OS GRANDES FEITOS E O FOLCLORE DO FUTEBOL DE ITABUNA

Nas memórias de um grande conhecedor do futebol itabunense, um desfile de times, craques, curiosidades, nostalgia e muito romantismo

Carlos Botelho, um batalhador pelo futebol de Itabuna

Da memória de Carlos Botelho, ex-diretor do banco Econômico, grande conhecedor de futebol, vem a afirmação de que “a década de 40 foi um dos períodos mais férteis do futebol itabunense, apesar da guerra, que convocou muitos reservistas”.Grandes clubes como o Grêmio, o Janízaros e, principalmente, a Associação Atlética de Itabuna (AAI) se destacam nessa época. Provavelmente o melhor time do interior baiano, dirigida por José Nunes de Aquino, Clóvis Nunes, Horácio Almeida, Domingos Almeida, a AAI é lembrada com saudades pelos que a conheceram. Mas Botelho cita também o São Cristóvão, o Vasco da Gama (considerado o time dos bichos, por ter no seu elenco quase todos os jogadores com apelidos como Formiguinha, Curió, Papagaio, Camelo e Jacaré, entre outros).

Ele conta que a Associação era um time de elite, em todos os sentidos, com excelentes jogadores, mas exigente a ponto de praticar alguma forma de racismo vigente na época (à maneira do Fluminense do Rio), pois “jogadores com tez mais escura não entravam no time”. Um dos seus melhores elencos era formado por Balance, Ventuíres e Aranha; Aloísio Smith, Valter Caetano e Anizinho; Tido, Galeão, Clóvis, Rosevaldo e Firmino, “todos jogadores brancos”.

Só alguns anos mais tarde a AAI, finalmente, contrata o primeiro homem de cor escura, o zagueiro Ruído, vindo de Jequié, o que provocou bastante celeuma. Com o passar dos anos, a Associação chegou a armar um time com jogadores negros, entre eles Balancê, Dircinho e Álvaro Barbeiro. Nesse período, destaca-se o atacante Pipio, que Botelho informa ter sido “um grande craque, que depois foi jogar no Bahia e, posteriormente no Pará, onde morreu”. Dessa mistura, permitida a presença de negros, a AAI se tornou talvez o maior time do interior baiano de todos os tempos, formado por Niraldo ou Mota, Bolívar e Bacamarte; Zecão, Amaral e Elvécio; Tombinho, Puruca, Juca Alfaiate, Tuta e Zezé.

Nascimento da Desportiva

O velho campo da Desportiva Itabunense

Ainda na década de 40, o time da Associação se desmontou quando seus jogadores saíram praticamente todos e se transferiram para o Guarany da capital, campeão de 1946. Entre os craques que deixaram a AAI podemos citar: Bolívar, Bacamarte, Quiba, Elísio Peito de Pomba (o reserva de Juca Alfaiate), Elvécio e Tuta, num total de oito jogadores. Naquela época, dois jogadores me impressionaram: Tuta e um centro-avante do Flamengo de Ilhéus, chamado José Hugo, um fenômeno que se fosse hoje seria um novo Pelé.

Antes dos grandes êxitos da AAI, nascera, alguns anos antes, o palco desse grande time, a Desportiva Itabunense. Carlos Botelho registra que, no fim da década de 30, um grupo de comerciantes (entre eles Ulisses Dória, João da Cruz Ribeiro, Manoel do Carmo, José Nunes de Aquino e José Costa e Silva) comprou ao coronel Berilo Guimarães uma área para nela construir um estádio. Era o nascimento da Desportiva Itabunense, formado por uma sociedade particular. “Para a inauguração, em 1937, foi convidado um grande clube de Salvador: o Galícia, tricampeão baiano, patrocinado pelos empresários espanhóis, e que possuía um grande time, conhecido como ‘O Demolidor de Campeões’, que participou de três jogos em Itabuna”,atesta Carlos Botelho. A equipe vinha de navio até Ilhéus e de ônibus de marinete Ilhéus para Itabuna.

