TARZAN, O SANGUINÁRIO DOS RINGUES

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A história de Tarzan, Dal, ou Manoel Alves Moreira, contada pelos jornalistas Walmir Rosário e José Américo Castro.

Walmir Rosário*

Manoel Alves Moreira. Esse foi o nome que recebeu no registro civil que anotou seu nascimento e confirmado na pia batismal. Como era normal em qualquer família do bairro da Conceição, em Itabuna, frequentou o curso primário e até o ginasial, mas os estudos não era o seu foco. Ele nasceu com intenção ser grande, fazer sucesso, brilhar nos vários palcos que subiu.

Mas, convenhamos, Manoel não seria um nome apropriado para essa prometida carreira, iniciada nos campos de futebol. Seu Zezinho, seu pai, até que tentou que o filho lhe ajudasse na Padaria Conceição, mas ser padeiro ou comerciário não estava nos seus planos. Dal, seu primeiro apelido ou nome artístico, como queiram, iniciou no futebol na posição de goleiro, para muitos, uma posição inglória. Mas era a que lhe competia.

Apenas ficar em baixo dos três paus – como se referem os boleiros em relação às traves – não bastava. Pintou a vasta cabeleira da cor loura, assim como o herói da floresta africana que via nos gibis e nas matinês do cine Itabuna. Já não era simplesmente Dal e passou a ser chamado de Dal Brôa, numa referência ao biscoito amarelo de farinha de milho fabricado na padaria do seu pai.

Agora já era goleiro do Botafogo do bairro Conceição, dirigido por gráfico Rodrigo Bocão. Fora dos campos de futebol, era reconhecido e chamado de Tarzan, o herói da floresta, bem maior do que o Dal Brôa. Paralelamente ao futebol, se destacava nos carnavais e micaretas com sua fantasia de Tarzan, desfilando como destaque nos cordões carnavalescos, como o de outro jogador: Patuca, seu colega no Botafogo.

Era considerado um bom goleiro, embora não tivesse o nível de tantos outros que defenderam a gloriosa seleção amadora de Itabuna, octacampeã no campeonato Intermunicipal baiano. Após um grande período no Botafogo foi substituído por Dadinho e se mudou com armas e bagagens para o Grêmio itabunense, permanecendo por anos a fio na equipe.

Mas não foi fácil encarnar os personagens que queria em sua própria paróquia: o bairro da Conceição. A garotada não perdia a oportunidade para chamá-lo de Tarzan de araque, deixando-o possesso. Um deles, o conhecido Carlos Guimarães (Caroba) tomou uma carreira e foi seguro, sendo obrigado a pedir desculpas. Caroba e Raul Vilas Boas foram dois velhos amigos (desde a infância) que me ajudaram a relembrar o nome e nossas peripécias.

Se apresentar nas tardes de domingo no campo da Desportiva, reduto sagrado do futebol baiano ainda era pouco para Dal, Dal Brôa ou Tarzan, como queiram chamar. E olhe que nos carnavais desfilava garbosamente pela avenida do Cinquentenário, a principal da cidade. Foi aí que o Manoel Alves Moreira, se aventurou por outro esporte, os ringues de luta livre, sucesso do momento (anos 1960 e diante) da TV Excelsior, passando pela Gazeta, Record, Bandeirantes e Globo com o programa Telecatch.

De novo Manoel Alves Moreira se transforma em Tarzan, não mais aquele herói das selvas que desfilava nos carnavais, mais o Tarzan – O Sanguinário dos Ringues. Para se preparar fez amizade com os astros Ted Boy Marino, Verdugo, Tigre Paraguaio, Múmia, Carrasco Árabe, dentre outros. E o novo personagem deu muito certo nas lutas de mentirinha que pareciam ser de verdade.

Mas nos ringues nem tudo dava certo quanto combinado, pois ao apanhar de verdade, um ou outro oponente de Tarzan – O Sanguinário dos Ringues ficava com vergonha de sua plateia e partia para a verdade. Nesses casos, era preciso a pronta intervenção do árbitro – também de mentirinha – e outros astros do telecatch para sossegar os adversários de sangue quente.

Entre os lutadores de luta livre havia uma espécie de código de ética, a exemplo de nunca brigar na rua com os chamados amadores ou despreparados, pois eles se sentiam com força e técnica acima deles. Por isso, evitavam bater de verdade num desafiante tirado do público. Poucas vezes isso acontecia, como em Eunápolis, quando Tarzan trucidou o Galinho de Canavieiras numa luta de box.

