Remédio amargo e de efeito duvidoso

Walmir Rosário

No monumental esforço que o país empreende para salvar a mais duradora de todas as suas moedas desde que a inflação entrou em descontrole nos anos 70, tanto os desafios externos quanto os internos se acumulam de forma preocupante. No plano externo, o esforço é para convencer os investidores de que, depois de perder a âncora do câmbio, a moeda brasileira poderá se sustentar na seriedade fiscal. No plano interno, as questões a serem enfrentadas não são menores. Vão desde a aprovação do ajuste fiscal de emergência até a necessidade de se superarem movimentos como o desencadeado pelos governadores de oposição e as pressões inflacionárias por contra da desvalorização cambial. É da capacidade de superação imediata de desafios internos e externos que depende, nesse momento, o futuro do Real.

Embora o mercado tenha revelado ontem menos sobressaltos em relação aos últimos dias, ainda é cedo para prever quanto a moeda dos brasileiros encontrará seu ponto de equilíbrio. O único consenso nesta área é o de que, enquanto a votação do ajuste não for concluída pelo Congresso, a economia ficará à mercê de uma perversa combinação de desvalorização brusca e acentuada do Real com juros em níveis proibitivos para as empresas. O resultado é favorável para os segmentos exportadores e, em particular, para os estados do Sul e Sudeste, de forte tradição no mercado externo e perversa para o restante da Federação, que passará a comprar mais caro no exterior. Em compensação, praticamente inviabiliza a produção, para qual a desvalorização determinada pelo mercado num ambiente recessivo e sem mecanismos de indexação tem efeitos desastrosos.

A perversa combinação de situações desfavoráveis deve levar o país a refletir sobre o que é de fato essencial nesta hora de dificuldades. E, a partir daí, deixar para um segundo momento questões que podem ser resolvidas num prazo mais longo. No front internacional, não há duvida de que a prioridade neste momento é tranquilizar as duas dezenas de países industrializados que, coordenados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), se cotizaram num megaplano de ajuda prevista de US$ 41,5 bilhões. O aval, com medidas que garantam uma redução consistente do déficit a médio prazo, é condição imprescindível para que o país possa equacionar uma crise financeira de proporções inéditas.

A correção de rota prenuncia dias difíceis, mas lembra-se que, depois de enfrentarem desvalorizações em suas moedas, os países asiáticos já se esforçam hoje para conter valorizações frente ao dólar. A reversão de expectativas só foi possível porque aproveitaram a crise para fazer o que deveria ser feito e, com isso, ajustarem suas economias.

Enquanto o Governo Federal não privilegiar o setor produtivo nacional, novos ataques especulativos estarão fadados a acontecer. Sem produção não emprego, não há renda, e essa regra básica nossos economistas aprenderam no primeiro ano do seu curso. Não dá para esquecer tão facilmente.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no caderno Momento Empresarial do Jornal Agora em 23-01-1999

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Walmir Rosario

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