O Galícia deu um passeio, como se diz na gíria: ganhou o primeiro jogo de 6×0, e o segundo de 5×0. Para o terceiro, Itabuna se encheu de brios, reuniu a melhor seleção que pôde e, ainda assim, perdeu de 3 x 2. “Diante do incipiente futebol grapiúna, o experiente time da capital, já profissionalizado levava grande vantagem”, justifica Carlos Botelho, que aproveita para recitar a formação do “Demolidor”: Delvéquio; Capicui e Gambetá; Nevercindo, Ferreira e Baumer; Cacauá, Nestor, Palito, Capí e Vevé (lembrando que esta era o estilo de escalação naquele tempo: goleiro; dois zagueiros; três armadores (meio-campo) e cinco atacantes.

Grêmio, Janízaros, São Cristóvão

Mas a Associação Atlética de Itabuna, embora sendo absoluta, tinha, pelo menos, um adversário à altura. O Grêmio, por volta de 1943 e 44, em plena II Guerra, outro grande time amador de Itabuna, ficando em segundo lugar, logo depois da Associação. A melhor formação do Grêmio, segundo Botelho, era: Babão; Sapateiro e Lameu; Zeferino, Noca e Colatina; Manchinha, Lubião, Juca, Macaquinho e Elísio. Observe-se que um futuro grande valor da AAI, Juca Alfaiate, nesse período, envergava a camisa do Grêmio.

O terceiro time de Itabuna era o São Cristóvão, do Pontalzinho, comandado por Eliseu Pedra, e com uma escalação curiosa, por conter três nomes da mesma família: Barraquinha, Nenzinho e Madeira; Jeguinho, João Pretinho e Derval Pedra; Dermeval Pedra, Mil e Quinhentos, Ládio, Peba e Dioclécio Pedra.

Mas Carlos Botelho confessa que torcia mesmo era para o Janízaros (expressão que, ele explica, vem do turco Yeni Tcheri, significando “Nova Força”). Fundado em 1932 pela família Pires (Ioiô Dedé e Dodô) , “os bravos soldados” tinham na sua formação grandes jogadores, como o goleiro Benício, os beques Rodolfo e Wilton Berbert, além de atacantes como Tindola, Valtinho, Duílio e Manelito. O Janízaros trouxe do Extremo Sul o ponta direita Caticuri e, algum tempo depois, continuava em dificuldades para ganhar campeonatos. “Os irmãos Alberto, Carlito e Fernando Barreto assumiram a direção do time e trouxeram reforços de outras cidades, a exemplo do lateral direito Gato Preto, o centro médio Vade, de Vitória da Conquista, Jade, de Ubaitaba, além de Lubião, do Grêmio, e o goleiro Balance, da Associação.

Clavículas deslocadas

Houve um caso muito interessante aí pelos meados de 1940, quando o Janízaros era líder do campeonato e foi decidir com o Itabuna para ser campeão. O Itabuna tinha um centroavante chamado Zezito Agonia, que era meio pirado em campo, ficava correndo de um lado para outro. Quando terminou o primeiro tempo o Janízaros ganhava de quatro a um. No segundo tempo Zezito Agonia acabou com o Janízaros, fazendo quatro gols e o Itabuna ganhou de cinco a quatro.

Dois jogadores tinham o mesmo e curioso problema. Nicanor, beque do Janízaros, constantemente deslocava a clavícula; e Lafene, jogador do Itabuna, também sofria de um inexplicável deslocamento desse osso. Mas não havia maior dificuldade quanto a isso: era parar o jogo, colocar a clavícula no devido lugar e eles voltavam a jogar.

Naquela época, outras cidades também praticavam o futebol e apresentavam grandes jogadores. “Como em Itabuna, teve a família Riela (Leto, Fernando, Carlos e Lua), em Itajuípe teve a família Vinhas (com grandes craques, a exemplo de Gérson, Valter, Francisquinho e José Vinhas).

Uma das maiores brigas na Desportiva aconteceu entre Osvaldo Gigante, de Itajuípe, e Sílvio Sepúlveda, durante um jogo da Associação com o Itabuna. Osvaldo (Associação) e Sílvio (Itabuna, equipe da qual foi goleiro) chegaram às tais vias de fato na arquibancada, trocaram sopapos e desaforos à vontade, até que a Polícia chegou e pôs as coisas no lugar. Por sinal, Reinaldo Sepúlveda, pai de Sílvio, era delegado. Em função do incidente, Osvaldo Gigante foi proibido de frequentar a Desportiva.

