Pra inglês ver

Walmir Rosário

Inconsistente, incoerente, lacônica e superficial. A Nota Técnica da Ceplac é para se ler tentando um entendimento nas entrelinhas. Traz saudades o tempo em que se encontrava na Ceplac a maior concentração de ciência por metro quadrado. Os pesquisadores faziam questão: não eram pós-graduados, nem mestres, nem PhDs, nem doutores: eram cientistas. A redação era clara, linear, equatoriana, para todos entenderem.

A Nota Técnica que a Ceplac divulgou quarta-feira (23) às vésperas dos festejos juninos, entretanto, é única. Simplesmente ininteligível, uma salada de frutas. É possível uma justificativa: há um processo em administração, chamado de identificação, que demonstra um certo alinhamento dos funcionários com as ideias e procedimentos da chefia, sem necessariamente concordar com ela; é a Ceplac e o presidente Lula, nos seus discursos e pronunciamentos, com o mesmo português, a mesma gramática, a mesma concatenação de ideias… Nem o diretor do órgão, o mais fiel seguidor desse preceito, teve coragem de assinar.

Algumas frases desafiam Champolion e sua famosa pedra de Roseta. Outras parecem ter sido traduzidas de algum idioma perverso, por um desses tradutores de texto eletrônicos, e transcritas fielmente para a nota.

Primeiro, o documento cita que a vassoura-de-bruxa chegou no Suriname em 1895 e desde então se tornou cruel algoz das plantações. Na vítima seguinte, o Equador, menciona que a produção de cacau foi recuperada na década de 50, mas não menciona que a doença chegou no país em 1920 e a saída para o problema foi a enxertia. No Brasil, mais precisamente na Bahia, a doença chegou em 1989. Nessa época, o Equador já tinha saído da crise há muito tempo.

Apesar dos acordos de cooperação técnica, que persistem até hoje, a Ceplac confessa que optou pelo controle integrado, método empregado até hoje, mas ao mesmo tempo reconhece que esta recomendação não gerou resultados econômicos satisfatórios, ou seja, sabe-se que não funciona, mas recomenda-se. Em algumas civilizações mais avançadas, esta postura é tida como irresponsável, mas a Ceplac defende-se, alegando ter sido a tecnologia disponível naquela época.

Nas entrelinhas, porém, a nota reconhece que a tecnologia recomendada na 1ª e 2ª etapas do Programa de Recuperação não tiveram resultado econômico, quando registra: “…essa medida do crédito liberado para a região teve caráter estratégico, sendo essencial para manter o nível de dinamismo, mesmo restrito, da economia local, preservar muitos postos de trabalho e contribuir para conter a degradação dos recursos naturais da região…” e, posteriormente: “…os produtores que aderiram ao Pesa e não tiveram acesso às fases III e IV ficaram impossibilitados de cumprir suas obrigações creditícias, porque só a clonagem viabiliza o pagamento das fases anteriores;” (grifo nosso).

Num dos últimos parágrafos, em sub-item, reconhece também que o pacote técnico formulado para a 3ª e 4ª etapas também não tiveram prazos adequados, e que estão aquém dos necessários: “os que concluíram as etapas III e IV e não podem pagar suas dívidas porque em suas fazendas, apesar de recuperadas, o cacau ainda não atingiu a sua plenitude de produção;”.

No mais, sugere em diagnóstico detalhado da situação financeira dos produtores. Mais um documento, que provavelmente descansará em alguma gaveta dos altos escalões do governo, junto com os demais. A lavoura cacaueira não precisa de mais diagnósticos, precisa de responsabilidade e compromisso do governo e suas instituições. Precisa de um basta no amadorismo e tratar o assunto com o respeito que merece e a importância que ele tem.

Para os apreciadores de um bom português, há algumas pérolas para deleite. Escolhemos uma: “No entanto, a liberação desses recursos deixou como consequência um estoque financeiro alto, causando o endividamento dos produtores rurais”. Todos estão desafiados a entendê-la.

O documento é assinado por um administrador, um pesquisador e um extensionista, e encaminhado por um arremedo de político ao ministro. Se os trabalhos e a Ceplac foram dirigidos com a linha de raciocínio e o nível de compromisso empregados nesse texto, aos produtores convém rezar. Não haverá saídas.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 28-06-2004

 

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Walmir Rosario

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