Teatro de Marionetes

Walmir Rosário*

Os que puderam e tiveram a felicidade de acompanhar o humorista Jô Soares (quando apenas fazia isso e bem), na tela da Globo, ainda durante a ditadura militar devem lembrar de um quadro de muito sucesso: o reizinho. Ao entrar em cena, ajoelhado para parecer bem pequeno, o personagem, em trajes reais de gala, com coroa e tudo, perguntava! “Deste povo que piso, deste solo que amo, que é que eu sou? Que é que eu sou?”. E a corte inteira respondia: “Sóis rei! Sóis rei!”.

A rocambolesca cena, entretanto, tinha seus momentos hilariantes, dignos das cortes. Embriagado pelo poder, o rei dava demonstrações de que não governava e precisa se autoafirmar, mostrando à nação que era, na verdade, o todo-poderoso. Nessas cenas de auto-afirmação, o pequeno rei perguntava: “Deste povo que piso, deste solo que amo, que é que eu sou?”. Em coro, o cordão dos bajuladores bradava: “Sóis, rei! Sóis Rei!”.

Alguma aparência com a corte petista em Brasília não é mera semelhança e a nação, estupefata, assiste estas dantescas cenas pelos meios de comunicação. Enquanto o presidente da República discursa exaltando as qualidades positivas do Brasil e os feitos “salvadores da pátria” de seu governo, falando por metáforas e contando piadas como nos tempos de sindicalista nas assembleias em porta de fábrica, os porões do Palácio do Planalto agem sorrateiramente.

Não só os chamados “cardeais” petistas, gente da “cozinha” do Planalto, mas também os dirigentes nacionais do PT são acusados pela grande mídia de, efetivamente, governar o País. Enquanto Lula viaja pelo exterior, eles municiam deputados de informações convincentes para votarem a bem da governabilidade, mesmo que isso implique na concessão de outros mimos. A direção verticalizada numa grande empresa pública, um cargo numa estatal de relevância ou sinecuras outras são alguns tipos de convencimento que deputado nenhum pode desprezar. Se o partido não dá demonstrações de altruísmo votando nos projetos do governo, nada mais justo do que propor a troca de legenda, e assim vai funcionando o Congresso.

Os acidentes acontecem, mas fazem parte do risco calculado, como em qualquer atividade. Um mimo aqui, outro ali, pode gerar descontentamento em alguns parlamentares, ao mesmo tempo em que pode despertar a vontade de “servir” ao país. E nenhum convencimento se mostrou melhor e mais eficiente do que o “mensalão”, que teria sido instituído e administrado pelo tesoureiro do PT nacional, Delúbio Soares, professor de matemática, profissional afeito a números e que administra atualmente um orçamento partidário de R$ 48 milhões.

Denunciada a “operação” pelo ex-coligado da base parlamentar, O PT não digeriu de imediato o alto poder de destruição da “bomba” Roberto Jefferson. A falta de percepção prejudicou a imagem do partido “guardião” da moralidade. No descrédito, tentou arrumar o “estouro da bomba”, aceitando a criação da CPMI, mas desde que investigue também os tempos de Fernando Henrique Cardoso. Será que investigando FHC os pecados porventura cometidos pelo PT e seus aliados serão perdoados? Será que o PT se contenta apenas a se igualar a quem tanto chamou de corrupto? É muito pouco para apagar a imagem de xerife “vendida” nas últimas eleições.

Como os estrategistas militares e marqueteiros políticos ensinam a toda a hora de que a melhor defesa é o ataque, o governo Lula partiu para cima da oposição, aceitando (nem tanto) a CPMI, mas desde que sejam seus companheiros que comandem a investigação. Isso me lembra do ditado sempre falado pelos mais antigos, dos tempos dos meus avós: “É o mesmo que amarrar cachorro com linguiça”.

A nação está aguardando, nesta terça-feira (14), o desfecho da eleição dos membros da CPMI para a presidência e relatoria. Se der pizza, foi encomendada pelo PT e governo Lula, os quais não podem ser desmembrados numa situação como essa. Com a palavra as 300 marionetes que fazem parte desta história.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 11-06-2005

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Walmir Rosario

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