NÃO PERTURBE, ESTOU PRODUZINDO

25Walmir Rosário*

O Produto Interno Bruto (PIB) primário da agricultura, que mede o desempenho das lavouras sem incluir os insumos, o processamento e a distribuição dos produtos agrícolas, registrou um novo recorde de crescimento nos primeiros sete meses de 2002. O Segmento cresceu 9,21% de janeiro a julho, projetando um salto dos R$ 54,54 bilhões de 2001 para R$ 59,57 bilhões neste ano. Em igual período do ano passado, o PIB do segmento havia registrado um acréscimo de apenas 0,41%, segundo os indicadores rurais divulgados hoje pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea-USP).

Esse resultado se deve ao aumento da produtividade, recuperação dos preços internacionais, expansão da produção e das exportações do setor agrícola, puxada pela forte desvalorização do Real. A conclusão que poderemos tirar daí é que, caso o governo não atrapalhe, a iniciativa privada saberá dar conta do recado. Entretanto, nem todos os setores da agricultura podem comemorar esses resultados. E um deles é a cacauicultura, relegada à própria sorte. Na realidade, o agronegócio cacau não quer subsídios ou outros tipos de benesses, e sim os recursos necessários para a sua recuperação.

O que a Nação não compreende são as atitudes do Governo Federal em não fomentar a produção de commodities de fácil colocação no mercado internacional, a exemplo do cacau, que poderia ser responsável por uma injeção de dólares – tão escassos – em nossa economia. Mesmo assim, as autoridades governamentais fazem ouvidos de mercador às reivindicações da lavoura cacaueira. Nem mesmo os atuais preços no mercado interno, estabilizados em R$ 145,00 chegam a sensibilizar nossos governantes.

Os agricultores brasileiros já demonstraram – sobejamente – que possuem capacidade e competência para produzir mais e melhor, embora não gozem de políticas públicas utilizadas pelos privilegiados agricultores dos países do primeiro mundo, com os famosos subsídios. Aqui, ao contrário, até mesmo o crédito é restrito a poucos afortunados e as taxas de juros praticados são extorsivas, tendo em vista a natureza do negócio.

Na verdade, o que o agricultor precisa para produzir melhor e cada vez mais é o apoio do governo, contribuindo para que as instituições existentes possam realizar – com eficiência – as pesquisas vitais para o desenvolvimento dos nossos produtos e o acesso ao crédito. Enquanto esses dois principais entraves da atividade agrícola brasileira persistirem, é preciso alertar o governo dizendo:

– Não perturbe, estou produzindo –.

* Radialista, Jornalista e advogado

Publicado no Agora Rural em 19-10-2002

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