O REPENTINO GESTO DE AMOR AOS VELHINHOS BRASILEIROS

Walmir Rosário*

De uma hora pra outra tudo se transformou em minha vida. Eu, que já pensava me esconder em casa com medo de ser visto pelos vizinhos, amigos e conhecidos como um estorvo, uma bomba ambulante, notei que o mundo não estava contra mim. Ao contrário, notei que o tratamento antes a mim e a outros da minha idade, começava a mudar, tudo por causa do ataque do Coronavírus, o mais temido chinês depois de Mao Tsé Tung.

Meu Deus – pensei eu – eu não tinha a menor ideia do que era ter chegado na melhor idade, como dizem alguns geriatras e outro(a)s orgulhoso(a)s que não dispensam a circulação social. Na verdade, nunca me senti velho, no máximo um jovem experiente, após ouvir essa frase de efeito concebida por um laboratório de marketing a serviço de uma empresa fabricante de cosmético ou remédio para tosse.

Mas voltando ao que interessa, de repente passei a ser mimado por pessoas – familiares e amigos – que se ofereciam para fazer os serviços mais comuns do dia a dia pelas ruas da cidade, quando me dava ao luxo de encontrar com os amigos nos mercados, farmácias e até mesmo nas reuniões do Clube dos Rolas Cansadas. Eu seria privado de ver meus “chapas”, a exemplo de Tolentino, comprador de tempero oficial de sua casa.

Se por um lado esse mimo me sensibilizava, por outro me deixava triste e acabrunhado por me sentir inútil, sem força ou coragem para fazer as obrigações simples de casa. Minha mulher, então, rodou a baiana e não quis nem conversa. Embora tenha baixado o tom, não deixou de dar suas escapadas para ir à farmácia, ao supermercado ou simplesmente espraiar, esticar as pernas.

Seguindo o ditado “afoito está morto e desconfiado se encontra vivo”, essa súbita evidência e os cuidados que passariam a nós ser dispensados me deixou com a orelha em pé, como dizem os montadores de burro bravo. De pronto me senti o máximo e já comecei a pensar como é bom ser uma pessoa da melhor idade. É, deve ter lá suas vantagens, comecei a pensar.

E nesses pensamentos comecei a ficar com vergonha de mim mesmo, por ter acreditado piamente que a velhice somente prestava para usufruir dos privilégios contidos no Estatuto do Idoso, em ter vagas reservadas nos estacionamentos e filas exclusivas nos supermercados, bancos e agências lotéricas. Finalmente – pensei – reconheceram nosso valor após anos e anos de trabalho duro, apesar da magra aposentadoria.

E nesse longo período de meditação também me lembrei de uma frase dita pra mim por um confrade durante os trabalhos da Confraria d’O Berimbau: “Cuide dos seus velhinhos com muito carinho, como se fossem crianças”. Foi aí que me dei conta dessa comparação, que tem muito a ver, haja vista passarmos às brincadeiras para ocupar o tempo ocioso, seja nas praças ou abrigados numa mesa de bar.

Pelo que entendi, essa nova onda deve perdurar enquanto o vírus chinês teimar em ficar aqui pelo Brasil assustando as pessoas idosas – não sei se cabe a fofa denominação de melhor idade – que devem ficar trancafiados em casa. Pelo amor de Deus não me levem a mal, mas a título de sugestão, espero que esse amor repentino se estenda também aos asilos e casas de repouso, mais conhecidos como depósito de velhos.

Com a pulga atrás da orelha, em meu esconderijo domiciliar iniciei uma pesquisa no Google com a finalidade de tomar consciência da veracidade desta benemerente campanha e fiquei deverasmente assustado com o número de piadas pejorativas com nós velhinhos (como eles chamam). São milhares e para todos os gostos e desgostos, como se esses arautos da difamação não ficarão velhos. Quem sabe, podem até morrer antes…

Como um assunto puxa outro, não é que em algumas pessoas da melhor idade a morte é tratada com mais do que respeito e beira a intimidade? Um desses necrólatas é o jornalista desocupado Tyrone Perrucho, que passou a imaginar e narrar sua própria morte. Esse senhor idoso agora utiliza as santas palavras da Bíblia, citando Eclesiastes (9:5-6), Oséias (13-14) e outros profetas para condenar a censura sobre o ato de morrer.

Isto que dizer que a velhice – ou a juventude com mais experiência – consegue até tornar os ímpios, ateus, agnósticos e ceticistas, como Tyrone Perrucho passem a consultar e se orientar pelos sagrados ensinamentos da Bíblia Sagrada. Minha única dúvida é que se esse arrependimento tardio ainda será suficiente para apagar todos os graves pecados cometidos, anistiando-o da excomunhão e ainda possa ingressar no reino do céu.

Após um dia completo de meditações, cheguei à triste conclusão que a velhice, melhor idade ou adjetivos que os valham é bastante desconhecida dos ainda mais novos, chegando à raia da ignorância. Pensam eles que nós ainda somos daquela tribo que fica a tricotar nas janelas com os vizinhos como se fossem fuxico, esquecendo que fazemos uso de redes sociais com as mais variadas plataformas.
A troca da janela e esquinas fez com que a instantaneidade das publicações chegam aos idosos no mesmo espaço de tempo que aos mais jovens, com uma vantagem de termos experiência suficiente para analisarmos as postagens e separarmos as boas das ruins. Quanto à disposição para a ajuda na compra e transporte de sacolas em supermercados pode até ser bem-vinda, desde que saiba escolher os produtos e carregá-los com o cuidado que merece.
Em breve nos encontraremos nas esquinas e bares da vida. É uma questão de tempo!

*Radialista, jornalista e advogado

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Walmir Rosário

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