MUNICIPAL INTERMUNICIPAL TEM MOTIVAÇÃO ESPECIAL ESTE ANO

Por Walmir Rosário*

Teve início ontem às 17 horas, em Santo Amaro, com o jogo Santo Amaro 2 X 1 Feira de Santana, o Campeonato Intermunicipal de Seleções Amadoras da Bahia, versão 1993. Participam do Intermunicipal 81 seleções de todas as regiões da Bahia, transformando-o no maior campeonato amador do mundo. Pelo novo regulamento aprovado entre os clubes e a Federação Bahiana de Futebol (FBF), a seleção campeã do Intermunicipal disputará o Campeonato Baiano de Profissionais de 94 – 1ª Divisão –, o que vem

Luxo no Arbitral da FBF

incentivando os investimentos na contratação de bons jogadores.

O maior campeonato do mundo também é o mais organizado, recebendo toda a atenção por parte dos dirigentes da FBF. Isto pode ser visto durante a realização do Conselho Técnico, para definir o regulamento. Enquanto o arbitral da Divisão de Profissionais é realizado na sede da Federação Bahiana de Futebol, o de amadores teve como palco o luxuoso Hotel Méridien, reunindo dezenas de dirigentes e prefeitos.

Lucratividade

O intermunicipal pretende ser rico e lucrativo para a FBF. Para cada inscrição de seleção são cobrados Cr$ 8 milhões (oito milhões e cruzeiros), fora inscrições individuais e transferências de jogadores, entre outros serviços. Segundo o jornalista e diretor da Liga Itabunense de Futebol, Pedro Ivo Bacelar, antes mesmo de começar o campeonato propriamente dito a FBF já arrecadou mais de Cr$ 1 bilhão (um milhão de cruzeiros), sendo que cerca de 60% desse faturamento tem como origem o Sul da Bahia.

Os lucros vão além do que arrecada a entidade. Como o Intermunicipal está mais profissionalizado do que o Campeonato Baiano da divisão principal, jogadores, técnicos, preparadores físicos e até empresários vão fazendo o seu pé-de-meia, já que estariam condenados a ficar fora dos gramados por algum tempo e, consequentemente, desempregados. Cada vez mais o público entrará em contato com atletas conhecidos, oriundos de times como o Itabuna, Galícia, Jacuipense, Catuense, Serrano, Camaçari, e de equipes do Espírito Santo e Minas Gerais.

Prestígio eleitoral

Às vésperas da eleição da Federação Bahiana de Futebol os dirigentes mostram prestígio e buscam votos nas ligas interioranas. Mesmo que isso importe na descaracterização do Campeonato Intermunicipal, a FBF facilitou a utilização de até oito atletas profissionais por seleção. Afinal de contas, uma seleção campeã eleva o conceito, de dirigentes locais e do prefeito, sempre pronto para pagar as contas de sua equipe.

Palácio dos Esportes da FBF

Além dos repasses de subvenções para as ligas, o prefeito ainda pode influir decisivamente na sucessão da FBF, haja vista ser o Palácio dos Esportes roteiro obrigatório dos prefeitos interioranos em suas viagens à capital do estado. Com isso, o presidente Marcos Andrade sai disparado na frente para eleger o seu vice, Pedro Roberto, que terá como adversário o ex-presidente Antônio Piton. O contraponto do Campeonato Intermunicipal ficou por conta das ligas de grandes cidades, como Vitória da Conquista, e Jequié, que não aceitaram as regras do jogo: competir num campeonato amador com seleções profissionais e realizado altos investimentos.

Muita ‘grana’ nas contratações

Entre as seleções que mais investiram visando ao primeiro lugar no Campeonato Intermunicipal estão as de Buerarema, Itajuípe, Coaraci e Itororó, que lutam desesperadamente por uma vaga no campeonato de profissionais, apesar de não possuírem infraestrutura, como grandes estádios futebol ou público suficiente para manter um time. Essas seleções gastaram muito na contratação de jogadores e comissão técnica, além de despesas com material esportivo de primeira qualidade, alojamentos, alimentação e transporte.

