PINGA, O HERÓI DO HEXA

Walmir Rosário*

Perder para Ilhéus era o desespero de cada um dos jogadores da Seleção de Itabuna. Esse sentimento também era partilhado por Wilson Dias da Costa, o Pinga, que por ironia do destino era um ilheense nascido no distrito do Banco Central. Por volta de 1953, Pinga chegou a Itabuna e, como todo menino daquela época, jogava babas nos campos de bairro até ser descoberto pelo Náutico, time juvenil que posteriormente se fundiu com o Janízaros.

O Janízaros foi o único time amador que Pinga jogou até se transferir para o Itabuna Esporte Clube, já profissional, onde jogou apenas seis meses. Nesse curto período, ele se desencanou com o futebol profissional, no qual os craques eram colocados na reserva de jogadores medíocres trazidos por técnicos do rio de Janeiro e São Paulo. E no Itabuna não era diferente, por isso ele preferiu e encerrar sua carreira esportiva.

Centroavante e ponta de lança, Pinga (foto) possuía uma característica diferente de jogar, pois seu estilo era buscar o jogo na defesa e carregar a bola até o ataque. Com isso, tanto fazia gols como servia seus companheiros do Janízaros – Marinho e Nelsão –, artilheiros do time. Pelo Janízaros jogou até 1966, quando foi desfeita a Seleção (amadora) de Itabuna. Nesse período foi campeão juvenil e amador, inclusive do torneio do Cinquentenário de Itabuna.

Consagração

Em 1963 foi convocado para a seleção amadora e ganhou o tetracampeonato. Também participou do penta, mas sua consagração definitiva veio no campeonato de 1965 – disputado até o ano seguinte –, quando a Seleção de Itabuna venceu o Intermunicipal pela sexta vez consecutiva, sagrando-se hexacampeã, em Alagoinhas, com um gol de Pinga.

Pinga relembra esse fato como muita emoção e diz que, para ele, foi a glória ser recebido em Itabuna com muita festa, desfilando pelas ruas da cidade em cima de um carro do Corpo de Bombeiros. “Emoção igual àquela somente a de ganhar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. Se jogar na Seleção de Itabuna já era um grande reconhecimento, hexa, então, era demais, ainda por cima por ter marcado o gol da vitória”, relembra.

Segundo Pinga, ser convocado para a Seleção de Itabuna era motivo de orgulho para qualquer jogador, ainda mais pelo clima de amizade entre eles, tanto dentro de campo como fora. Pinga diz ter sido um privilégio jogar com craques como Santinho, Fernando Riela (só viu um parecido com ele: Sávio do Flamengo), Ronaldo, Abiezer, Tombinho (maior líder em campo), dentre tantos outros.

Mesmo tendo recebido instruções do técnico no vestiário, Pinga se recorda que, dentro de campo, todo o esquema tático poderia ser modificado, de acordo com o comportamento do adversário. E isso era feito pelos próprios jogadores. Ele conta que na partida decisiva contra a Seleção de Alagoinhas, além de jogar contra um time bom e que deixava jogar, ainda tinham que se cuidar para não se machucarem devido às péssimas condições do gramado, e tudo isso era decidido pelos jogadores.

Destemido

Pinga revela que nunca acreditou em peso de camisa, bem como temer adversários mais famosos. “Jogávamos de igual para igual e éramos respeitados por todos”, relembra. Numa de suas viagens pelo Rio de Janeiro se encontrou com o técnico do fluminense, Antoninho, que lhe confidenciou considerar a Seleção de Itabuna a melhor equipe amadora que já tinha visto jogar.

Outro fato poderia ter mudando sua vida, porém ele não quis abandonar o emprego no Banco Baiano da Produção e se mudar para o Rio de Janeiro. Na capital carioca recebeu o convite de Bel para acompanhá-lo até a sede do Botafogo onde o colega faria um teste. Foi a Marechal Severiano para assistir ao treino de Bel no time da estrela solitária.

Quando o técnico do Botafogo, Paraguaio, soube que ele também era jogador, resolveu convidá-lo para participar do teste. Pinga não contou conversa. Entrou e arrasou, marcando três dos cinco gols. Os outros dois foram feitos por Bel. Satisfeito, Paraguaio ainda tentou que ele participasse de outro treino, porém não aceitou o convite e voltou para seu emprego em Itabuna.

Competência

Apesar de Ilheense, não se conforma até hoje ter perdido a última partida da Seleção de Itabuna (dele também) contra a de Ilhéus, pelo placar de 1 X 0, mesmo reconhecendo a alta qualidade dos jogadores adversários. Pinga destaca o nível dos jogadores de Itabuna, que para ele seriam titulares em qualquer time do Brasil, bastando apenas mais um pouco de preparo físico.

Outros irmãos de Pinga também jogaram futebol amador em Itabuna, a exemplo de Nal, goleiro do Flamengo, Fluminense e Seleção; Régis, lateral esquerdo do Janízaros e Seleção; Gílson, quarto zagueiro do Janízaros; e Dílson, meio-campo do Janízaros. Obedecendo a recomendação médica, Pinga deixou o futebol – devido a uma distensão na virilha –, mas continua atento ao que se passa no meio esportivo.

* Radialista, jornalista, advogado

Publicado no Jornal Agora em 28-07-2002

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