SOBRE A LATA DE CERVEJA ATIRADA EM JAQUES WAGNER

Julio Cezar de Oliveira Gomes*

No desfile do Dois de Julho deste ano, durante uma aparição pública do governador nas comemorações cívicas da Independência da Bahia, uma jovem atirou uma lata de cerveja e atingiu ao governador Jaques Wagner.

Ok, ele pode até merecer, mas não é por aí.

Se analisarmos bem a situação, veremos que se o critério para receber uma “latada” de cerveja for a conduta, chegaremos à conclusão de que ACM Neto também merece. De que Geddel também merece. De que Otto Alencar e Paulo Souto também merecem. Enfim, salvo exceções raríssimas, todos merecerão.

O finado ACM, pelo apoio irrestrito que deu aos governos militares, inclusive quanto à repressão, sempre mereceu ser atingido por bem mais do que uma latinha de cerveja. Entretanto, cabe perguntar: O que ocorreria se alguém, na época da ditadura, jogasse uma lata de cerveja em ACM? No mínimo levaria uma surra terrível! Ficaria preso por semanas ou meses, certamente incomunicável. Nenhum órgão de imprensa se atreveria a noticiar o fato e os capangas de ACM estariam livres para fazer o que quisessem com esta pessoa, ou o que o “chefão” mandasse.

Por estas e outras razões é que temos que nos manter no limite da democracia e, sobretudo, no limite do respeito à pessoa humana, seja um governado, um manifestante, um professor, um policial ou um humilde trabalhador assalariado.

Por isso, devemos nos ater às vaias, que são uma manifestação democrática, tanto quanto eventuais aplausos. Ao se atirar uma lata de cerveja em alguém, perde-se o respeito, e perdendo-se isto, todo o resto não se sustenta mais.

Temos um regime democrático a defender, uma democracia que, embora imperfeita, foi conquistada arduamente, e devemos lutar para mantê-la a cada dia, consolidando-a, aperfeiçoando-a.

Democracia se conquista e se faz nas ruas, com participação popular. As agressões físicas só se tornam legítimas quando o governo não admite qualquer espécie de diálogo, como aconteceu recentemente na Síria e no Egito, como ocorreu no Brasil no fim dos anos 60 e início dos anos 70, no auge da Ditadura. Ali, não havia escolha: eram as armas ou o silêncio.

No Brasil de hoje temos plena liberdade de manifestação, de crítica, de reunião, de associação para fins lícitos, de expressão do pensamento, que são garantidas constitucionalmente. Uma agressão física contra um político, em um regime democrático, em nada contribuirá para o aperfeiçoamento das instituições.

A democracia não é só um fim, é também um meio utilizado para externarmos nossas insatisfações, nossos justos anseios por mudanças. E se queremos respeito, temos de começar respeitando aos outros. Ainda que seja um governador que, muitas vezes, possa não merecê-lo.

 Servidor público municipal, professor e advogado.

 

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Walmir Rosario

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