MEUS ÍDOLOS

Walmir Rosário*

“Non minus esset probanda medicina quae sanaret uitiosas partes rei publicae quam quae exsecaret” (“É preferível um remédio que cure as partes defeituosas da democracia do que um que as ampute”)

(Marcus Túlio Cícero in
Cartas a Atiço, II,1.7)

Desde pequeno tenho me inspirado em algumas pessoas de destaque na sociedade como forma de estimular minhas ações. O primeiro, meu e de todo o mundo que conheço, é o pai, aquele em que nos espelhamos e procuramos nos amoldar. Em seguida, outros ídolos despertam nossa consciência e os vamos incorporando ao nosso subconsciente.

De pronto, vou alertando para o fato de que nem sempre continuamos admirando nossos ídolos e podemos nos decepcionar com alguns deles, passando, às vezes, a ter uma relação de ódio ou desprezo. Outros atos, praticados pelos nossos heróis, são relevados por não possuírem tanta importância, mas sempre mágoa.

Ainda nos primeiros bancos escolares comecei a admirar meus ídolos, seja por terem bom desempenho nas arguições da tabuada, no sucesso com as meninas da classe ou por se destacarem pelo comportamento rebelde, tão em voga no início dos anos 50. Mais tarde, fui acrescentando novos ídolos, como os frades capuchinhos (Justo, Isaías e Apolônio), os mais legítimos representantes de Deus no meu querido bairro Conceição.

Confesso que até tentei ser um deles, primeiro como coroinha, após passar no vestibular de catecismo regido pela exigente professora Maria Zélia Couto. Depois, fui estudar nos seminários capuchinhos de Vitória da Conquista e Feira de Santana, mas confesso que a sabedoria divina soube me afastar do sacerdócio, do contrário estaria criando boas confusões para os bispos resolverem até hoje.

No futebol tive um monte deles, que tinha a oportunidade de admirá-los no velho Campo da Desportiva. Volta e meia saía embevecido com os dribles em cima da linha de Fernando Riela, a virilidade das arrancadas de Santinho, a classe de Abieser, as artimanhas de Tombinho, a elegância dos voos de Plínio, a matada no peito e o petardo em gol de Danielzão.

Poderia aqui ficar falando sobre um monte deles, como sempre faço com meu amigo Neném (Jesuíno da Conceição), e faltaria espaço para tanto. Mais uma vez não tive como seguir o exemplo de meus ídolos no futebol, apesar da teimosia de tentar jogar no glorioso Botafogo de Rodrigo. Minha habilidade não era do gosto dos treinadores e achei mais acertado desistir.

Na música, também amei meus ídolos, fossem eles Nélson Gonçalves, Elisete Cardoso, Dick Farney, Lúcio Alves, Tom Jobim, Agostinho dos Santos, Vinícius de Morais, Carlos Lira, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Clara Nunes, Raul Seixas, sem falar nos nossos domésticos Oswaldo Fahel, Marcelo e Rita Cezimbra. Com todo esse timaço, não consegui ter chance na música, embora também tentasse.

Na publicidade também tive meus ídolos. Sempre fiquei imaginando como o poeta, escritor jornalista e publicitário Orígenes Lessa tinha a capacidade de, num simples jingle, fazer com que os brasileiros passassem a escolher numa farmácia um determinado antigripal e antitérmico, apenas por lembrar da música: “Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal”. Duda Mendonça foi outro. Inicialmente marqueteiro e depois publicitário (que não o vejo pessoalmente desde o enterro do Barão, em 1976), me decepcionou após seu envolvimento com o poder, ao ponto de dar uma carteirada (mal sucedida) num delegado da Polícia Federal, que o surpreendeu numa rinha de galo.

Na política, atividade que despertou meu interesse antes mesmo do Exame de Admissão ao Ginásio, tive e continuo tendo meus ídolos. É bem verdade que decepções não faltaram durante todos esses anos, mas desde os tempos do Colégio Estadual de Itabuna, ali em frente ao hoje CNPC, passei a cultivá-los na política estudantil, a começar por Jairo Muniz, que venceu uma campanha memorável. Antes disso, na política internacional vibrávamos com os feitos de Fidel Castro e Che Guevara; a rebeldia constitucional de Brizola, através dos seus discursos explosivos na rádio Mairink Veiga.

Ainda na política, tempos atrás, admirávamos a modernidade que chegou ao Brasil com a implantação da indústria automobilística, que nos surpreendia com as kombis e volkswagens conterrâneos, para o nosso orgulho. Lembro-me bem do dia da inauguração de Brasília, fato relevante para o Brasil e relatado na sala de aula (da Escola General Osório, no bairro Conceição) pela professora Lélia, como um dos grandes feitos da história. Nem com todo esse civismo consegui ser um político concorrente a cargos eletivos, seja do Executivo ou Legislativo. Entretanto, passei a atuar na retaguarda, como faço até hoje.

Pelo que se conhece da história, Juscelino Kubitschek foi um homem preparado para exercer o poder como Executivo. Primeiro, se elegeu prefeito de Belo Horizonte, deputado federal, senador, foi governador de Minas Gerais, cargos que exerceu com dinamismo, cercando-se, para isso, de assessores competentes, que por sua vez trouxeram profissionais de primeira linha, a exemplo do arquiteto Oscar Niemayer, responsável pela transformação da paisagem belorizontina. O interior do estado conheceu o desenvolvimento com a abertura de estradas e melhorias na infra-estrutura e no campo social.

Eleito presidente da República, Juscelino governou sob o lema 50 anos em cinco, levando desenvolvimento para os rincões mais longínquos do País. Como um estadista soube enfrentar com maestria as conspirações políticas contra o seu governo, inclusive dois levantes militares, em que rebelados e seus autores perdoados com a humildade própria dos grandes homens. Falar sobre Juscelino Kubitschek é “chover no molhado”. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito do governo Lula, de resultados pífios na área social, como acontece em todos os governos de cunho populista messiânico.

Diante dos fatos expostos, posso concluir que não adianta a Lula ter como ídolo político Juscelino Kubitschek, até porque nesta época não se interessava em política. Enquanto Juscelino foi se preparando para governar, galgando posições, Lula preferiu sair da direção “stalinista” do seu sindicato para assumir a Presidência da República, com uma pálida passagem pela Câmara dos Deputados, onde seu maior feito foi declarar que ali existiam “300 picaretas”. Muito pouco para quem pretende governar um País do tamanho do Brasil. Presidente, sua comparação com o ex-presidente Juscelino é apenas mais um fruto do marketing fantasioso que conseguiu lhe alçar à Presidência da República.

Ora, presidente, até por respeito aos mortos, deixe a memória do ex-presidente em paz. Melhor serviria ao Brasil encarar os problemas criados por V. Excelência e companheiros, respeitando os 53 milhões de eleitores decepcionados com seu ídolo. Ou como diziam os antigos. Ora, Lula, me faça uma garapa!

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 03-09-2005

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