“TÍNHAMOS AMOR À CAMISA”, DIZ EX-GOLEIRO

Os tempos gloriosos do futebol amador de Itabuna são relembrados por Plínio Assis, que foi goleiro do Flamengo e da Seleção

Walmir Rosário*

Ele começou no futebol aos 16 anos, a convite de Iedo Nogueira, para jogar pelo Flamengo, embora fosse torcedor do Fluminense. Terminou chegando à seleção de Itabuna, onde foi tetracampeão. Saudosista, Plínio Assis relembra que o Itabuna foi hexacampeão intermunicipal, conquistando um título inédito. Por uma série de motivos, ele foi obrigado a deixar o futebol, mas o Itabuna continuou, já que era um verdadeiro celeiro de craques, chegando a ser vice-campeão baiano, já com o time profissional.

Naquela época, jogávamos futebol com muito amor à camisa. Geralmente a gente trabalhava e só podia treinar às 5 da manhã, mas valia o sacrifício”, afirma Plínio, lembrando que umas das vitórias que o marcaram foi a conquistada em São Félix, num jogo histórico. Ele diz ainda que uma das coisas boas do esporte naquele tempo era o apoio de pessoas como Daniel Rebouças, Arthumiro Fontes e tantos outros. “Uma coisa é jogar com amor à camisa, outra é apenas cumprir um dever profissional, com base na remuneração”, complementa.

Plínio Assis

Plínio destaca que ficou no Itabuna até a conquista do hexacampeonato. “O titular era Asclepíades e eu e Luís Carlos ficávamos na reserva, até quando assumi a posição de titular, em 1960, ano do Cinquentenário”, relembra. Outro ponto que ele destaca é que, graças à grande rivalidade existente entre Ilhéus e Itabuna, quando havia um jogo com os ilheenses ele tomava cuidados especiais, inclusive dormir cedo para ter um desempenho melhor. Diz Plínio: “Mas para um goleiro sempre existe a possibilidade de partidas melhores ou piores. Portanto, sofri meus ‘frangos’, mas nunca me abalei com isso, pois sabia que era uma falha por contingência do esporte”. De temperamento calmo, ele não se abalou nem mesmo com um tiroteio durante uma partida com um time de Ilhéus. “Apesar de fatos como esse, sempre achei aquela rivalidade muito

Plínio Assis concedendo entrevista no Túnel do Tempo

sadia porque exigia mais dos atletas”, complementa.

Plínio diz ainda que naquela época não existiam grandes técnicos e táticas de jogo mais elaboradas, mas teve a oportunidade de ser orientado pelo saudoso cirurgião-dentista Carlito Galvão e por Costa e Silva e Gil Nery, que davam a orientação básica. Ainda de acordo com ele, como sempre ocorre nos times de futebol, existia uma meia-dúzia de jogadores que coordenavam o time como um todo. “Basta lembrar o que aconteceu com a Seleção Brasileira na Suécia: Didi carregando a bola debaixo do braço até o meio de campo, pedindo calma aos outros jogadores e renovando os ânimos”, enfatiza. “Aqui tínhamos jogadores como Santinho, Tombinho e Abieser que também faziam o papel de orientadores”, acrescenta.

Superação

Existiam ainda aqueles que gostavam de sair para tomar uma cerveja antes do jogo, mas o amor que sentiam pelo Itabuna superava as deficiências, tanto que a gente costumava dizer que era o Itabuna que estava jogando e tínhamos de ganhar de qualquer maneira”, continua Plínio, salientando que essa fibra e amor à camisa já não existem mais. Outro ponto que ele destaca é que se os jogadores daquela época tivessem à mão as tecnologias existentes hoje para a preparação física, certamente teriam rendido muito mais. “Talvez até mais do que a maioria dos craques de hoje”, sustenta.

Para Plínio, a Seleção de Itabuna de todos os tempos seria formada por Asclepíades no gol, a lateral-direita com Humberto, a zaga com Ronaldo e Piaba Abieser, a lateral direita com Leto ou Vavá Barros, no meio de campo, Tombinho, Carlos Riela ou Lua, ponta-direita, Humberto César ou Gagé, Florizel, e Zé Reis como ponta de lança, além de Fernando Riela na ponta esquerda. Segundo ele, Santinho não mereceria ser indicado para uma posição apenas, pois jogaria nas 11, caso fosse escalado. Mas, além desse pessoal, é difícil para Plínio esquecer jogadores como Luís Carlos, o goleiro Carlito ou Roque. “Sei que estou cometendo injustiça com alguns, mas não tenho como lembrar de todos”, enfatiza.