Contrato, luvas salários ou qualquer outro tipo de de remuneração tão comum no vocabulário esportivo não fazem parte do dicionário dos dirigentes de ligas ou de prefeitos. Exceção apenas para os chamados “bichos”, muitas das vezes progressivos, conforme o número de vitórias ou a classificação no campeonato. Entretanto, um técnico poderá receber salários de até Cr$ 80 milhões (oitenta milhões de cruzeiros) e mais as despesas, não contando, aí, os prêmios pelo desempenho da equipe, e um jogador profissional pode ganhar entre Cr$ 20 milhões a Cr$ 40 milhões de salário.

Buerarema

Estádio Antônio Carlos Magalhães, em Buerarema

Considerado um “salvador” de times, o técnico Sapatão foi convocado para dirigir a outrora modesta Seleção de Buerarema. Junto com Sapatão também vieram o preparador físico Cleto Sauer, o massagista Santana, o roupeiro Napaeta, o treinador de goleiros Celso Adrião, todos ex-Itabuna, continuando apenas o supervisor Orlando da Hora, que já foi o treinador da seleção no campeonato passado.

Além da comissão técnica, o treinador Sapatão recrutou atletas em diversos times da Bahia, como o Galícia e o Camaçari, que dirigiu e salvo da “degola” em cima da hora. Somente do Camaçari vieram o goleiro Ferreira, Pita, Lima Baiano, Paulo Itaparica e Carlinhos Maracás; do Itabuna, Zé Luiz e Formigão (Araxá); além dos juniores Zé Mário e Rodrigo. Em Ilhéus o técnico foi buscar os amadores Nazaré (campeão baiano no intermunicipal de 87 pela Seleção de Itajuípe) e Ivan Baiano (outro campeão do ano passado pelo Linhares, do Espírito Santo).

Experiência

Em Buerarema os investimentos, entretanto, não ficaram restritos à contratação de jogadores profissionais. A Liga vem realizando um trabalho junto aos juniores. Dos atletas inscritos para o Intermunicipal cinco são provenientes dos clubes amadores da cidade – inclusive um atleta foi convidado da equipe das “Puaias”, que disputou o Campeonato Rural do Município: o meio campo Watson. Segundo o zagueiro Zé Luiz, que também é irmão do prefeito Tarciso Brunelli, os investimentos são altos. Semente com salários são gastos em torno de Cr% 500 milhões mensais, o que daria inveja a muitos times profissionais.

Justifica Zé Luiz que em Buerarema a seleção encontra vários “protetores” como o prefeito Brunelli, empresário do ramo de distribuição de petróleo, e responsável pela seleção do ano passado, quando apenas era empresário. “Ainda temos a ajuda de parte do comércio e da própria prefeitura”, ressalta. Diz ainda Zé Luiz que o investimento maior da prefeitura foi a reforma do Estádio Antônio Carlos Magalhães, que recebeu cobertura na arquibancada, novos vestiários para os juízes, pintura e reforma do gramado.

Apesar de todas as contratações, a Seleção de Buerarema ainda não teve tempo suficiente para trabalhar em campo. Nas duas partidas amistosas disputadas contra a modesta Seleção de Ibicuí, perdeu por 2 X 1 fora de casa e empatou em 1 X 1 no estádio local. Segundo o preparador físico Cleto Sauer, a seleção ainda não realizou um treino com todo o conjunto. Houve a contratação de outros jogadores e existe a escassez de tempo para prepará-los fisicamente. “Quem estava atuando no campeonato de profissionais está bem, mas quem estava parado ainda precisa de mais um tempo para chegar à forma física desejável”, afirma Cleto.

Profissionalismo é criticado

O alto nível de profissionalização das seleções amadoras é criticado por grande parte da imprensa e de alguns dirigentes de ligas. Para os defensores do amadorismo, a inclusão de jogadores profissionais descaracteriza o Campeonato Intermunicipal e ainda inibe a revelação de futuros craques, tão escassos no futebol de hoje. Parte dessa crítica é feita por dirigentes que reclamam a falta de apoio para um trabalho de base com a garotada da periferia das cidades, locais que tem revelado bons jogadores.

