NO REINO DO FAZ DE CONTAS

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Walmir Rosário*

Após brindar o ano novo com a esperança de um 2005 melhor e cheio de realizações, o produtor de cacau terá que se debruçar sobre outras preocupações, a começar pelo vencimento das dívidas do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira. Já na segunda-feira (3), é essencial uma visita de cortesia ao gerente do Banco do Brasil onde mantém sua conta e seus negócios.

Primeiro, cumprimente-o, pergunte-lhe como foi de festas (com sua família, incluída) e deseje-lhe um próspero e venturoso 2005. Aguarde sua reação, antes de qualquer outra pergunta, para ver como anda seu humor (pode ainda estar de ressaca) e, caso a reação seja positiva pelos votos recebidos, você pode, então passar ao que realmente interessa: “Seu gerente, como anda minha vida no banco? E meus débitos contraídos por causa da vassoura de bruxa?”, pergunte com altivez.

Como qualquer pessoa que ocupa um posto de relevância, educado, o seu gerente vai lhe contar as últimas instruções passadas pela chefia imediata, geralmente uma superintendência, ávida para solucionar as pendências dos devedores, contumazes pedintes de crédito. Nessa hora, nada melhor do que, fazendo-se de desentendido, retrucar: “Mas, seu gerente, o senhor não viu na televisão, não leu nos jornais, que o governador Paulo Souto e o secretário da Agricultura, Pedro de Deus, garantiram que eles iriam resolver tudo com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci? Se o senhor quiser posso trazer os recortes deles”.

Seria cômico, se não fosse trágico. Mas nesta segunda-feira (3), começam a vencer parcelas das dívidas do cacau, a exemplo da parcela da terceira etapa do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira, o Programa Especial de Saneamento de Ativos (Pesa), e uma parcela dos Certificados do Tesouro Nacional (CTNs). Débitos esses concedidos pelo Governo Federal, mesmo sabendo que os produtores não teriam capacidade de pagamento à época, por se tratar de uma cultura comercial só depois de seis anos de implantada.

Mesmo assim, os recursos foram liberados para alguns (os devedores de hoje), na iminência de terem seus cadastros negativados no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e Cadastro de Inadimplentes do Governo Federal (Cadin). O mais esdrúxulo desta história é que, se antes o cacauicultor era um indigente político, que nem padrasto possuía, hoje foi guindado à condição de filho querido do pai.

Se, antes, o cacauicultor não era levado a sério pelos políticos, agora é tratado a pão de ló e tem seus pleitos ouvidos e tratados em Brasília com o grande destaque que merece. Que o digam os deputados federais Geddel Vieira Lima e Josias Gomes, para ficar só nos que não medem distância e chegam junto aos produtores. Se mais não puderam fazer, a culpa não pode ser imputada aos deputados, mas aos próprios cacauicultores, desacostumados às lides políticas e que são aprisionados em algumas das arapucas colocadas pelo caminho.

Uma das armadilhas foi armada por ocasião da audiência com o governador Paulo Souto e o secretário Pedro de Deus, quando as lideranças do cacau foram recebidas sem a presença de nenhum parlamentar. A ausência deles foi proposital e partiu das autoridades estaduais, que, segundo se comenta, chegaram a sugerir ser inadequada a presença dos parlamentares, notadamente Geddel Vieira Lima e Josias Gomes, por serem de oposição, no encontro.

Cercado de garantias de que tudo seria resolvido pelo Palácio de Ondina junto ao Governo Federal, os homens do cacau voltaram crentes de que tinham lido pela cartilha correta. Engano. Os deputados ficaram de mãos atadas e até agora nada foi feito, e só resta aos cacauicultores pedirem a volta de Papai Noel, com o saco cheio de duplicatas quitadas. Tudo como nos tempos da carochinha.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 30-12-2004

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