NEM DE BOQUINHA EU GOSTO

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Walmir Rosário*

Dias atrás, o publicitário Gérson Menezes, de quem privo de há muito a convivência pessoal e profissional, escreveu e publicou um artigo aqui no Agora, edição de 6 de junho de 2006, página 2, questionando o patrocínio de viagens por grandes empresas para jornalistas. Pouquíssimos veículos de comunicação proíbem seus profissionais desses regalos (?), outros, nem tanto.

Aqui no Agora essa prática é permitida e é a Editoria quem escolhe o profissional a cobrir o evento para o qual foi convidado. Mais do que um presente, o profissional ou a empresa convidada podem ser escolhidos de diversas formas. Seja pela importância do profissional ou veículo, além do público-alvo que pretende atingir. Até aí nada que vá de encontro aos padrões éticos exigidos pelo bom e sério jornalismo.

Como amigo e bom conhecedor do meu caráter, Gérson Menezes, ao invés de censura, fez apenas uma provocação, pois tinha certeza de que seu artigo seria publicado e ainda por cima caberia uma explicação de minha parte. Num texto bem-humorado e perspicaz, o publicitário deixar transparecer – não nas entrelinhas – mas no próprio texto, que o profissional não teria independência para elaborar uma matéria sobre o evento com a lisura necessária.

Tendências à parte, o problema levantado pelo publicitário merece a reflexão da imprensa e da comunidade. Até que ponto uma empresa de comunicação ou um jornalista que recebe benesses (passagens e estadas) está obrigada a escrever inverdades ou enfeitar o “pavão”? A mim parece que nenhuma. Prova disso é que nesta viagem ao Rio de Janeiro, feita a convite da Petrobras, as matérias foram influenciadas pela estatal? Em nenhum momento, garanto. Os fatos foram narrados como se apresentaram e as críticas também escritas no local apropriado, na seção Política & Políticos, na página 3, onde cabem especulações.

A preocupação do publicitário Gérson Menezes é procedente, haja vista a prática abominável de algumas empresas de convidar jornalistas e dirigentes de veículos de comunicação para evitar matérias “desinteressantes”. E Gérson ilustra seu artigo com um fato verdadeiro passado em Itabuna e que tem como personagem a Nestlé, antes pródiga em agrados e mordomias à imprensa.

No caso em questão, a viagem da qual participou Gérson Menezes e confrades itabunenses teve como móvel a matéria “O passeio do leite”, em que mostrava uma possível “armação contábil praticada pela Nestlé contra a Bahia e Itabuna” (sic). Confortavelmente instalada num avião, a caravana foi a São Paulo desfrutar das mordomias permitidas a uns poucos mortais bafejados pela sorte.

Mas como disse Gérson, em momento algum foi instado pela empresa a esquecer “O passeio do leite”, numa sábia ação da competente equipe de relações-públicas da multinacional suíça. No caso da Petrobras, o objeto do convite era outro: divulgar o lançamento de editais do Programa Fome Zero da Petrobras.

Ao contrário da viagem patrocinada pela Nestlé, posso garantir que a Petrobrás foi de uma pobreza franciscana – tanto na que fiz como na que foi Antônio Lopes – e essa liberdade se estendia às passagens aéreas e pensão completa em hotel. Nada mais justo. Ressalvo, porém, para que não pairem dúvidas ao amigo Gérson Menezes, que a expressão pensão completa era restrita a acomodações em apartamento simples, café da manhã, almoço e jantar, acompanhados apenas de água, suco ou refrigerante.

Portanto, nada de bebidas alcoólicas ou passeios por badaladas boates. A conta da frequência nos botequins do Leme e Copacabana corria às expensas dos jornalistas. E assim foi feito. Pra mim, nada de anormal, pois compareço aos eventos nos quais me sinto bem, quando o convite é pessoal, e nos profissionais, quando posso.

Nos pessoais, mesmo com a chamada “boca livre” e modernamente conhecida por 0800, nem sempre compareço, principalmente se não for do meu agrado. Prefiro, na maioria das vezes, jogar conversa fora e resolver os problemas do mundo com os meus diletos e selecionados amigos no “Alto Beco do Fuxico”. Dividindo a conta, é claro. Quanto ao receio de que eu possa trocar a “sagrada” cachacinha pelo sabor de um whisky 18 anos, não tenha receio: Sou democrático e todas as bebidas são do meu agrado, desde que sejam boas.

Pode ficar sossegado, Gérson.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 11-05-2006

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