Para o diretor de Educação Física, Recreação e Desportos da Prefeitura de Ilhéus, Ivo Badaró, é inconcebível pagar altos salários aos atletas, enquanto o município ainda não pode fazer o mesmo com os professores. Para a Seleção Amadora de Ilhéus participar do Intermunicipal, a Prefeitura destinou apenas a modesta quantia de Cr$ 200 milhões (duzentos milhões de cruzeiros), constante no orçamento municipal, além da liberação de dois funcionários: o treinador Sérgio Vieira e o massagista. Outros tipos de ajuda concedidos são os veículos para o transporte da seleção durante os treinamentos e as partidas oficiais, além dos faturamento com a publicidade no estádio Mário Pessoa.

Juniores

Destaca Ivo Badaró que a Prefeitura de Ilhéus, em vez de investir recursos para contratar jogadores profissionais, tem se preocupado em formar novos atletas em todas as modalidades esportivas. Especificamente no futebol, a Secretaria da Educação vem investindo nas equipes de base, realizando um trabalho semelhante ao do Matsubara do Paraná, recuperando e construindo campos de futebol na periferia da cidade. “Estão programados quatro Centros de Treinamento (CT’s) para trabalhar os garotos até eles poderem chegar à Vila Olímpica Mário Pessoa”, explica Badaró.

Para o técnico Sérgio Vieira, ex-campeão do Intermunicipal jogando pela Seleção de Itajuípe em 1987, a profissionalização do Intermunicipal é uma injustiça, pois impede o surgimento de novos valores. Sérgio garante que somente ganhou dinheiro com o futebol jogando pelas seleções amadoras de outras cidades, nunca pela Seleção de Ilhéus ou como profissional. “Dos 24 jogadores convocados para a seleção, seis deles já saíram para ganhar dinheiro em seleções de cidades vizinhas e apenas três jogadores da atual seleção já participaram de outros intermunicipais. O restante do time é todo formado por juniores”, explica.

Itabuna

Situação semelhante a de Ilhéus passa a Seleção de Itabuna: ela não tem recursos para enfrentar as seleções profissionalizadas. Para o técnico Amail Lins, a parada é dura, pois a primeira partida é justamente contra a Seleção de Buerarema. “Enquanto nós treinamos à noite porque os atletas trabalham em dois turnos, em Buerarema os jogadores fazem dois turnos, já que esse é o seu trabalho”, ironiza. Para entrar no Campeonato Intermunicipal, o Itabuna comprou Cr$ 160 milhões (cento e sessenta milhões de cruzeiros) de material esportivo (fiado) e os jogadores vão aos treinos graças aos vales-transportes oferecidos por uma empresa de ônibus. “Mesmo assim temos uma frequência de 100%”, garante o treinador Amail.

Segundo o jornalista e diretor da Liga Itabunense de Desportos Amador, Pedro Ivo Bacelar, uma das exigências da diretoria foi convocar somente os jogadores que participavam do Campeonato Amador Municipal. “Não temos nenhum atleta de fora ou que ganhe dinheiro. Todos eles pertencem aos 14 times da cidade”, frisa. Para o radialista esportivo Jorge Caetano, uma das exigências que deveriam ser impostas pela FBF para que a seleção fosse inscrita seria a realização de um campeonato local. “Temos bons jogadores, porém eles não aparecem por falta de equipes”, ressalta.

O técnico de Itajuípe, Alberto Leguelé, encara a profissionalização do Intermunicipal como um novo mercado para os jogadores e comissões técnicas, além de revelar nomes de cidades sem a tradição do futebol. Para ele, a FBF deveria aumentar o número de seleções e o calendário, participando todas as cidades que tenham estrutura. Quem concorda com Leguelé é o zagueiro Zé Luiz, de Buerarema. “Se o campeão do Intermunicipal vai subir para a Primeira Divisão, a profissionalização é necessária para a equipe pegar experiência”, avalia.

O Campeonato Intermunicipal tem sido um vasto mercado para suprir o período de “férias” dos campeonatos profissionais. Tem atraído jogadores de outros estados, como o lendário Jacozinho, oriundo do futebol alagoano. O troca-troca de clubes enchem os noticiários das emissoras de rádio, que chegam a dedicar cerca de 90% de sua programação esportiva ao Intermunicipal. O chefe da equipe esportiva da Rádio Difusora de Itabuna, Robério Menezes, comenta que a emissora transmite até sete partidas simultaneamente, o que garante audiência e faturamento.

