NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Walmir Rosário*

A quebra da primeira safra de cacau clonado de Camacã, durante as comemorações que marcaram o 38º aniversário de emancipação política daquele município, muito mais que uma simples festa, deve ser vista como mais uma demonstração de que o produtor de cacau não se deixou abater pelo desânimo. Na verdade, não tem poupado esforços para reconquistar tudo o que foi perdido nesses últimos anos de crise e de sofrimento.

Adaptou-se aos novos tempos, passou por uma espécie de seleção natural na qual foram desaparecendo progressivamente aqueles que ainda sonhavam com a vida tranquila e as benesses de antigamente, e ressurgiu disposto a ir para a linha de frente, cuidando pessoalmente de suas propriedades. Mesmo descapitalizado, enfrentando toda a sorte de dificuldades, encheu-se de brios e preferiu acreditar no soerguimento da lavoura de cacau. Até por uma questão de lógica, porque sabe que nenhuma outra atividade agrícola poderá garantir a mesma lucratividade que o cacau oferece.

Obviamente, essa crença na retomada do crescimento da cacauicultura não existe por acaso, está ancorada nas modernas tecnologias que são hoje oferecidas pela Ceplac. Os clones de alta resistência, pelo menos por enquanto, têm afastado o fantasma da vassoura de bruxa. O próprio produtor tratou também de selecionar, ele mesmo, as plantas que observou serem menos atacadas pela doença. Também se fala em fungo antagônico, vacina, manejo integrado e todo um arsenal de recursos para aniquilar definitivamente a enfermidade. A tudo isso se alia o fato das novas variedades serem de alta produtividade, podendo atingir índices superiores a 150 arrobas por hectare.

As previsões são de que, num período de aproximadamente cinco a 10 anos, a região venha produzir 400 mil toneladas de cacau e, a médio prazo, possam ser criados 200 mil empregos. Contudo, esse quadro que exibe imagens tão otimistas depende, para sua efetiva materialização, da liberação de financiamento para os produtores. De nada adiantarão as novas tecnologias se não existirem recursos para que possam ser realmente aplicados.

Lamentavelmente, a insensibilidade das autoridades federais é que vem dando o tom desse autêntico “samba do crioulo doido” que os produtores de cacau têm sido obrigados a dançar. Os recursos não são liberados ou, quando o são, o processo é tão vagaroso que a doença acaba levando a melhor. Cansados das exigências absurdas dos burocratas de Brasília e de esperar por um dinheiro que nunca aparece, muitos já se unem às prefeituras de seus municípios para, juntos, formarem os seus próprios jardins clonais para melhorar geneticamente as suas plantações.

O descaso das autoridades governamentais é tamanho que ganha cada vez mais amplitude o movimento contra o não-funcionamento do programa de recuperação do cacau. No município de Ubaitaba já existem agricultores e lideranças políticas dispostas a fazer essa iniciativa ganhar ressonância em todos os pontos da região cacaueira e uma manifestação de protesto está prevista para o dia 7 de setembro. Outra também deverá ser realizada no dia 17 do mesmo mês, em Buerarema.

Em Camacã, a Associação Brasileira dos Cacauicultores (ABC) e a prefeitura conseguiram reunir 21 deputados estaduais e um federal, além das mais expressivas lideranças políticas e empresariais da região, também com o objetivo de protestar contra o atual modelo de financiamento. Além de mais agilidade na liberação dos recursos, o que se pretende é a redução dos juros e o alongamento dos prazos para a quitação dos financiamentos contratados que, por sua exiguidade, terminam inviabilizando os investimentos feitos pelos produtores.

O grande mérito desta discussão é mostrar ao governo que a região está cansada de tantas promessas não cumpridas e não quer depender de migalhas. E está disposta a se fazer ouvir mesmo por quem, comprovadamente, tem demonstrado mais simpatia por especuladores do mercado financeiro do que por aqueles que querem gerar emprego e desenvolver o país.

*Radialista, Jornalista e advogado

Publicado no Agora Rural em 28-08-1999

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