O MENSALÃO DO SABER

Walmir Rosário*

No final de novembro, deverão ser realizadas as eleições para escolher o novo reitor da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Ao contrário de anos anteriores, até agora nenhuma notícia se tem das possíveis candidaturas. A Uesc, como qualquer academia que se preze, deveria estar com o preprocesso eleitoral em plena ebulição, haja vista ser um centro de formação de cabeças pensantes. Porém, a realidade parece ser exatamente outra, onde a politização e o estímulo ao poder parecem ser desprezados.

Hoje, na comunidade regional não há quem saiba, nem por ouvir dizer, o que acontece na Uesc e muito menos o que ela pretende fazer no futuro, quais são os seus projetos e em que beneficiarão a sociedade. O que se espera, pelo menos, é que a universidade e sua produção possam ultrapassar os limites geográficos do Salobrinho.

Com isso não quero afirmar que os professores, sejam eles doutores, mestres, especialistas, ou mesmo os somente graduados, que nada produzam. Longe disto. Reivindico tão somente que o resultado desta pesquisa possa ser repassado aos mais humildes dos contribuintes.

Na eleição passada, a mesma que elegeu o reitor Joaquim Bastos, a situação era totalmente inversa, com candidatos demonstrando à sociedade quais seus compromissos, através dos diversos veículos de comunicação regional. O interesse pela Uesc, instituição criada a partir das faculdades de Direito e de Sociologia, ambas de Ilhéus, e de Filosofia e Ciências Econômicas, estas de Itabuna, ganhou as ruas e em cada esquina se discutia o seu futuro.

Passada a eleição, ungido o candidato vencedor nas urnas pelo governador Paulo Souto, tudo voltou ao esquecimento, pelo menos fora dos muros e cercas que delimitam os prédios da universidade. Aos poucos, os adversários foram se recompondo e os debates deram lugar aos acordos, os cargos ocupados após ampla negociação, e não se fala mais nisso.

Como aos cargos também vêm junto os bônus, os candidatos adversários de outrora e seus cabos-eleitorais vão tomando gosto pelo novo dirigente, principalmente com os mimos e afagos naturais aos cristãos-novos pelo todo-poderoso de plantão.

Em outras palavras: sob o argumento de manter a governabilidade em nome da instituição [que passa a ser o ocupante do cargo maior], se promove a despolitização, eliminando possíveis críticas à administração atual. Para estimular a ditadura civil, promove-se a demonização dos críticos, passando a considerá-los problemas insanáveis.

O primeiro passo é a desqualificação do discurso e da própria pessoa que o faça, para atender aos caprichos do “príncipe”, revestido que está da imagem institucional. Mais do que isso, até mesmo se faz passar pelo eterno guardião da entidade, mostrando atos e fatos do dia-a-dia como se fossem feitos memoráveis e hoje fora de perigo graças à pronta e salvadora intervenção sua.

Encastelado no poder – mais especificamente na torre espelhada –, a direção da Uesc somente agora desceu à planície e ensaia os primeiros passos em direção à comunidade acadêmica. Acenos de mão como fossem bandeiras hasteadas a meio pau, risos de plasticidade duvidosa, cumprimentos tímidos já são notados pelos corredores.

Após quatro de mandato sem receber em seu suntuoso gabinete a patuléia de professores, alunos e funcionários, eis que não mais do que de repente as portas e se abrem e são chamados para contribuir com o engrandecimento universitário. É inconcebível que quem não foi considerado com inteligência suficiente para emprestar contribuição, por mínima que seja, seja alçado à condição de luminar.

Instituição dotada de orçamento superior à esmagadora maioria das cidades da região cacaueira, a direção da Uesc não consegue dar a destinação adequada aos recursos. Infelizmente, não foi desta vez que a universidade conseguiu transpor cercas e muros que a separam do bairro do Salobrinho, haja vista que recursos financeiros não são suficientes para, por si só transferir o saber.

Mas do que isso, são necessários cérebros funcionando em projetos que beneficiem à sociedade, afinal foi ela quem a criou e custeia todas suas atividades, mesmo as não acadêmicas realizadas pelo reitor, a exemplo de viagens e aventuras ao redor do mundo. Claro que o conhecimento deve ser universalizado, mas adquirido de forma científica e não em passeios e incursões em lugares turísticos.

Promessas de mestrados e doutorados fora do Brasil talvez seja o sonho de consumo da maioria dos professores, ávidos que são os acadêmicos e que como tal buscam cada vez mais adquirir conhecimento. Não sei se seria ético barganhar cursos e sinecuras, fruto de recursos públicos, com promessas de votos para reeleição. Até porque, nem sempre quem vende seu voto tem hombridade suficiente para cumprir o acordado.

Filha mais velha da Ceplac, a Uesc tem em seu DNA a empáfia inerente a quem ocupa cargos sem possuir os atributos indispensáveis para tal. Bastaria uma simples olhada no retrovisor da história, para se dar conta do retrocesso a que foi relegada a sua “mãe”, hoje aparelhada por partido e políticos descompromissados.

Uma universidade, em qualquer lugar do mundo civilizado, é uma instituição criada para se perpetrar no tempo, sobrevivendo às intempéries políticas, se eternizando através da competência e sabedoria legada pelo seu corpo docente na troca de experiência com os discentes. E a história nos mostra essa realidade.

Não queremos defender que a atual direção da Uesc abra mão do poder, o qual conquistou através dos votos, mas que não utilize de meios nem sempre éticos e ilegais para se eternizar no cargo. Do contrário, após a criação do “mensalão do conhecimento”, seremos constrangidos a ver passar e féretro da ignorância.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 1º-11-2007

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