(Depoimento de Carlos Botelho)

Guerra química”

Dois fatos sobre a rivalidade entre Ilhéus e Itabuna ficaram marcados na memória de Carlos Botelho: O primeiro foi o acidente sofrido por Clóvis Nunes de Aquino, centroavante da seleção de Itabuna (Clóvis, apesar de reserva de Juca, que era mais impetuoso, por isso em determinadas partidas era escolhido em lugar do titular mais técnico). Nesse jogo, no primeiro tempo a seleção de Ilhéus ganhava, em casa, de dois a zero, quando o técnico Costa e Silva (gerente das Casas Pernambucanas em Itabuna) tirou o trio atacante de Itabuna (Lubião, Juca e Macaquinho) e colocou no segundo tempo o trio atacante reserva (Mil e Quinhentos, Clóvis e Lameu). Com apenas 15 minutos Itabuna já tinha empatado em dois a dois, com dois gols de Clóvis. Foi quando o violento beque da seleção de Ilhéus, Pedro Fateiro, do Fluminense do Pontal, enlouquecido com o “baile” que tomava, numa jogada criminosa, deu um pontapé o rosto de Clóvis Aquino, causando fratura no nariz e no maxilar. A segunda foi outra briga terrível, também no estádio de Ilhéus, onde Alberto Santana, defendendo os interesses de Itabuna, ficou sozinho e terminou apanhando muito. A briga começou na arquibancada do Estádio Mário Pessoa e foi terminar no meio do campo, tanto que o jogo não teve continuidade. Neste jogo a torcida do Itabuna foi massacrada.

A torcida de Itabuna preparou a revanche. tinha um prático de farmácia, chamado Andrade (trabalhava na Farmácia Caridade, de Dr. Nilo de Santana) que preparou umas “laranjinhas” (bola de gude revestida de parafina e contendo um produto químico). Quando o trem do pessoal de Ilhéus saiu de Itabuna a torcida daqui jogou as tais laranjinhas dentro dos vagões, causando uma fedentina insuportável, além de manchar ou rasgar a roupa. No dia seguinte, o Diário de Ilhéus trazia em sua manchete: “Itabuna lança guerra química contra Ilhéus”. As populações das duas cidades ficaram com as relações estremecidas.

Entre os juízes que mais se destacaram nesta época existia um tipo folclórico chamado de Dr. Mirandinha, e segundo dizem, que para ser respeitado durante os jogos, apitava com uma arma de fogo no bolso de trás. Outros grandes juízes de Itabuna eram Augusto Lima Matos e Manoel do Carmo.

(Depoimento de Carlos Botelho)

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There are 3 comments. Add yours

  1. 6th junho 2019 | ROBERTO BOTELHO MONTEIRO says: Responder
    CARLOS HENRIQUE AMORIM BOTELHO. TRATAVA-SE DE UM GRANDE CONHECEDOR E APAIXONADO PELO FUTEBOL, E PARTICULARMENTE DAQUELE PRATICADO NA SUA CIDADE DE ITABUNA QUE CONHECIA DE PERTO, PORQUANTO PERTENCIA A UMA DAS FAMÍLIAS MAIS ANTIGAS E TRADICIONAIS DA CIDADE , TENDO SEU AVÔ , O CEL. ANTONIO BOTELHO, COMO UM DE SEUS FUNDADORES.
  2. 19th agosto 2019 | Carlos Aquino says: Responder
    Sou um dos quatro filhos de Clovis Nunes e gostei demais das citações sobre o nosso saudoso pai que jogava um bolão na Assiciacao Atlética ! Sobre o jogo do Mario Pessia como poderei obter mais detalhes como data e se o jogo foi na inauguração do estádio . Outro ponto é como poderei adquirir o livro . Saudações Carlos Aquino
    • 20th agosto 2019 | Walmir Rosário says: Responder
      Essa foi uma entrevista que fizemos (Walmir Rosário e José Adervan) com Carlos Botelho, em Itajuípe. Seu primo Ramiro tem uma caderneta com as anotações de todos os jogos, com escalação, resultado e detalhes sobre as partidas.

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