E o Tarzan – O Sanguinário dos Ringues não chegou a viajar o mundo, mas deu seus pulinhos por toda a Bahia, Sergipe, Minas Gerais e Espírito Santo, chegando a se apresentar por duas vezes no Rio de Janeiro, sob os auspícios do amigo Ted Boy Marino. Ganhou dinheiro e boa parte guardou investindo na área que seria sua próxima atividade após a aposentadoria dos esportes: um bar e restaurante de comidas de sustança.

E o nome do restaurante não poderia ser diferente: O Mocotó do Tarzan, na rua do Berilo, cabeceira da ponte Lacerda (São Caetano), local hoje conhecido como a “Orla do Berilo”. No local eram servidas uma grande variedade de cachaças de folha, cerveja bem gelada e pratos de resistência como fato, mocotó (os dois juntos), rabada, viúva de carneiro noite afora para um público bem especial.

Especial é pouco: especialíssimo se encaixa melhor na questão, pois desfilavam no Mocotó do Tarzan boêmios, notívagos, esportistas, artistas, todos amantes da boa e forte comida. Como já disse em outros escritos, narradores e repórteres esportivos das rádios Globo, Tupi, Nacional (do Rio de Janeiro) não dispensavam uma passada no local após uma estafante partida de futebol no Estádio Luiz Viana Filho, o Gigante do Itabunão, cujo gramado suspenso encantava a maioria dos comunicadores.

Com o declínio do futebol, as atividades do Mocotó do Tarzan também foram diminuindo, o caderno de fiado crescendo e, mais uma vez, Manoel Alves Moreira teve que vestir outro personagem. Continuava sendo chamado de Tarzan, mas agora não subia nos ringues, não se colocava em baixo dos três paus (gol), embora continuasse num palco conhecido, a avenida do Cinquentenário, onde vendia panos de pratos e outras bugigangas.

Não perdeu o humor, vivia com dignidade, se transformava num dos maiores foliões de Itabuna e região em todos os carnavais, agora desfilando com sua “Jane”, sempre lembrando dos bons tempos. Viveu até não poder mais e comoveu a cidade quando deu o último suspiro, lembrado por todos que o conheceram nos personagens Dal, Dal Broa, Tarzan, o Rei das Selvas, Tarzan – O Sanguinário dos Ringues, o eterno folião e até o Manoel Alves Moreira.

Hoje, se vivo estivesse, Manoel Alves Moreira seria um respeitável senhor de 80 anos que viveu intensamente, fazendo amigos por onde passou, a exemplo de Ipiaú, cidade em que passou um período defendendo a equipe do Vasco da Gama. Mas quem sabe essa história é o jornalista, escritor e poeta José Américo Castro, um dos grandes contadores de história da Bahia.

* Radialista, jornalista e advogado.

TARZAN EM IPIAÚ

José Américo Castro*

Final dos anos 60, por aí, foi quando Tarzan chegou em Ipiaú e assumiu a condição de goleiro do Vasco da Avenida.

Já estava um tanto gordo e pesadão, mas ainda tinha a audácia de defender petardos de Gajé, Tanajura, Caçote e outros craques nos confrontos com o Independente, Ipiaú e demais clubes que disputavam o campeonato municipal.

Quando os atacantes adversários preparavam os arremates ele costumava gritar para os zagueiros: “Limpa a área”.

Era uma temeridade, pois, na maioria das vezes, a bola morria no fundo da rede.

De noite estava na porta do Cine Éden, participando da resenha com a galera, ou no Bar de Fran, jogando sinuca.

De vez em quando era visto no brega de Tia Ló e até nos “Dez Quartos”, aperfeiçoando-se na boemia.

Nas micaretas seguia na frente do Trio Elétrico Tapajós, pela Rua Dois de Julho e Praça Rui Barbosa, dançando o frevo com alguma cabrocha, exibindo fantasias de Zorro, ou do seu personagem principal.

Bem lhe cabia um dia de Rei Momo.

Também teve seus momentos de camelô nesta cidade. Vendia seus artigos na porta do Hotel Rizia e em outros pontos da Rua Dois de Julho.

Certa vez, no Circo Uberlândia, lutou com Marreta e levou muita porrada, mas descolou uma boa grana e os aplausos da torcida ipiauense que lhe queria vitorioso.

O cabelo oxigenado era o seu charme, sua marca inconfundível. Tarzan deixou seu nome na história de Ipiaú.

Solicitei ao jornalista Walmir Rosário informações a respeito dessa personalidade folclórica regional e ele me trouxe o magistral texto acima.

Com meus respeitos professor.

* Jornalista, escritor e poeta.

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