NININHO SPUTNIK, UM HERÓI SEM MÁGOAS DO PASSADO

Craque do futebol itabunense na década de 1950, Nininho foi campeão com a seleção de Itabuna no Intermunicipal nos anos de 1956 e 57

Por Walmir Rosário

Nininho (foto Papo de Bola)

José Maria Santos, o Nininho, nasceu em Macuco, hoje Buerarema. O primeiro apelido foi dado por uma vizinha, de quem ele sempre levava reclamação por mexer nos ninhos de suas galinhas de quintal. “De tanto mexer nos ninhos, essa senhora disse pra minha mãe: ‘olha, o nome desse menino devia ser Nininho, porque ele não aguenta ver um ninho de galinha que quer bulir’”. Já o segundo, Sputnik, foi adquirido no futebol, por ser um atacante ágil e habilidoso. Craque do futebol itabunense na década de 1950, Nininho defendeu a seleção de Itabuna e foi campeão do Intermunicipal nos anos de 1956 e 57.

A casa onde nasceu e cresceu ficava em frente a um campinho, em uma praça, em Macuco, na cidade alta, onde quase diariamente jogava com os filhos de sêo Ildefonso Lins – Ernandi Lins, Amail Lins e Manuel Lins. “As pessoas da cidade baixa, os adultos, sempre vinham ver os meninos da cidade alta jogar, e eu já me destacava. Fui crescendo e, aos 13 anos, Paulo Portela, dono do Brasil, um time forte na época, sempre me botava na reserva, mas às vezes me chamava para entrar. E eu, observando o jogo do Brasil, fui desenvolvendo minha tendência para o futebol.

Aos 17 anos, Nininho recebeu a indicação do craque Santinho para o Fluminense de Itabuna. Em 1955 veio treinar no Flu, ano em que já participou de um campeonato, mesmo ainda morando em Macuco. Ele diz que já no seu campeonato de estréia pelo Fluminense marcou muitos gols. “Não lembro se cheguei a ser o artilheiro, mas lembro que foram muitos gols. Mas nesse ano o nosso ataque era muito bom, com Santinho, Humberto César, Carrapeta e Brício, além de mim. Depois esses nomes foram mudando”, afirma.

Em 56 tive a grande chance de minha vida, ao ser chamado para a seleção de Itabuna, quando esta disputou o torneio Governador Antônio Balbino, do qual fomos campeões”, lembra Nininho. Ele diz que o torneio foi uma novidade para a população, já que era a primeira participação da seleção de Itabuna em uma competição como essa, fora da cidade.

Tudo era muito especial: era aniversário do governador, o presidente Juscelino Kubitschek estava presente, e Antônio Balbino quis dar muito destaque à parte esportiva. Convidou muitas cidades para esse torneio, que foi disputado no formato de mata-mata. E aí foi aquela sensação maravilhosa, de ganhar o primeiro campeonato. Fomos condecorados com medalhas na Fonte Nova, na presença de inúmeras autoridades. Foi muito bom”, recorda o atacante.

Heróis

Seleção de Itabuna 1957 (foto Papo de Bola)

Ele afirma que ficou na seleção em 55, 56, e 57, quando tiveram seu melhor desempenho. “Em 57 foi quando a seleção realmente se entrosou e ganhamos nosso primeiro Intermunicipal. Na verdade, foi nosso segundo título, porque o Torneio Antônio Balbino foi considerado um Intermunicipal. Em 57, fui artilheiro do campeonato, joguei muito bem aquele certame. Foi aí que tive oportunidade de ir para o Rio de Janeiro”, conta Nininho.

O centroavante, nos anos que jogou em Itabuna, chegou a ser chamado por outro apelido, Sputnik. “Era pela minha rapidez, pela facilidade com que eu fazia os gols. Minha principal característica era a rapidez, partia para cima da defesa, fazendo o um-dois, tocando e recebendo na frente, saindo na cara do goleiro. Aí ficava fácil marcar gols e ser artilheiro”, diverte-se.

O ex-jogador diz também que naquela época havia um maior respeito e interesse dos itabunenses pelo futebol. “O que me marcou muito também foi quando fomos campeões, em Salvador. Ali fomos muito valorizados. Os jogadores foram condecorados, inclusive pelo presidente da República. Zequinha do Carmo foi homenageado por Juscelino Kubitscheck, Santinho pelo prefeito, eu fui condecorado por um militar cheio de estrelas, e os demais jogadores também foram agraciados por altas personalidades. Isso motiva muito a quem joga”, observa Nininho Sputnik.

Ele afirma também que em Itabuna os jogadores eram tratados como heróis quando voltavam das conquistas. “Quando conquistamos o título em Salvador, lembro que fomos recebidos aqui, na segunda-feira, como heróis. O comércio foi fechado em nossa homenagem. Fomos recebidos na praça Adami, com palanque e tudo, e aquilo foi algo que nos marcou muito, foi inesquecível”. Nininho afirma que mesmo sendo amadores, os jogadores sentiam que eram queridos pelos torcedores. “A gente era como um artista”.

