O CEPO DE AÇOUGUE

Julio Cezar de Oliveira Gomes

Foi no tempo que Newton Lima era prefeito de Ilhéus. Naquela época, a secretaria do Desenvolvimento Urbano recebeu uma correspondência do Ministério Público Estadual, subscrita pela promotora Karina Querubini, solicitando a retirada imediata de todos os cepos de madeira utilizados para o corte de carne vendida a varejo na Central de Abastecimento do Malhado, para tentar melhorar as condições de higiene naquele local.

Levada ao então Secretário, este tomou ciência do conteúdo do pedido, e entre desconfiado e aborrecido, deu a ordem certeira a um dos servidores da Secretaria: – Reúne com o pessoal do FOE, pega o carro e ainda esta semana tira tudo que é cepo de lá da Central de Abastecimento!

Assim foi feito. Em uma bela manhã reunimos o pessoal do FOE (Fiscalização Operações Especiais, pessoal responsável por fazer o serviço pesado e perigoso da Fiscalização), a velha picape Toyota e, com o devido apoio da Força Pública, fomos realizar a diligência.

Ao chegarmos no Setor de Carnes da Central de Abastecimento do Malhado as ordens foram cumpridas à risca. Apreendemos todos os cepos de carne encontrados: grandes e pequenos, discretos ou ostensivos. Até mesmo simples tábuas de carne usadas para o corte foram retiradas, ficando somente as de polietileno, que são as que melhor se adéquam aos padrões de higiene aplicável aos açougues.

Os comerciantes, é claro, observavam bem pouco satisfeitos aquela apreensão de suas queridas tábuas e cepos, que ao serem removidas deixavam, na maioria das vezes, um rastro de resto de sangue podre e, não raro, de vermes do tipo morotó, pois por mais que se lave a madeira ela sempre absorve micro organismos, impedindo uma higienização adequada. Quanto maiores os cepos, maior o rastro de imundícies deixado.

Ao final da operação, os açougueiros olhavam, inconformados, a picape cheia de cepos e madeiras diversas. Veio, então, a ordem de cessar a operação, pois estava esgotado o serviço.

O bizarro aconteceu justamente quando íamos saindo dos corredores do setor de carnes. Um dos comerciantes nos chamou, de forma discreta, em particular, e perguntou: – O cepo de fulano ali, vocês não vão levar não? Respondemos que todos já haviam sido recolhidos. O açougueiro retrucou, insistindo que voltássemos a um determinado Box, porque lá havia ainda um cepo!

Sem querer proteger nem tratar desigualmente este ou aquele comerciante, retornamos para averiguar a denúncia.

Ao chegarmos ao citado Box, nada vimos, senão… Uma grande mesa! Foi aí que, reparando melhor, suspendemos a “toalha” da mesa e constatamos a existência de um enorme cepo – daqueles feitos de tronco de árvore – que simplesmente havia passado despercebido, como se fosse mesa de servir almoço!

Arregalamos os olhos e, quando nos voltamos para o dono do box, para nossa surpresa, ele não nos olhava com ódio ou fúria, mas segurava a muito custo o riso. Não aguentando mais, perguntou a rir-se. – Está bem, mas me diga, quem foi o filho da mãe que me denunciou?

Sem querer botar lenha na fogueira em um lugar onde o normal é andar de faca bem amolada na cintura, nós mentimos, dizendo que não foi denúncia alguma. Porém, a esta altura, até mesmo nós da Fiscalização já estávamos nos segurando para não cairmos na risada.

O jeito foi pedir para trazer o carrinho de mão e levar este último cepo – o maior de todos – e sair dali rápido, antes que alguma confusão acontecesse na feira!

 Graduado em História e em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

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Walmir Rosario

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