Quem disse que traíra tem espinha?

Ficou bem pra traz o tempo em que preparar uma boa peixada era coisa de “beiradeiro” (pessoa do litoral), acostumado aos diversos tipos e qualidade de peixes e qual a maneira mais correta de prepará-los, se cozido, frito, escabeche, etc.

Mas esse tempo já passou e hoje em todo o Brasil os frutos do mar, peixes aí incluídos, fazem parte dos cardápios de restaurantes de Norte a Sul, Leste a Oeste do País. Em cada região são destacadas as regionalidades, com seus temperos especiais e o toque de cada cozinheiro(a).

Em Minas Gerais não é diferente, ao contrário, as receitas apresentam sabores diferentes e exclusivos, principalmente quando a matéria-prima são os peixes de água doce. Cada uma melhor que a outra, diferenciando apenas pelos temperos e tipo de panela (fritura ou cozimento).

Também não é de se admirar. Minas Gerais tem as nascentes dos grandes rios brasileiros, a exemplo do São Francisco, Doce, Jequitinhonha, Mucuri, Grande e Paranaíba (que formam o Paraná), Piracicaba, somente para ficar nos mais conhecidos e que cortam vários estados brasileiros.

Mas não é propriamente só dos rios que vem um dos peixes, mas das represas, açudes, lagos e lagoas dos grotões mineiros: é a Traíra, (Hoplias sp.) ou Lobó, um peixe carnívoro de água doce da família dos caracídeos.

Prato desconhecido da maioria dos brasileiros por ter dentes afiados, que além de comer outros peixes cortar linhas de pescadores, a traíra também é desprezada pela quantidade de espinhas em forma de ypsilone, que exige muita atenção e perícia dos apreciadores na hora de comê-la.

Mas o inventivo mineiro não deixou por menos para comer a traíra sem qualquer tipo de preocupação: Criou a Traíra sem espinha, aliando a boa gastronomia ao marketing. Nada que não se possa fazer por esse Brasil de meu Deus, desde que atente para alguns requisitos e cuidados especiais.

Quem aprendeu com os mineiros foi o engenheiro agrônomo Montival Leal, consultor de empreendimentos agropecuário e cozinheiro de “mão cheia”. Mesmo sendo um soteropolitano da gema, Montival é detentor desse know-how mineiro e dias desses convidou a mim e ao casal Clara/Augusto Ferreira para experimentar uma de suas especialidades. E fui, não sem antes reservar uma garrafa da mais pura cachaça mineira “Canarinha”, uma preciosidade deixada por Miguel Soares antes de se mandar para Uberlândia.

Após o descongelamento, Montival nos deixou no bate-papo e rodadas de cachaça com cerveja, vestiu seu melhor avental e, junto com a esposa Luíza, passou a dar o devido tratamento às traíras. Ele não esconde o segredo e ainda nos fez uma demonstração de como fazer para não deixa uma só espinha inteira.

“Simples – disse Montival enquanto trabalhava com uma faca bem afiada –, basta cortar o filé da traíra no sentido diagonal, sempre contrário à direção das espinhas. Está aí o segredo – ou know-how, como diz a gente de língua inglesa – guardado a sete chaves Brasil afora.

Após o tratamento devido, Montival temperou os filés, agora cortados em tiras, deixou-os por 30 minutos marinando no limão, azeite de oliva e pimenta e cominho, e se voltou às operações etílicas enquanto nos explicava como preparar o prato.

MODO DE PREPARO

De início, coloque a frigideira com o óleo ao fogo e quando estiver bem quente leve os filés para fritar, depois de passado na farinha (de rosca, mandioca, trigo ou fubá), de acordo com sua preferência. Quando estiverem fritos, retire os filés e escorra-os em um papel para absorver o excesso do óleo.

Pode acompanhar o prato pães cortados em fatias e um molho com azeite de oliva, cebola, tomate, tempero verde e um dente de alho. Frite a cebola e o alho, coloque o tomate e tempero verde fritando por cerca de 10 minutos. Coloque o molho numa tigela e vá irrigando os filés.

Agora, é só se deliciar com um peixe de água doce de excelente paladar e fácil de fazer, para quem domina essa técnica. Não esqueça da cerveja bem gelada após uma cachaça de qualidade comprovada.

INGREDIENTES:

– 8 traíras de cerca de 200 gramas;

– Sal (a gosto);

– pimenta e cominho (a gosto);

– 1 limão;

– óleo para fritar.

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Walmir Rosario

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