SEM CHARLES, ITABUNA PERDE MUITO DO CHARME E BRILHO

Walmir Rosário*

Itabuna nunca mais será a mesma após a sentida ausência do jornalista e promotor de eventos Charles Henri. Sempre fui adepto da frase “ninguém é insubstituível”, mas se tratando de Charles é diferente, porque ele sempre foi uma pessoa diferenciada e continuará fazendo falta como gente, ser humano, e como profissional.

Sua história não foi e nem poderá ser contada em definitivo, pois sempre ficará um tema de fora da conversa, haja vista a quantidade dos seus feitos, nas mais diversas áreas de atuação. Para Charles, não bastava ser bom, era preciso ser bem-feito, chegar à perfeição. Esse cuidado era a dose de pressão que necessitava para suas realizações.

Com ele mudaram-se os conceitos de Itabuna, seja na forma de elaborar uma coluna social, ao realizar um desfile de moda, uma festa de 15 anos, uma homenagem especial. Os pequenos detalhes eram vistos e revistos, tratados com esmero para chegar à excelência. Essa era uma marca registrada por Charles Henri.

Ainda jovem foi buscar conhecimento e experiência no Rio de Janeiro, onde estudou e aprendeu o dom da transformação. Voltando a Itabuna, não parou de surpreender em tudo o que fazia. Tornou o colunismo social atraente e agradável de ser lido.

A sua ausência não será só sentida em relação aos eventos em que promovia, mas, sobretudo pelas atitudes. Sim, era uma pessoa que não espera acontecer, pois sabia fazer a hora. E como sabia. Itabuna deve muito a ele, especialmente quando não deixou o Itabuna Esporte Clube “morrer” por inanição e assumiu a presidência do Meu Time de Fé.

Na presidência, formou uma das melhores equipes do Itabuna Esporte Clube, cuja escalação ainda está na memória dos que tiveram a felicidade de assistir aos jogos; O Estádio Luiz Vianna Filho também prosperou com as idas e vindas de Charles a Salvador, com sua lista de pedidos a Antônio Carlos Magalhães e atendidas pessoalmente pelo secretário Bernardo Spector.

Em 1988, Charles Henri resolve atuar na política partidária e se candidata a vereador em Itabuna pelo Partido Democrático Trabalhista, o PDT de Leonel de Moura Brizola. Não conseguiu os votos suficientes para assumir uma cadeira no Legislativo, talvez por não conhecer os meandros e bastidores da política. Caso fosse vencedor, quem sabe teríamos um legislativo mais cônscio dos seus deveres para com a sociedade.

Perdeu Itabuna, mas Charles não perdeu a ousadia e em outra oportunidade se candidatou, foi eleito e assumiu a presidência do Sindicato de Jornalistas do Sul da Bahia (Sinjorsulba), que agonizava na “UTI” corporativa. Encarou, mais uma vez, o desafio e deu conta do recado com todos os efes e erres mostrando aos incrédulos que o desafio seria mais um obstáculo vencido. E foi.

Nascido Carlos Henrique Brito do Espírito Santo, era católico fervoroso e se dedicava integralmente nas festas religiosas, notadamente nas dedicadas a São José. Além de planejar a decoração do andor, a cada ano mais bonito, também estabeleceu regras para os condutores, do Santo, afastando os políticos de ocasião, que apenas passaram a acompanhar o santo de perto.

Diplomado em filosofia (acredito ter vindo daí a sua preocupação e sensibilidade com a beleza e a estética), não seguiu a carreira, preferindo se dedicar ao jornalismo, sempre com muita responsabilidade em todas as publicações que editava. O deadline (tempo para entrega do conteúdo editorial na redação) era pacífico para o editor e diagramador, embora motivo de pressão para Charles, pontualíssimo com sua coluna, jornais e revistas que editava.

Colecionava amigos com a mesma facilidade que possuía desafetos, em grande maioria por falta de conhecimento da personalidade de Charles, intransigente em suas posições. Se poderia fazer bem-feito, não tirava por menos e sem rodeios e utilizava produtos da melhor qualidade, na culinária, nas fantasias, nas palavras.

Proporcionou, com altivez, aos itabunenses e sul baianos, desmitificar o Carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro ao desfilar pela Beija-flor de Nilópolis como um dos principais destaques. As riquíssimas e belas fantasias que antes somente eram observadas de longe, pela tela da TV, passaram a ser vistas e tocadas entre nós, nas exposições. Quem de nós não sentia o orgulho de ver na telinha da Globo o imponente Charles Henri no seu personagem sendo descrito pelo apresentador…

Toda a excentricidade se transformava em simplicidade e humildade quando tomava conhecimento do sofrimento alheio de uma pessoa amiga ou conhecida. Se desesperava e chorava junto, movia céu e terra para solucionar o problema alheio como se fosse coisa do outro mundo e também não os tivesse. Pra ele pouco importava, o importante era a felicidade. Era o Charles Henri gente, amigo, conciliador, apaziguador, benfeitor. Era o seu lado Irmã Dulce.

Nos bate-papos entre nós, Adervan sempre encorajava Charles Henri a abrir a boca com vontade e sem pudor. Sua proposta era que – munidos com uma câmera na mão e todas as ideias na cabeça – ficássemos trancados num hotel em outra cidade para ver e ouvir toda a história de Charles, sem pudor ou piedade, e, por conseguinte, grande parte da história de Itabuna e região.

Mesmo com os constantes apelos, Charles Henri não se encorajou para esse importante empreitada. Quem sabe, essa recusa à proposta por Adervan, não seria uma mera falta de coragem, mas, simplesmente, uma ponderação inteligente e de muito bom senso por parte de Charles, para não ferir suscetibilidades. É uma pena, pois mesmo que custasse um alto preço, teríamos conhecimento da verdadeira história de Itabuna, aquela que nunca é contada nos livros comportados.

* Radialista, jornalista e advogado

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