O PT está com Newton, mas pode cair no colo de Jabes

Walmir Rosário

O Partido dos Trabalhadores (o PT ilheense) está numa sinuca de bico. Desempenha uma missão política, mas pode ser que não tenha como entregar a mercadoria faturada: o apoio ao candidato à sucessão do prefeito Newton Lima. É bem verdade que os petistas abandonam um projeto sem pestanejar caso ordens superiores determinem. “Somos soldados do partido”, costumam explicar.

Desta vez não será muito diferente, apesar dos projetos que dormem nas gavetas de militantes e pretendentes ao cargo de autoridade máxima do município. Eles foram pensados, repensados e elaborados com muitas discussões, contudo, raramente poderão ser executados, por culpa pura e simples dos próprios petistas.

Simplesmente o nome tido e havido como o ideal para ganhar uma eleição “pulou fora do barco” e não admite, sob qualquer hipótese, emprestar seu nome à empreitada: ser candidato a prefeito de Ilhéus. O nome do desistente: Josias Gomes, deputado federal e líder da corrente maioral do PT ilheense, que antes da eleição chegou a alimentar essa esperança, transferindo seu domicílio eleitoral para Ilhéus.

Agora, com as benesses que o cargo lhe dispensa, agraciado que é como um dos representantes, ou “homens de ouro” do todo-poderoso José Dirceu, não admite, sequer, discutir intramuros essa possibilidade. Para ele, simplesmente, melhor seria embarcar num chamado “projeto B”, mantendo os “companheiros” nos cargos disponíveis da administração municipal.

As posições a serem ocupadas serão as mesmas, mas o autor do projeto futuro atende por outro nome: Jabes Ribeiro, do Partido Progressista (PP). Não que considerem o melhor e o mais apropriado para governar Ilhéus, apesar da experiência acumulada em 14 anos em que esteve mandando e desmandando no Palácio Paranaguá, mas o projeto mais viável, tendo em vista as posições nas pesquisas de intenção de voto.

O desembarque do projeto de coligação com o PSB de Newton Lima, que mantém as posições inalteradas, e o embarque no barco de Jabes Ribeiro tem outro propósito: tratar a política ilheense de forma eleitoreira, colocando-o no mesmo balaio de outras cidades baianas. Nas cidades em que o PT vai bem, o PP apoia, mudando as posições de acordo as conveniências.

O futuro da cidade pouco importa para os “caciques” petistas, que não fazem questão de avaliar a construção político-eleitoral executada anos a fio. A contabilidade eleitoral demonstra que a posição tomada pela direção estadual do PT caminha na contramão, ao desprezar a densidade conquistada nas últimas campanhas. Mesmo tendo perdido as duas eleições, o cabedal de votos dos petistas cresceu de 22 para 27 mil votos.

Uma das muitas máximas é que não se faz política olhando para o retrovisor, mas desprezar sua história e seus ganhos acumulados pode levar ao suicídio eleitoral. Ainda mais quando o candidato preferido pelos dirigentes estaduais e nacionais pode nem mesmo viabilizar sua candidatura, caso não seja o ungido pelo governador Jaques Wagner. E esse é o único sustentáculo da pré-campanha de Jabes.

Os argumentos utilizados pelos “caciques” petistas são frágeis e não se sustentam numa simples plenária realizada com a base ilheense. A começar pela aliança com o PSB, adversários da eleição e coligados de hoje, contra qualquer possibilidade da volta de Jabes ao poder. O sentimento da base não admite essa aliança e nem mesmo discute a tese de apresentar um candidato a vice.

O que está em jogo não é o “antijabismo”, até pelo simples fato de haver condições reais de vitória da coligação firmada entre o PT e o PSB, agora, com finalidade administrativa, e política, para o futuro. Entretanto, o cortejo ainda deixa os petistas atônitos, principalmente quando lembrado os conchavos que podem ser feitos por cima, isto é, pelo governador, que pretende ampliar a base de sustentação na Assembleia Legislativa e os prefeitos das maiores cidades do estado.

A verdade é que existe a possibilidade de uma ação feita de cima pra baixo, sempre colocando um militante do PT como vice. E essa estratégia é posta diante da ameaça da candidatura do médico Rui Carvalho, hoje filiado ao Partido Republicano Brasileiro (PRB). Dr. Rui – queira ou não – é um candidato que empolga as bases com suas propostas de romper com o status quo reinante.

Não pode ser descartada a história de Rui Carvalho, mas setores do PT ilheense preferem – e fazem todo o esforço – no sentido de viabilizar uma candidatura própria. Para viabilizar esse voo, pretendem “fazer política 24” horas por dia e conseguir bons resultados nas futuras pesquisas de intenção de voto. Nesse caso, ofereceria ao PSB um lugar honroso na chapa majoritária: o de vice-prefeito, com garantia de duas ou três secretarias.

Quem tem se esforçado para colocar em seu nome na praça é o vereador licenciado e atual secretário da Indústria, Comércio e Planejamento, Alisson Mendonça, ligado ao deputado Geraldo Simões. E quem mais incentiva Alisson é justamente a facção contrária dentro da mesma corrente, liderada por Josias Gomes, diante da indefinição.

Alisson também já angariou a simpatia de seus companheiros e até de correntes mais a esquerda, como a liderada pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence, haja vista a cultura petista de ampliar o poder hoje existente. E essa equação é simples: “Se já temos o governo federal e o estadual, porque não o municipal”, ainda mais quando se trata de uma cidade importante como Ilhéus.

Caso persista a ideia dos “caciques” petistas em jogar “goela abaixo” dos “companheiros” de Ilhéus a candidatura de Jabes Ribeiro, por certo haverá grande resistência e possibilidades de intermináveis rachas. Os rachas são previsíveis e poderá beneficiar as candidaturas do PSB e do PRB, que poderão caminhar juntos.

E os “companheiros” estão certos, pois ainda lembram de quando ofereceram o vice para Jabes Ribeiro, após intermináveis juras de fidelidade e amor eterno. Eleitos, o companheiro José Henrique Abobreira foi nomeado secretário da Agricultura e só, somente só. Afinal, quem manda é o prefeito, que detém a caneta e a chave que liga o diário oficial.

Pior do que perder uma eleição é ganhar e não governar.

Advogado, jornalista e editor do site www.ciadanoticia.com.br

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Walmir Rosario

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