João Xavier aponta solução

João Xavier aponta novos rumos

“Como a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não permite mais de uma federação por estado, a única solução para se manter a atividade esportiva nas várias regiões da Bahia é a implantação de ligas regionais ou outra entidade que controle os clubes de futebol”. A afirmação é do ex-presidente do Itabuna Esporte Clube e secretário de Esportes e Turismo da Prefeitura de Itabuna, João Xavier. Para ele, a única maneira de se evitar a decadência do futebol baiano é a criação de campeonatos regionais paralelos, que vão se afunilando até chegar ao campeão estadual.

Garante Xavier que sua ideia vem encontrando receptividade entre os diversos dirigentes de futebol do Sul da Bahia, embora seja uma proposta que requeira estudos mais aprofundados. “Temos que sair da crise financeira, onde somente a Federação Bahiana ganha dinheiro com o futebol. Numa renda de Cr$ 20 milhões (vinte milhões de cruzeiros), por exemplo, somente Cr$ 667 e 220 cruzeiros ficam para o clube da casa”, protesta. Xavier afirma que a estrutura do Intermunicipal deveria ser profissional, já que acabaram com a essência do amadorismo. O campeonato de profissionais – completa –, é direcionado para Bahia e Vitória.

O dirigente observa que não tem sentido a prefeitura bancar uma seleção profissional, mascarando-a de amadora, pois não oferece recursos e condições para o surgimento de novos valores. “A prefeitura liberou cerca de Cr$ 300 milhões para a Seleção de Itabuna comprar material esportivo. Se não liberou mais é porque os recursos estão escassos”, diz. Para inverter a situação de decadência do esporte do esporte amador, Xavier informa que sua secretaria vai executar projetos de construção e recuperação de campos de futebol e contratar pessoal técnico para formar escolinhas. Ainda hoje Xavier vai manter uma reunião com as associações de bairros para discutir a criação do primeiro campeonato de futebol de campo entre os bairros da cidade.

Itajuípe quer ser bicampeã

Campeã em 1987, a Seleção de Itajuípe tem obtido ótimo desempenho no Campeonato Intermunicipal, tendo sido vice-campeã por três vezes. Este ano, mais uma vez, ela não deixa por menos e tentará repetir a façanha de 87, quando ganhou da Seleção de Santo Amaro na casa do adversário. Para repetir o feito, a Liga Itajuipense contratou o técnico Alberto Leguelé, que atuou por Camaçari, Lauro de Freitas, Riachão do Jacuípe, Leônico e Vitória (onde foi auxiliar técnico), e que aportou em Itajuípe com sete jogadores profissionais.

Alberto Leguelé

Uma vantagem considerada por Leguelé foi ter encontrado a base da equipe do ano passado, principalmente na defesa e no meio de campo, formados há muitos anos pelos jogadores Goiabão, Vivas, Du, Badon, Naldo, Edson, dentre outros. Entretanto, foram efetuadas as contratações de “homens gols” como Uílton e Neridal, ambos do Galícia, mais os jogadores Ravengá, Dumé, Quincas e André, vindos de outras seleções da região cacaueira. Nos dois primeiros jogos, a Seleção de Itajuípe goleou a Seleção de Floresta Azul por 4 X 0, repetindo a dose contra os profissionais do Itabuna.

Como não realiza um campeonato amador no município há cerca de cinco anos, a Seleção de Itajuípe vem se valendo da antiga base da década passada, reforçando-a com atletas de outras seleções e times profissionais. Mesmo assim, Itajuípe tem revelado alguns jogadores de bom nível, como Mário César e Edson, ambos da seleção do ano passado. Jogadores como Goiabão, Vivas, Du, Badon, por sua vez, aproveitam a folga do intermunicipal para jogarem em times profissionais como o Itabuna.

Confiança

Contando com dois jogadores para cada posição, o técnico Alberto Leguelé vem confiando no sucesso de sua equipe, que participará de um dos grupos mais modestos do Intermunicipal, estreando domingo contra a Seleção de Gongogi. “Estamos treinando muito, em dois turnos, até o começo do campeonato. A partir daí, os treinamentos se restringirão apenas à manutenção do preparo físico e à realização dos coletivos para aprimorar as jogadas e corrigir as falhas”, informa Leguelé.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Correio da Bahia em 12-07-1993

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