendeu a amar essa cidade, caso deste escriba, é de se lamentar ver Itabuna ficando para trás, como se alguma bruxa amarrasse os ponteiros do relógio do tempo e do progresso.

Lamentações? Bruxarias?

Nada disso! O que Itabuna precisa mesmo é de um choque de autoestima, daqueles que envolvem o poder público e a sociedade organizada.

Que os governantes efetivamente governem, que nossas entidades representativas deixem de ser apenas bajuladoras do governante de plantão e que os itabunenses rompam esse comodismo que está fazendo a cidade perder espaço para outros municípios.

Sejamos condutores do destino da nossa cidade e não apenas passageiros de um bonde sem freio e, nessa longa estrada da vida, sem motorista.

Daniel Thame é jornalista, escritor e mantém o Blog do Thame.

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Walmir Rosario

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