O BOM FILHO A CASA TORNA, OU A FELICIDADE DE TOLÉ

Walmir Rosário*

A passagem bíblica do Filho Pródigo acontece com muita frequência em todo o mundo e em Canavieiras não seria diferente, pois faz parte desse mundão de meu Deus, mesmo não se tratando do filho que recebe uma grande soma em dinheiro como herança, some no mundo e volta de mãos abanando. Não, com meu amigo Antônio Amorim Tolentino, o Tolé, os motivos são outros que não os financeiros.

Por licenciosidade poética – se é que me permitem –, com Tolé a situação é uma simples questão histórica, coisas mundanas mantidas no consciente dos tempos da juventude, época em que era presença constante na rua da Jaqueira, ainda nos tempos em que Canavieiras ainda era a “Princesinha do Cacau”. Era essa artéria o local que abrigava as mal chamadas (forma errônea) mulheres de vida fácil.

Tolé, nos velhos tempos da Confraria d’O Berimbau, fazendo as honras da casa

Os tempos se passaram, muitos dos personagens também, embora a história se repita, seja em forma de comédia ou tragédia. Para não deixar o leitor baratinado, como se dizia no passado, Tolé era um usuário (não sei é a palavra adequada, mas se quiser pode ser chamado de cliente) habitual da famosa rua da Jaqueira, onde visitava diariamente os cabarés mais famosos, sempre em companhia de diletos amigos, cujos nomes a prudência e o respeito à família clamam por resguardar.

Com o passar dos anos, a boemia deixou a rua da Jaqueira, seja pelos mais diversos motivos que aqui não cabem analisar, motivo pelo qual Tolé e amigos também se afastaram. Mas agora, em pleno correr do ano de 2019, eis que nosso amigo chega de armas e bagagens, se estabelecendo naquela importante artéria, se não para a sempre, mas com ânimo nem tão passageiro.

Como nada entendo de psicologia, não tecerei maiores comentários acerca das reminiscências do consciente ou subconsciente. O que digo aqui, com toscas palavras, é que Tolé há muito premeditava o retorno ao querido local. E provo o que afirmo! Em março de 2005 (e lá vão mais de 14 anos) nosso personagem se juntou aos também saudosistas Adelmar, Tyrone, Gustercindo, Jurandi, Tedesco, Severo e Jair para discutir o retorno das velhas atividades ao local. Tudo registrado na página 11 de o Tabu daquele mês.

De pronto, afirmo que os desocupados não conseguiram prosseguir no intento, haja vista o grande número de reclamações dos novos habitantes da rua da Jaqueira, rebatizada Barão de Cotegipe, escorraçando-os do local e dos propósitos. Os novos moradores fincaram pés e não concordaram em dividir o espaço – embora vazio – com os cabarés que os saudosistas reivindicavam o retorno.

Projeto encaixotado – mesmo temporariamente –, a perspectiva continuou viva em Tolé, até que chega a oportunidade ímpar de passar uma temporada na antiga rua da Jaqueira enquanto reformava sua residência. Por tempos, deixaria sua casa localizada ao lado da Igreja de São Boaventura para regressar à rua (agora) Barão de Cotegipe, livre das companhias dos tempos de antão e agora em companhia de dezenas de respeitáveis famílias.

Tyrone (de óculos), o saxofonista do Conjunto Musical Mirim, a sensação do momento

Conforme diz o ditado, se não conseguiu comer da galinha, pelo menos Tolé chegou a beber do caldo, de forma simbólica, é claro. Pelo que comentam os mais antigos, a visita diária à rua da Jaqueira era uma verdadeira obsessão, conseguindo a proeza de matar, no nascedouro, os sonhos da família Perrucho e a brilhante carreira de Tyrone, que poderia ser conhecido hoje como o mais conceituado saxofonista brasileiro, quiçá do mundo.

No tocante a esse fato, pelo que apurei, Tolé, devidamente assessorado por Tedesco, todas as noites compareciam aos ensaios da vetusta Philarmonica Lyra do Commercio com a finalidade de desviar o comportado saxofonista da nobre arte musical, sob a desculpa de que deveriam aprender a dançar com as “meninas” dos cabarés. Por mais que Tyrone tentasse não conseguia resistir e deixava o ensaio para desespero do maestro.

Como dois capetas descritos nos livros de catecismo, Tolé e Tedesco utilizavam das mais diversas formas de tentação, entre elas a de, furtivamente, se aproximar por detrás do músico e segurar o seu pé, evitando que fizesse a marcação. Outra técnica empregada era levar algumas frutas de beri-beri, que por seu efeito adstringente, bastava ser mostrada a Tyrone para começasse a salivar e perdesse a embocadura.

Se Canavieiras e o mundo perdeu um excelente saxofonista, os cabarés da rua da Jaqueira e até do clube Lítero Social ganharam exímios dançarinos, para o desespero de Wallace Mutti Perrucho, que amargou o prejuízo de ter perdido a banda Conjunto Musical Mirim. Em compensação, continuaram livres e soltos para as incursões noturnas nos bordéis onde tomavam aulas – de dança, é claro – das mulheres de vida fácil (?).

Hoje, mesmo sem as visitas aos cabarés, Tolé tem todo o tempo do mundo para sair à porta e contemplar os prédios que abrigavam as casas de Nenzinha, Valdite, Joana, Teresão, Saralina, Deliza, Odete, Luzia, Urânia, Aninha, Elza, Cotinha, Alaíde e até a de Zé Baleia. Ah, como eram boas as noitadas na Boate Céu Azul! Sem esquecer os bares, cafés, pensões, cafuas e as tendas de alfaiates, barbeiros, sapateiros e outros profissionais…

A título de lembrança, todos os negócios eram tocados por verdadeiros empreendedores, conhecedores dos seus ramos de negócios, sem qualquer ajuda de programas sociais do governo ou apoio do Sebrae. Com toda essa história, o projeto “Viva Jaqueira” não conseguiu ir em frente devido a falta de empreendedores especializados, além da oposição das famílias ali residentes.

De todos os desocupados que trataram do projeto “Viva Jaqueira”, apenas Tolé agiu com a sabedoria que lhe é peculiar e hoje usufrui individualmente da paisagem histórica da velha Jaqueira. Em vista da privilegiada situação residencial, o coordenador do Clube dos Rolas Cansadas, Tyrone Perrucho, já se arregimenta para promover um dos encontros das quintas-feiras no espaço residencial “Tolesiano” para debater uma nova proposta.

* Radialista, jornalista e advogado

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Walmir Rosário

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  1. 15th novembro 2019 | Wilson Midlej says: Responder
    Bela crônica, meu querido amigo Walmir. Texto gostoso de ler e degustar das saudosas temporadas na sua "Céu Azul" - Seria esse nome pelo fato de o telhado ser o proprio firmamento? Fica a dúvida - A narrativa nos estimula a conhecer a sua cidade, mesmo com novo cenário e novas personagens, mas com a forte energia do boêmios, poetas, músicos ou não., Grande abraço.

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