O SENTIMENTO IRREPARÁVEL DA PERDA

Walmir Rosário*

Confesso que foi muito difícil para mim escrever essa última homenagem ao meu amigo Eduardo Lavinsky, companheiro de todas as horas, irmão inseparável nesses 23 anos de intenso convívio. Mais difícil, ainda, é assimilar essa perda irreparável, principalmente pelas circunstâncias em que se deu, através de um trágico acidente. Mas são coisas da vida e a morte nada mais é do que parte integrante dessa nossa existência, aqui neste mundo terreno ou além.

Como amigo, nada mais difícil do que receber uma notícia sobre o desaparecimento de um ente íntimo, mas com Lavinsky Deus nos reservou outras surpresas, atingindo, também, em cheio, o campo profissional. Recebemos a notícia de um acidente – como acontece todos os dias –, buscamos a apuração dos fatos, a identificação das vítimas até o último minuto do fechamento da edição. Em vão.

Não nos conformamos com o fato, e mesmo sem saber de quais pessoas envolvidas, nos preocupamos com a apresentação da notícia como inteiro, conforme recomenda os manuais de jornalismo. Buscamos tudo: quem?, o quê?, onde?, quando? como?, por quê?, embora não pudemos, em tempo, fornecer aos leitores o quem. Parece uma peça pregada pelo destino sobre a morte de um jornalista.

Sim, porque Eduardo Lavinsky foi um jornalista com “J” maiúsculo, profissional preocupado com a técnica, a ética, com a repercussão dos fatos nas pessoas, na sociedade. Jornalista dos mais brilhantes, dono de um texto escorreito, chegava ao extremo no zelo com todos os processos de elaboração da notícia, indo desde a apuração até a chamada na primeira página, caso merecesse tal distinção.

Intransigente, não admitia interferências descabidas no trabalho do jornalista, mas sabia como ninguém ouvir – e com que paciência de um monge – todos os lados dos fatos. Nada o tirava mais do sério como ler um texto jornalístico incompreensível, mal apurado, malfeito. Acreditava, ele, que não prestava a notícia e muito menos quem teve o desplante de escrevê-la.

Nasceu para o jornalismo, embora eu soubesse que seu sonho de criança era ser piloto de avião – projeto que nunca se concretizou –, mas que continuava no seu subconsciente. Se sentia feliz com o movimento do aeroporto, não se cansava de ver aviões subindo e descendo, movimento de pilotos. Mas exercia o jornalismo com a mesma precisão de um piloto de avião, profissional que não se pode dar ao luxo de cometer erros.

Em frequentes brincadeiras, gostava eu de dizer que ele não deveria ser jornalista, e sim juiz, pela forma com que analisava os fatos, com a equidade de um magistrado, preocupado em conceder a justiça a quem de fato a tem. Outra profissão que lhe cairia como uma luva seria a de médico, principalmente na especialidade da psiquiatria. Era apaixonado por esta área e discorria sobre variados temas com metodologia científica. Com certeza esse estudo lhe deu base para o exercício do bom jornalismo.

Convivo com Eduardo Lavinsky, como já disse, por 23 anos. Desde os tempos da velha Dicom, a conceituada Divisão de Comunicação da Ceplac, comandada por Milton Rosário e pródiga em contratar ou lançar grandes profissionais. Convivíamos com jornalistas do naipe de Edvaldo Oliveira, Odilon Pinto, Raimundo Nogueira, Ederivaldo Benedito, Telmo Padilha, Tyrone Perrucho, Hélio Pólvora, Nisvaldo Damasceno, Luiza Cassiano, dentre outros, como os saudosos Celso Rocha, Mirthes Pititinga, e por aí afora.

Desde então, nossos caminhos sempre foram cruzados pela convivência fraterna e atividades jornalísticas em outros órgãos de comunicação regional e assessorias de imprensa e marketing político nas agências Visão Propaganda e Publix.

Substituiu-me na editoria do Agora Rural e, em seguida, com o apoio de Adervan, trouxemos de volta ao Agora, desta vez para o cargo de secretário de Redação e editor interino. No Agora, fizemos (continuamos, mesmo com o desfalque) um jornalismo de qualidade, junto com os experientes Antônio Lopes, Kleber Torres (o maior repórter desta terra), mesclado com profissionais, mais novos, porém, tarimbados.

Introspectivo, tímido, sabia vibrar com o trabalho produzido, sobretudo quando nos desdobrávamos para apresentar uma notícia dada com exclusividade. Esmerava-se em elaborar a primeira página e não se acanhava em perguntar sobre a conveniência ou não de uma simples palavra ou expressão empregada no texto, a exemplo de como agem os grandes profissionais.

Essa troca de experiência e confidências era constante entre nós, até por conta de temperamentos – ele mais cauteloso, eu mais arrojado, digamos –, o que fez dele meu constante consultor. Precavido, ele observava e dizia: “Está perfeito, mas acho mais prudente tomar esse caminho…”. E não se falava mais nisso, simplesmente eu acatava.

Todos os bons adjetivos se encaixam perfeitamente para classificar o homem e o profissional Eduardo Lavinsky. Digo isso sem receio algum, pois não é de hoje que presencio o cuidado e a responsabilidade com seus semelhantes. Esposo e pai extremado, se preocupava com os filhos, como se crianças ainda fossem, e como todo “pai coruja”, se orgulhava deles com a maior felicidade.

Mas a vida é feita de alegria e tristezas, e disso não podemos nos desviar. Não é da natureza humana nos conformar com as ausências, mas temos que buscar forças e superar. E assim que soube do quem? para completar a notícia, sábado (22), li, na coluna de Cláudio Humberto, esse desabafo: “Não era para ser assim [título] O poeta e ex-guerrilheiro capixaba Antônio Carlos Campos constatou que o final da vida, para o ser humano, é marcado por hospital, cirurgia, dieta, dores de todo o tipo, aposentadoria do INSS, desemprego, asilo, abandono da família e, claro, a morte. Concluiu: ‘O final foi mal bolado’”.

Não imaginava o poeta capixaba que as dores de quem passa por essas situações são bem menores do que o sentimento de ausência dos que aqui ficam à espera de que Deus conclua seu desígnio para com a gente. E como ele mesmo dizia: “Vai com Deus, irmãozão”.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado na edição do jornal Agora de 29/11 a 1º/12 de 2008.

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