SÓ NO PRÓXIMO ANO

Walmir Rosário*

Com a proximidade das eleições, todo o Brasil parou para assistir a disputa entre os candidatos à Presidência da República. Por conta disso, nossos parlamentares também não trabalham em plenário ou nos bastidores dos ministérios, pois se encontram atarefadíssimos em busca de votos e dinheiro para incrementar a campanha.

Enquanto isso, os mortais cidadãos – do Oiapoque ao Chuí – ficam ao sabor da própria sorte. Caso um desses desvalidos precise de um serviço oferecido pelos governos, especialmente o federal – mais longe do contribuinte – encontra o cofre trancado, apesar da necessidade da prestação do serviço. O mesmo tratamento não vale para os banqueiros, empresários da aviação e outros tantos privilegiados.

Os agricultores, pelo tratamento que recebem do Governo Federal, estão incluídos na classe dos desvalidos, e os altos escalões em Brasília não abrem mão de cortar rubricas do Orçamento. Mesmo que isso importe em significantes prejuízos para o país. Decisão tomada, promessa cumprida. E que exploda o Brasil.

Aqui, bem pertinho de nós, na Ceplac, responsável pela pesquisa, assistência técnica e ensino técnico agropecuário nas regiões cacaueiras do Brasil, estamos presenciando as ações desse (des)governo. Há muito os técnicos não podem exercer o seu mister por absoluta falta de recursos. Não há dinheiro para abastecer os carros, pagar a energia elétrica, telefone e outras despesas normais de custeio.

Não é apenas uma nova ordem para desmantelar a Ceplac, pois sua prima-rica, a Embrapa, também está padecendo do mesmo mal: o descaso dos nossos governantes. Mas, o que nos interessa mesmo é como o cacauicultor vai poder continuar a renovar suas roças sem ter por perto quem lhes dê orientação técnica, quem conduza essa grande programa instituído pelo próprio governo federal.

É a própria sobrevivência da Ceplac, como instituição eficiente, que está em jogo, e o cacauicultor terá, pela primeira vez, de assumir a condução do seu próprio destino. Ao contrário de antes, quando delegada à Ceplac o que fazer da sua propriedade, hoje é ele quem deverá decidir sobre o futuro e a viabilidade do seu próprio negócio.

É chegada a hora do agricultor, além de planejar seu próprio negócio, influenciar nas decisões políticas que o cercam. Parece inverossímil, mas o produtor de cacau ainda não possui o prestígio e força política para carrear os recursos necessários ao fomento de sua atividade. E olhe que se trata da liberação de apenas R$ 127 milhões para a recuperação da lavoura de cacau da Bahia.

Se um recurso de pequena monta como esse se torna inacessível aos cacauicultores, não há de se pensar em promessas maiores, a exemplo dos R$ 489 milhões para o custeio da safra. Ainda mais se levarmos em conta que estamos em fim de governo, quando está em baixa manter a hierarquia administrativa. Será melhor para o cacauicultor – como todo o cidadão – pensar no futuro, no próximo ano, quando poderá, de forma organizada, cobrar dos nossos governantes essa dívida histórica para com a cacauicultura.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Agora Rural em 14-09-2002

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