Já o reconhecimento financeiro vinha em forma de presentes, oferecidos pelos dirigentes, já que como amadores não recebiam salários. “O objetivo principal dos dirigentes era sempre arrumar uma colocação para o atleta, arrumar um emprego, em que o jogador pudesse conciliar a prática do esporte com o trabalho. Eu mesmo, quando conquistamos o segundo título no Intermunicipal, já tinha um canal para trabalhar na Ceplac. Já estava tudo certo, mas eu quis ir jogar fora, tinha o sonho de jogar no Maracanã”, explica Nininho.

Nininho voa para o Rio

Outros voos

Finalmente, o craque se foi. No Rio, fez um teste no Fluminense, onde já jogava Léo Briglia, e treinou muito bem. “O treinador queria me inscrever como juvenil, acreditando que eu ainda tinha 19 anos. Não tinha vaga para aspirante, porque naquele ano o time já estava completo, já que havia subido vários jogadores dos juniores. O time do Flu era recheado de craques, o que impedia que novos valores, como eu, fossem aproveitados naquele ano”, afirma o ex-jogador.

Nininho confirma toda a fama que Léo Briglia carrega até hoje, de ter sido um grande craque. “Era um grande jogador, mas era muito brincalhão. Quando ele chegava nos vestiários, ninguém ficava quieto. Era a natureza dele, mas era um grande jogador. Era completo: driblava bem, passava bem, cabeceava. Era fora de série”.

O ex-craque conta que como não deu certo no Fluminense, foi para o Botafogo, onde também fez testes. “Um treinador do Guarani de Campinas me viu e quis saber qual era minha situação. Informaram que eu era livre, estava ali só fazendo testes. Ele me chamou para ir disputar o campeonato paulista pelo Guarani e eu fui. Era 1958. Voltei

Nininho na equipe da Prudentina

para o Botafogo, em janeiro de 59, para terminar a sequência de testes, na tentativa de ficar por lá. Foi nesse período que fui levado para o Canto do Rio, de onde fui para o América, onde fui campeão carioca em 1960”.

Nesse ano, mesmo na reserva, foi o artilheiro dos aspirantes. Nesse clube nunca chegou a ser titular. “No ano seguinte, ainda continuei no América, como aspirante, mas nunca tive chance de ser titular. Em 62, estava na lista de dispensa, e estava indo para São Paulo. Fui para a Prudentina, onde joguei um bom campeonato, em 63. Era um time cheio de bons jogadores, mas consegui me destacar, embora o time tenha ido mal. No final deste ano fomos dispensados. Neste ano Nininho chegou a ser cotado para ir para o Peru, onde jogaria no Esporte Cristal, mas não deu certo, e ele ficou no Brasil, indo para o Nacional.

A volta

Depois disso foi trabalhar na rede ferroviária federal e ainda continuou jogando por dois anos, mas encerrou a carreira em 1967. “Enquanto jogava procurei ajudar minha família em Itabuna, ajeitando as dívidas, além de outros parentes, que me procuravam em São Paulo. Assim fui tocando a vida. Em 1974, tive um desgosto muito grande, quando minha mãe veio a falecer, em São Paulo. Fiquei numa revolta muito grande, porque eu fiz tudo, parei até de jogar bola para cuidar de minha mãe e meus irmãos, e ela se foi justo nessa época, quando eu estava perto dela e queria ficar em sua companhia. Era, inclusive, o ano em que me casei”, relembra.

Depois das aventuras pelo Sudeste, em 1977, o craque voltou para Itabuna. “Pedi as contas na rede ferroviária federal e vim para Itabuna. Vim para cá já empregado com Valdeni Andrade. Em seguida, fui convidado por Ramiro Aquino, José Adervan e João Xavier para ser supervisor do Itabuna Esporte Clube, que estava com um pensamento de fortalecer o profissionalismo no futebol itabunense”, lembra.

Contribuição

Nininho diz que ainda argumentou que gostaria de ser treinador, mas foi convencido a ficar na supervisão. “Fizemos um trabalho, e realmente conseguimos dar uma nova cara à nossa parte profissional, que era tratada com muito amadorismo. Naquele ano, chegamos a uma boa colocação, mas o importante foi o que fizemos, eu e o treinador Roberto Pinto, fizemos um trabalho interessante com o grupo”.

Nesse ano, um jogador de Itarantim, veio fazer um teste no Itabuna. Era Zezito Carvalho, que veio para treinar como quarto-zagueiro. “Quando viu a estatura dele, Roberto Pinto achou que ele era meio baixinho para a posição. Comuniquei isso a João Xavier, que sugeriu que o testasse na lateral direita. Assim fizemos, e esse rapaz deslanchou e veio a se tornar o nosso grande lateral Tarantini. O nome foi em homenagem a um jogador argentino e também fazia referência à sua cidade, Itarantim”, diverte-se Nininho.

Author Description

admin

No comments yet.

Join the Conversation