SANTO PADROEIRO

SÃO BOAVENTURA, O SANTO PADROEIRO

Nos conta a história que o Santo Padroeiro de Canavieiras, São Boaventura, tem como origem o aparecimento de sua imagem nas praias do Poxim (atual distrito), em fins do século XVII e início do XVIII. A imagem encontrada pelos pescadores media 90 cm, em madeira de cedro, concebida e elaborada no estilo barroco português.

Segundos memorialistas e historiadores, a imagem deveria pertencer a algum navio português naufragado nessa área e teria sido levada pelas correntes marítimas até o Poxim. Ainda pertencente à Freguesia da Invenção da Santa Cruz de São Jorge dos Ilhéus, o povoado do Poxim foi desmembrado do e passou, por ato do arcebispo da Bahia, Dom Sebastião Monteiro da Vide, em 11 de abril de 1718 a Freguesia de São Boaventura do Poxim.

Nessa época, como eram constantes os ataques dos índios Botocudos, a população do Poxim mudou-se para onde hoje é a sede do município de Canavieiras, à beira dos rios Pardo e Patipe. Sem as guerras com os indígenas, o povoado prosperou e foi elevado à condição de vila, sob o nome de Imperial Villa de Cannavieiras, em 13 de dezembro de 1832.

Consolidada com município e paróquia, Canavieiras festejou em 11 de abril de 2018 os 300 anos de instalação, com festejos preparatórios inciados com três anos de antecedência. Nesses três anos de reflexão, a comunidade avaliou os últimos 300 anos, para planejar o futuro e acompanhar as transformações na Igreja e na comunidade.

QUEM É SÃO BOAVENTURA?

Nascido em 1218, na cidade de Bagnoregio, em Viterbo, na Itália, Frei Boaventura foi batizado com o nome de Giovanni (João) de Fidanza. O pai era um médico conceituado, mas, como narrava o próprio Boaventura, foi curado de uma grave enfermidade ainda na infância por intercessão de são Francisco.

Aos 20 anos de idade, ingressou no convento franciscano, onde vestiu o hábito e tomou o nome de Boaventura dois anos depois. Estudou filosofia e teologia na Universidade de Paris, na qual, em 1253, foi designado para ser o catedrático da matéria. Também foi contemporâneo de Tomás de Aquino, outro santo e doutor da Igreja, de quem era amigo e companheiro.

Boaventura buscou a Ordem Franciscana porque, com seu intelecto privilegiado, enxergou nela uma miniatura da própria Igreja. Ambas nasceram contando somente com homens simples, pescadores e camponeses. Somente depois é que se agregaram a elas os homens de ciências e os de origem nobre. Quando frei Boaventura entrou para a Irmandade de São Francisco de Assis, ela já estava estabelecida em Paris, Oxford, Cambridge, Estrasburgo e muitas outras famosas universidades europeias.

Boaventura, também era chamado de Doutor Seráfico, era, a exemplo dos franciscanos, um homem extremamente piedoso, e sua teologia considerada prática, cujo propósito principal é leva à bem-aventurança, à comunhão com Deus. Eleito Ministro Geral dos Franciscanos, cargo que ocupou com distinção até o ano de 1271, quando foi promovido a Cardeal pelo Papa Gregório X, com o título de Arcebispo de Albano.

Acometido de gravíssima doença, foi assistido em sua última agonia pelo Papa Gregório X, o Sr. Giovanni de Fidanza, Frei Boaventura, Geral da Ordem de São Francisco de Assis, Cardeal Arcebispo de Albano e Seráfico Doutor da Igreja, exalou seu último suspiro no convento dos Freis Menores de Lyon, com apenas 53 anos de idade, no alvorecer de 15 de julho de 1274.

IGREJA MATRIZ DE SÃO BOAVENTURA

Desde a elevação de Canavieiras à condição de vila que a população foi crescendo e transformada em Freguesia. Uma igreja em homenagem a São Boaventura foi erguida na atual praça da Bandeira, em frente ao prédio do Banco do Brasil.

Com o desenvolvimento da população e a prosperidade local, uma igreja maior e mais condizente com o desenvolvimento da vila de Canavieiras, uma nova foi planejada para substituir a antiga, que não abrigava o grande número de católicos.

A atual Igreja de São Boaventura teve sua construção iniciada em 1912 e foi inaugurada em 1932, portanto na primeira metade do Século XX. Ela é em estilo neoclássico com uma cúpula frontal no lado esquerdo de quem entra e, por este motivo, um caso raro em arquitetura religiosa.

A Igreja foi construída quando o cacau era um cultivo sinônimo de grandeza, tornando Canavieiras uma das mais ricas do Estado da Bahia, mesmo com uma pequena população de menos de cinco mil habitantes, à época.

SÃO BOAVENTURA, FESTEJOS

RELIGIOSOS E PROFANOS

O Santo Padroeiro de Canavieiras, São Boaventura, é festejado anualmente no dia 14 de julho, embora os festejos comecem no dia 1º de julho, com a realização de uma trezena em sua homenagem. A cada ano é escolhido um tema religioso para a conscientização dos católicos, e a cada noite a missa é dedicada a um segmento da comunidade, com o estudo de um subtema.

