NO TEMPO EM QUE ITABUNA ERA UM CELEIRO DE CRAQUES

Os terrenos baldios eram transformados em campos de futebol, que ajudaram na formação dos futuros atletas profissionais e amadores

Botafogo - 1976 - Louro, Paulo Roberto, Dorival, Bilo, Galego de Vieira e Neném; Nigucho, Jorginho, Jacaré, Douglas e João Garrincha.

Botafogo – 1976 – Louro, Paulo Roberto, Dorival, Bilo, Galego de Vieira e Neném; Nigucho, Jorginho, Jacaré, Douglas e João Garrincha.h 

Por Walmir Rosário

As tardes dos domingos eram reservadas aos desportistas de Itabuna para a ida ao Campo da Desportiva – onde hoje é o Centro de Cultura Adonias Filho – e assistir aos jogos de Futebol. Flamengo, Fluminense, Botafogo – homônimos dos cariocas –, além de Grêmio, Janízaros, Corinthians, Bahia, Itabuna, dentre outros de vida efêmera, eram os donos do espetáculo.

Lá pelos anos de 1930, quando o papa-títulos era a Associação Atlética, o traje era formal – terno completo –, não importando a cor, embora fosse admitido traje mais simples – calça e camisa de manga curta – para os menos possuídos. Aos poucos, com o avanço da sociedade, o que importava não era a roupa, e sim o espetáculo proporcionado pelos jogadores das várias agremiações filiadas à Liga Itabunense de Desportos Atléticos (Lida).

Àquela época não se importavam jogadores de outras cidades – fato raro – e quando eram trazidos o contrato se prendia a um bom emprego numa boa empresa ou casa bancária. Fora isso, garantia-se uma renda extra com o pagamento de luvas e bichos por vitória, sem contar a boa vontade dos proprietários de lojas, presenteando jogadores do seu time com roupas e sapatos. Amadores, sim, mas nem tanto.

Mas os contratos pouco importavam. O que o itabunense queria era futebol e futebol bem jogado. As partidas tinham que ter bastante gols, daqueles de encantar a torcida, seja com a classe de um craque ou com um pontapé capaz de entrar com o goleiro e tudo. Cada torcedor tinha seu jogador preferido, entre eles aqueles que não eram goleadores, mas grandes zagueiros, meio-campistas que desarmavam o adversário e lançava a bola e os dribladores.

Quem não assistia aos jogos ao vivo, tinha a oportunidade de acompanhar – ao vivo – as históricas transmissões das rádios Clube e Difusora, ouvindo narradores como Cordier, Orlando Cardoso, Geraldo Santos, e comentaristas do naipe de Edson Almeida e Iedo Nogueira. A emoção do rádio contagiava os ouvintes, que ainda podiam discutir os lances com os textos e fotos publicados na imprensa escrita. Era o máximo.

América da Vila Zara de Adonias 1963 - Dema, Rogério, Betinho, Tonho de Bizunga, Napu e Luiz do Foto; Cosme Tostão, Alterivo, Zé Nito, Boventura e Jailton

América da Vila Zara de Adonias 1963 – Dema, Rogério, Betinho, Tonho de Bizunga, Napu e Luiz do Foto; Cosme Tostão, Alterivo, Zé Nito, Boventura e Jailton

Os campinhos e escolinhas – Para chegar a atuar no Campo da Desportiva Itabunense os jogadores passavam por um verdadeiro vestibular, nos “babas” disputados nos campinhos de seus bairros ou nas escolinhas de futebol, a exemplo das que eram mantidas pelo cirurgião-dentista Demóstenes Carvalho, Adonias, Tim, dentre outros. Os que mais se destacavam eram convidados a jogar nos diversos times de bairro até chegar à equipe aspirante das agremiações amadoras.

Bastava um terreno baldio mais ou menos plano, sem muitas pedras e duas traves. Era assim na Borboleta (hoje rodoviária); banca do peixe, Escola de Celina Braga Bacelar, Maravalha, (centro); São Judas Tadeu; campo do Tênis, torre da Rádio Difusora, Malícia, Brasilgás, Vila Zara, Eucaliptos (bairro da Conceição); Cortume (Banco Raso) para os olheiros escolherem e indicarem os futuros craques.

O América da Vila Zara, comandado por Adonias, em 1963, era um dos times de camisa que forneceu jogadores para várias equipes. Em 1972, o mesmo América mantinha praticamente a mesma formação, mesclado com jogadores mais novos.

Lembrados até hoje nos papos de saudosismo, os craques do passado têm nome, sobrenome e história a ser contada pelas jogadas memoráveis, tanto nos campos de pelada como na velha Desportiva. Um desses exemplos são as escalações da Seleção de Itabuna de 1958 a 1965, quando reinou absoluta no cenário amador do estado da Bahia. Fora essa saga vencedora, as equipes de bairros (ou várzea, como queiram), ainda reinam absolutas na memória dos torcedores.

De mamando a caducando – Essa frase do vocabulário dos médicos-veterinários se encaixa bem na velha prática do futebol, quando os escolhidos para formar o time (ainda na base do par ou ímpar, para escalar primeiro) eram pela eficiência. Pouco importava se menino ou homem feito: tinha que ter as qualidades para jogar em determinado campo e decidir a partida. Isso era fundamental para jogar num time de camisa.

Enquanto nos campinhos o jogo era na “paeta” (descalço), nos times de camisa se jogava de chuteiras, fabricadas por sapateiros especializados, como seu Lauzinho, ex-jogador do Botafogo de Rodrigo e exímio profissional. E as chuteiras eram feitas de acordo com a posição em o futuro dono jogava: macia para atacantes, rígidas para zagueiros. Já as travas poderiam ser de sola grossa ou alumínio, a depender do tipo de jogo e da característica (de maldade, dizem) do jogador.

Uma coisa era certa: todas as chuteiras eram pretas, algumas com uma ou duas listras brancas, porém cor-de-rosa, rosa choque, amarelo alaranjado, nunca, pois eram feitas para proteger o pé e aumentar a potência do chute, jamais para aparecer. O mesmo acontecia com o corte dos cabelos, em maioria o “soldado americano” e, de quando em vez, um maracanã para o encanto das moçoilas casadoiras. Definitivamente, não era o tempo de Neimar!

Mas, trejeitos e modas à parte, o que valia era chegar a campo e dar conta do recado. Jogador bom era o eficiente e produtivo. Não podia ser “manioso” ou “vedete” para não cair em desgraça e ser olhado de soslaio pelos “cartolas”. Assim era o Botafogo do bairro da Conceição de 1976, que mesclava atletas mais experientes como Neném, à garotada do tipo de Bilo e Paulo Roberto. O mesmo acontecia com o Flamengo de José Baliza, que aparecem na mesma foto Danielzão, Pelé Cotó, Neném, Romualdo Cunha e os garotos João Garrincha, Beguinho, Alterivo e Douglas.

O número de jogadores era tão abundante, que os “cartolas” ainda se “davam ao luxo” de formar uma seleção regional, tendo como base os jogadores do bairro da Conceição. Essa seleção excursionava pelas cidades vizinhas, acumulava vitórias e títulos. Essas fotos estão guardadas por João Garrincha e Dema para mostrar à posteridade que o futebol era um esporte amador e popular.

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Walmir Rosario

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