RESSACAS DO CARNAVAL

Walmir Rosário*

O Carnaval Antecipado de Itabuna foi um dos melhores dos últimos tempos, em termos de atrações e presença de público. Sem sombras de dúvida, podemos dizer que a cada ano fica melhor, não fosse a falta de contemplação de gêneros diferentes de músicas e espetáculos relembrando nossa cultura.

Não acredito que seja saudosismo reivindicar ao poder público que realize investimentos nesse setor, trazendo de volta nossas escolas de samba, blocos de bairros, afoxés e outras entidades carnavalescas. Não, eles não acabaram porque a população simplesmente as deixou de lado, e sim por falta de apoio, já que contam com pessoas qualificadas em marketing – em sentido lato – com sabedoria e know how suficiente para administrar essas verdadeiras megaestruturas.

Os blocos de sujos são outras entidades em via de extinção, enquanto proliferam as megaestruturas de blocos arrastados por trios elétricos e cantores e bandas famosos como Netinho Chiclete com Banana, Ivete Sangalo e outros monstros sagrados da música baiana. Aqui, entre nós, sobram nomes, mas falta condições ao povo de expressar sua verdadeira cultura.

Há, ainda, os que conseguem sobreviver, a exemplo dos Casados I…Responsáveis, que com sua irreverência consegue arrastar multidões por onde passa, sem aplicar recursos financeiros em tecnologia e nomes famosos, investindo, apenas, em alegria. Essa tradição dos “Casados” é uma prova inequívoca de que a cultura carnavalesca pode sobreviver às novas gerações.

Mesmo não sendo adepto dos altos investimentos do poder público municipal na estrutura carnavalesca, defendo a intervenção do erário municipal para reduzir as desigualdades. Como existem foliões sem condições financeiras para brincar nos grandes blocos, nada de mais o apoio da Prefeitura, no sentido de satisfazer seus munícipes, deixando os pesados investimentos para as empresas particulares, promotoras de eventos em centenas de cidades brasileiras.

A descentralização do Carnaval, formando sítios diferentes conforme a variedade do evento, também seria outra medida bem-vinda, permitindo que cada folião frequente o local de acordo com seu gosto. Até os anos 80 isso era uma prática adotada em Itabuna, sendo as avenidas Fernando Cordier e Firmino Alves destinadas aos desfiles de blocos e escolas de samba, enquanto a avenida do Cinquentenário e a praça Adami aos blocos menores e trios elétricos, ficando o calçadão da Ruy Barbosas para a sonorização mecânica.

Hoje, ao contrário, o folião somente dispõe das avenidas Mário Padre e Aziz Maron, onde são concentrados todos os eventos. Este ano, apesar de todo o brilhantismo e a riqueza dos eventos, os foliões também foram obrigados a conviver com o mau cheiro vindo do rio Cachoeira, onde deságuam todos os esgotos de Itabuna e fedentina da própria avenida.

É inconcebível que o alto volume de investimento feito na promoção de uma festa dessa proporção não tenha os mesmos cuidados quando se fala em limpeza pública. Além do mau cheiro deixado pela urina, era insuportável a fedentina deixada pela falta de uma limpeza bem-feita, dando a impressão de que os foliões estariam num chiqueiro e não numa das mais bonitas avenidas de Itabuna.

Vai aí uma sugestão para o nosso prefeito: em vez de sair do interior de um carro com ar-condicionado para ingressar num luxuoso camarote, faça como em anos atrás, quando ainda andava com desenvoltura junto ao povo. Ou então que tenha bons auxiliares para planejar um Carnaval bem decente.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 03-02-2004

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