NENÉM, UM CORINGA COM MUITO FÔLEGO

Walmir Rosário*

Jesuíno da Conceição era o seu nome de batismo, mas todos os conheciam como Neném. Em campo, não escolhia a posição: ponta-direita, lateral-direita e quarto zagueiro pouco importava, ele apenas atendia à determinação do técnico. Atleta de fôlego e que corria no campo os 90 minutos e a prorrogação, se fosse necessário.

Neném passou por times amadores como o Botafogo, onde foi vice-campeão em 1958, bicampeão pelo Janízaros, Flamengo e Seleção de Itabuna nos anos de 64, 65 e 66. Como profissional, passou pelo Itabuna Esporte Clube, Conquista, Confiança de Aracaju e Fluminense de Feira.

Neném admite ter saudades daquele futebol alegre e que era jogado com amor, ele lembra que para jogar como profissional no Itabuna aceitou ganhar apenas um salário-mínimo, apesar de poder receber muito mais de times amadores. Afinal, ele atendia ao apelo de dirigentes como Zelito Brandão Fontes, segundo ele, um dos baluartes do Itabuna Esporte Clube, ao lado de tantos outros, a exemplo de Charles Henri.

Botafogo de 1976 – Louro, Paulo Roberto, Dorival, Bilo, Galego de Vieira e Neném; Nigucho, Jorginho, Jacaré, Douglas, e João-Garrincha.

Para Neném, jogar bola era fazer o que mais gostava, principalmente ao lado de craques da qualidade de Fernando Riela, Mágua, Wilson Longo, Armandinho, Luizinho, Betinho, dentre tantos outros jogadores espetaculares de sua geração. Para Neném, o futebol também era coisa séria e tanto que se empenhava nos treinamentos como nos jogos, para a alegria de dirigentes e treinadores.

Dono de uma saúde invejável, Neném costumava, nos dias de jogos, sair correndo de sua casa, no bairro Conceição, até o campo da Desportiva. Para ele, isso valia como aquecimento. Nos treinos físicos era sempre o escolhido para puxar a fila, o que causava certo desespero em outros atletas.

Esse empenho nas partidas e o fato de não se “mascarar” lhe valia o apoio da torcida, o que ele considerava fundamental nos jogos na Desportiva, principalmente na hora de encarar times grandes. Com a mesma determinação com que jogava contra um adversário do campeonato de amadores, enfrentava times do Rio de Janeiro, a exemplo do Flamengo, Bonsucesso, América, Madureira, ou Bahia e Vitória.

Apesar de ter trabalhado com técnicos experientes como Paulo Emílio, Ivo Hoffman, dentre outros, ressalta que naquela época os próprios jogadores discutiam entre eles a forma de jogar. “Geralmente os técnicos apenas davam as camisas e nos incentivavam. Dentro de campo, nós é que resolvíamos, principalmente quando tínhamos Tombinho, um dos maiores líderes com quem já joguei”, afirma.

Jesuíno da Conceição – Neném

Na avaliação de Neném, jogar no interior exigia bem mais do que atuar na capital, onde os times eram protegidos da Federal Bahiana de Futebol. Para vencer um jogo, não só era preciso jogar bem, como, ainda, se defender da marcação dos árbitros, que já vinham determinados a fazer valer a decisão dos dirigentes da capital.

Analisando as diferença

s dos atletas de antes e os de hoje, Neném ressalta a qualidade dos campos do interior, onde prevalecem buracos de até 30 centímetros e gramados imprestáveis. Segundo ele, os gramados de hoje parecem mais uma mesa de sinuca, onde a bola rola bem macia. Neném diz, ainda, que tempos atrás não havia televisão para que os atletas do interior pudessem ver jogos de grandes equipes e aprender com eles.

Mas apesar de todas essas facilidades tecnológicas de hoje, ele critica a falta de campos de futebol nos bairros – de onde ele surgiu –, responsáveis pela revelação de inúmeros craques. Outro problema citado por Neném é a falta de visão dos dirigentes de Itabuna, que poderiam arregimentar bons jogadores em toda a região e treiná-los, colocando-os para disputar posição.

Neném admite que não ganhou muito dinheiro com o futebol, mesmo com as oportunidades que teve. Falta de chances não foram, já que foi convidado para jogar em equipes do Rio de Janeiro e da Venezuela, onde abundavam os petrodólares. Nessa oportunidade, o empresário Mituca ficou nove dias em Itabuna aguardando a resposta do jogador, que preferiu continuar comercializando carne para a Ceplac, atividade que lhe rendia um bom dinheiro e desistiu da viagem.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 28-07-2002

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