Ao final da tarde, uma procissão (carreata) sai da entrada da cidade em direção à Igreja Matriz, onde o pároco a espera na escadaria e asperge água benta em carros, motos e bicicletas, e para completar o ato de fé e de confiança no poder de São Boaventura, a população se dirige ao andor do Santo para retirar e guardar as folhas e flores que enfeitavam o andor. Diz a tradição, que guardar uma folha ou um pedaço de flor na carteira não terá dificuldades financeiras, males e doenças.

As homenagens ao padroeiro são finalizadas no dia 14, sempre a partir das 6 horas, com alvorada festiva, o hino de São Boaventura, repicar de sinos e queima de fogos. Às 10 horas é celebrada Missa Solene em louvor ao Padroeiro; às 16 horas é promovido o Momento Devocional; e às 17 horas é realizada a Procissão e a Benção do Santíssimo Sacramento.

Cortejo e Lavagem da escadaria

Todas as noites, assim que encerra a devoção religiosa na Igreja Matriz de São Boaventura, os fiéis saem da igreja e se dirigem à praça em frente, que leva o nome do Santo. Ali estão instaladas as barracas de comidas e bebidas e o palco no qual são promovidas as apresentações musicais, custeadas pelo Município ou segmentos da comunidade responsáveis pela noite.

O local é o ponto de encontro dos canavieirenses que aqui residem com os canavieirenses de fora (residentes em outras cidades), que voltam à cidade para rever os amigos e familiares e renovar sua fé e pedir a proteção do Padroeiro. Os festejos também atraem turistas de várias partes do Brasil e que costumam frequentar a cidade durante as férias de julho, além dos visitantes das cidades próximas, que foram distrito de Canavieiras e se desmembraram, mas que continuam com a devoção a São Boaventura.

No segundo domingo de julho, a partir das 10 horas, a cidade está repleta de fiéis de São Boaventura e uma multidão de turistas, para o Cortejo e a Lavagem da Escadaria da Igreja Matriz. “Arrastados” por um trio elétrico e uma banda famosa, a multidão sai da Praça Maçônica até a Praça São Boaventura, para a tradicional Lavagem da Escadaria da Igreja de São Boaventura.

Além do trio elétrico, abrilhantaram o cortejo um carros alegóricos com a representação da Igreja Matriz de São Boaventura e outras figuras da história de Canavieiras, crianças representando o Santo, baianas com flores e água de cheiro, os grupos folclóricos, Capoeira, as Filarmônicas 2 de Janeiro e Lyra do Commercio, Fanfarras e charangas.

Flores e água de Cheiro

Ao chegar à Praça São Boaventura, a escadaria da Igreja de São Boaventura é tomada pelas baianas e os grupos folclóricos, iniciando a tradicional lavagem da escadaria da Igreja do Padroeiro. Manda a tradição, que além da escadaria, as baianas também lancem a água de cheiro e flores nas pessoas, para “fechar o corpo”. Em sequência ao cortejo e a lavagem, a festa continua até a meia-noite com as atrações musicais variadas.

Uma das marcas da tradição do Cortejo e da Lavagem da Escadaria da Igreja de São Boaventura é a participação livre e democrática, com a presença de diversos grupo políticos presentes. Outra tradição dos festejos ainda mantida a exemplo de servir aos presentes centenas de litros de licor, assim que termina a lavagem da escadaria.

A festa da Lavagem da Escadaria da Igreja de São Boaventura foi idealizada em 1978, na primeira gestão do prefeito Almir Melo, e que perdura até hoje. Inicialmente, a lavagem era realizada, inclusive, dentro da Igreja de São Boaventura, proibidas, pela direção da Igreja Católica, em relação aos festejos profanos da lavagem da Igreja do Bonfim, que se refletiu também Canavieiras.

DATA POLÊMICA

Comemorado em Canavieiras pela Igreja no dia 14 de julho, um corrente de católicos tradicionalistas mantêm o dia 15 de julho como a verdadeira data em homenagem ao Santo Padroeiro São Boaventura. Todos os anos eles se reúnem na praça São Boaventura, em frente a Igreja Matriz para comemorar.

Eles não admitem a mudança da data de 15 para 14, como é hoje, devido à conveniência de uma época em que o pároco pretendia se deslocar com os fiéis para Belmonte, para comemorar Nossa Senhora do Carmo, Padroeira da vizinha cidade. Documentos históricos atestam que a novena se iniciava no dia 2 de julho e se estendia ao dia 15, data de culminância dos festejos.

Os fiéis tradicionalistas, como se autodenominam, também está lastreada na documentação da Igreja Católica Apostólica Romana, que anuncia o falecimento de São Boaventura em 15 de julho de 1274. Nesta data, ele promovem uma alvorada pirotécnica, que se estende por todo o dia, comem e bebem numa das barracas ainda não desarmadas, com debates sobre a influência de São Boaventura na sociedade canavieirense.