NO FIM DAS CONTAS, QUEM NÃO PRESTA SOU EU!

Julio Cezar de Oliveira Gomes*

Há alguns fenômenos muito interessantes ocorrendo a partir das relações estabelecidas na internet, por meio do Facebook. Dentre eles a facilidade com que podemos externar nossos posicionamentos por meio de postagens, mostrando-nos contra ou a favor de algo, dizendo o que pensamos, optando por esta ou aquela conduta social.

Em contrapartida, também recebemos das demais pessoas seu retorno sobre o que externamos, seja de apoio, repúdio, admiração ou exclusão digital, pois é um direito do outro excluir nossas postagens e até mesmo nos excluir de seu quadro de amigos virtuais, sem que disso resulte, em regra, constrangimento algum.

Pois bem. Eu que sempre assumi posições marcadamente de esquerda tais como defesa intransigente dos direitos dos trabalhadores, defesa do serviço público, políticas de inclusão, a favor das chamadas minorias sociais, tenho revisto alguns posicionamentos ideológicos.

Assim, embora continue a defender tudo o que citei acima, também defendo, hoje, o endurecimento das leis penais e a redução da maioridade penal, o direito do cidadão ter uma arma legalmente, me posiciono contra a maioria das invasões de propriedades (sobretudo privadas), contra a legalização das drogas ilícitas (maconha etc.), contra a propaganda – em qualquer horário e veículo de comunicação – de drogas lícitas (cigarros, bebidas) e outras, tidas como conservadoras.

Tal fato embaralha a cabeça de muitos. Os que me conhecem de Ilhéus estranham bastante minhas posições em relação à maioridade penal e outras do gênero, que lhes soam insuportavelmente conservadoras!

Já meus ex-colegas de farda de muitos anos atrás, que desde o serviço militar prestado em 1984/1985 em nunca mais tive contato, se incomodam visivelmente com minhas manifestações esquerdistas e, para eles, comunistas, tais como as denúncias referentes às condutas racistas que persistem no Brasil e a sólida defesa da vinda de médicos estrangeiros – incluindo cubanos – para nosso país.

Esta semana, após postar algo em defesa justamente dos médicos cubanos, um ex-oficial comandante do batalhão em que servi comentou com um groso palavrão – que não ousarei aqui reproduzir – o que tinha a dizer sobre o assunto. Dei risada, e compreendi que ele exerceu seu direito de expressão, embora de forma talvez um tanto inadequada. Mas pelo menos foi sincero!

A vida é assim. Às vezes agradamos a uns. Ao fazê-lo, com certeza, desagradamos a outros. Nesse contexto, maiorias e minorias se sentem prestigiadas ou, por vezes, agredidas naquilo que consideram seu direito.

Acho curioso. Os colegas de esquerda – embora não o digam para preservar nossa amizade – acham que me tornei um conservador empedernido. Já os ex colegas de farda me verão como um comunista mal disfarçado, perigosamente intrometido entre eles. Ou seja, no final das contas, de todo o jeito, sou eu que não presto!

Bem, mesmo com tudo isso, me sinto bastante feliz. Sabe por quê? Porque estou de bem comigo mesmo! Externo tudo aquilo em que acredito, defendo meus ideais – sim, ainda tenho ideais! – com ardorosa convicção e, tal como meu ex-oficial comandante, sou extremamente sincero.

Só não recorro aos palavrões. Penso que, em regra, não preciso deles. Mas mantenho o mesmo ardor e a mesma paixão pela vida do soldado de infantaria de 19 anos que fui um dia. Isso é muito bom!

 Advogado, graduado em Direito; e Professor, graduado em História, ambos pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz

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Walmir Rosario

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