O PREÇO DO INDIVIDUALISMO

Walmir Rosário*

É incrível como o individualismo prima sobre o coletivo. Os especialistas explicam ser uma questão cultural, descendente dos primeiros plantadores de cacau, que se embrenhando nas matas com o intuito de formar roças, para sobreviver, tinham como lema defender a pele e as terras demarcadas, em primeiro lugar, e, em seguida, afastar os primeiros concorrentes. É certo que a sociologia tem diversas explicações científicas para o nosso comportamento, daquela época até os dias de hoje. Pode ter havido alguns desvios comportamentais neste percurso, mas deve ser de somenos importância.

Mas não estamos aqui para discutir antropologia e sociologia e deixaremos isso para nossos especialistas. Queremos abordar a mesmice que caracteriza nosso comportamento, principalmente quando nos negamos a debater sobre assuntos relevantes que nos digam respeito. Na edição passada deste Agora Rural fizemos uma reportagem com o pesquisador aposentado da Ceplac, Waldeck Maia, analisando o Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia e pudemos constatar que nada mudou na mentalidade regional. Na verdade, continuamos os mesmos do começo do século XX, mesmo que o assunto diga respeito aos nossos bolsos, hoje rotos e vazios.

As reações sobre a reportagem foram as mais diversas possíveis e imagináveis, mas poucas pessoas, especialmente as mais envolvidas, a exemplo dos cacauicultores, se dispuseram a analisá-la. Não se teve notícia de algum sindicato rural – seja de produtores ou empregados –, Conselho Nacional dos Produtores de Cacau (CNPC), Associação Brasileira dos Cacauicultores (ABC), ou outras siglas que prometem defender a decadente lavoura, se manifestaram, marcaram uma reunião com seus associados. Como agem costumeiramente, alguns preferiram alegar a falta de competência do entrevistado, mesmo sem conhecê-lo profissionalmente ou ter lido a matéria atenciosamente.

Já os alarmistas de plantão deitavam falação contra um complô formado para extinguir a Ceplac, barrar a chegada dos recursos para o financiamento, há três anos com data marcada para desembarcar nas nossas roças de cacau, ou simplesmente prejudicar a imagem dos nossos cacauicultores perante o Governo Federal e os agentes financeiros. Tudo exatamente como sempre acontece desde o início do século. Enquanto os derrotistas elucubravam ações terroristas contra a lavoura, alguns setores conscientes se dispuseram a participar e debater sobre o Programa. Participar da abertura da “caixa preta”. Enquanto setores do Governo Federal – incluindo aí os agentes financiadores – e outros segmentos se preocupavam em apurar as denúncias constantes na reportagem, comportamento bem diferente tiveram os representantes da lavoura.

Somente a título de lembrança, existem quase duas dezenas de representantes dos mais diversos segmentos financeiros, da Ceplac, dos governos federal e estadual – muito justo –, porém nem um representante da lavoura cacaueira, alguém que, pelo menos, pudesse repassar aos colegas o que foi discutido, o que ficou acertado. Pelo visto, ainda não chegou o momento de termos assento, voz e voto, apesar de ser os cacauicultores que pagarão a conta. Claro, se temos quem se disponha a participar de longas e enfadonhas reuniões em Salvador e Brasília, para que nos incomodaremos com isso. É muito mais cômodo ficarmos em nossas casas, passeando pelas ruas e portas de bancos reclamando de nossa sorte, da alta do dólar da falta de recursos para o cacau.

Daqui a mais dois anos vencerão os primeiros contratos de financiamento – somente para aqueles que tiveram a capacidade de contratar – e não se sabe qual o comportamento desse material genético em campo. Nem mesmo os cientistas sabem, pois admitem a constante renovação no futuro, substituindo os clones atuais por outros mais tolerantes e adicionados com genes resistentes a outros tipos de pragas e doenças. Agora, pergunta-se? Daqui a mais dois, três, quatro anos existirá capacidade econômica ou financeira para contrairmos novos empréstimos? Não serão os cacauicultores os mais interessados na recuperação da lavoura, até porque terão que pagar a conta?

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Agora Rural em 03-04-1999

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