O ex-goleiro ressalta também que, sem sombra de dúvida, a Seleção de Ilhéus era a maior adversária de Itabuna, até pela rivalidade, mas não se pode deixar de fora Muritiba, que fez um timaço e possuía grandes jogadores, a exemplo de Betinho, um grande goleiro. “Nos jogos entre Itabuna e Ilhéus, podíamos até não estar tecnicamente bem preparados, mas tínhamos que nos superar. Era como hoje, quando se diz que não há favoritos num clássico”, afirma. Plínio diz ainda que havia outros “ossos duros de roer”, como o Alagoinhas e Belmonte. Em relação a esta última cidade, aliás, o ex-goleiro lembra que quando a Seleção de Itabuna ganhou um título por lá, um cidadão chamado Paternostro ficou no fundo do gol itabunense, com um revólver na mão, para evitar pedradas. “Depois a gente superava tudo com uma festa no clube da cidade”, diverte-se Plínio, para quem essa paixão em torno do esporte já não existe mais. “Até na própria Seleção Brasileira a gente não vê mais esse entusiasmo, não sei exatamente porque. Talvez o excessivo profissionalismo dos jogadores tenha resultado na apatia que vemos hoje”, complementa.

Plínio destaca que, apesar de ser uma cidade pequena, Itabuna teve um campeonato amador de muita rivalidade, principalmente entre o Fluminense, Flamengo, Janízaros e o aguerrido Botafogo do bairro Conceição. “Apesar de se tratar de futebol amador, os dirigentes sempre desembolsavam alguma coisa a título de presente, principalmente para trazer jogadores das redondezas, como Itajuípe, Buerarema e Ibicaraí”, enfatiza Plínio, lembrando que os jogos entre esses times levavam muita gente ao campo da Desportiva.

Segundo o ex-goleiro, uma partida de domingo na Desportiva era comentada a semana toda, antes e depois, e despertava muitas paixões com o noticiário das rádios e as discussões no trabalho, nos bares e nas praças. As equipes daquela época também estavam sempre se renovando, trazendo jogadores de outras cidades. No Flamengo, todos trabalhavam e não havia a mordomia dispensada aos jogadores de hoje. “E o desempenho não era ruim porque, ao contrário dos craques de hoje, não cansávamos, embora a gente trabalhasse o dia inteiro e estudasse à noite”, relembra. Ele compara a atividade do jogador profissional com outra qualquer em que se tem que se mesclar a remuneração com o amor ao que se faz. “Ninguém hoje consegue manter uma boa equipe por muito tempo, justamente porque falta compromisso por parte do atleta”, complementa.

Friozinho na barriga

Inúmeras partidas jogadas na Desportiva marcaram Plínio, como a que foi disputada contra a seleção de Muritiba. “Eu me lembro bem de um lance em que o atacante cabeceou, eu fui vencido e levantei meu calcanhar como último recurso, conseguindo evitar o gol”, ressalta. “Outra da qual não esqueço foi contra o Vasco da Gama, quando perdemos por 2×1, com o Vasco completo. Delem, que era atacante deles, estava com a bola na marca do pênalti e eu parti para a jogada. Ele chutou, a bola bateu no meu peito e não entrou”, diz com um sorriso.

Para Plínio, toda partida, de um modo geral, dava um friozinho na barriga e quando era com adversários do Rio de Janeiro, por exemplo, não havia aquela expectativa de vencer, uma vez que eles eram muitos superiores em preparo físico e treino em conjunto. “Mas nós nos superávamos diante da importância da disputa, principalmente porque gostávamos de futebol”, salienta, Plínio, dizendo como exemplo que Zico “sobrava” no Flamengo, mas não convencia na Seleção Brasileira, provavelmente porque a camisa pesava. “Contra esses grandes times, a gente se agigantava”, complementa Plínio, que também jogou basquete muito bem.

O ex-goleiro diz que o público itabunense também prestigiava muito esse esporte. “Em 59 e 60 participei dos Jogos Abertos do Interior, em São Paulo, e o Itabuna ficou em quarto lugar no Campeonato Nacional, mesmo a equipe campeã possuindo quatro jogadores da Seleção Brasileira”, salienta, para complementar: “Nada mau para um grupo de amadores, não é mesmo?”.

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