METAMORFOSE POLÍTICA

Walmir Rosário*

O patrulhamento ideológico parecia coisa do passado, com aposentadoria compulsória marcada, de papel passado, com a entrada do país no regime democrático. Mas, de repente, estamos de volta ao passado, principalmente com a eleição, para cargos executivos, de companheiros e camaradas, velhos adeptos dessa abominável prática.

O conceito filosófico do bem contra o mal, utilizado com sucesso pelo que esperávamos fosse a última vez, na eleição indireta à Presidência da República, da qual participaram Tancredo Neves e Paulo Salim Maluf. Ledo engano. Até hoje, a luta do bem contra o mal é invocada aos quatro cantos de acordo com as conveniências da hora.

E o pior: sem levar em conta os conceitos filosóficos, e sim, e apenas, o contexto maquiavélico de que o fim justifica os meios. Nesse caso, todos os direitos individuais inerentes à cidadania dos adversários são jogados na lata do lixo e ele é simplesmente lançado no fogo dos infernos, condenado pelas “santas inquisições” de nossa época.

Em Itabuna, como no resto do país, esse é um fato corriqueiro, quando são ameaçados os interesses políticos de um candidato. Que relate essa experiência o político Davidson Magalhães, um dos grandes quadros do PCdoB baiano, execrado em praça pública e nos meios de comunicação durante a eleição municipal de 1996.

Por não ter se submetido aos caprichos do prefeito de Itabuna, à época, Geraldo Simões, e resolvido a concretizar um sonho legítimo de candidatar-se à Prefeitura de Itabuna, foi chamado de “laranja”, alcunha pejorativa que ainda paga. Por mais que tenha demonstrado lisura e competência política e administrativa nos cargos exercidos, ainda carrega a pecha indevida.

O mesmo vem acontecendo com o ex-prefeito Fernando Gomes, acusado pelos petistas de “vender” espaço de vice-prefeito na sua chapa para políticos sem voto, mas com recursos suficientes para alavancar uma campanha. Na hora do anúncio, Fernando Gomes surpreendeu seus adversários, indicando o capitão José Nilton Azevedo, um militar de folha limpa tanto na corporação que tem Tiradentes como patrono, quanto em outras por onde passou.

Em seguida, a bola da vez foi o deputado estadual capitão Fábio, antes considerado um “milico” a serviço de ACM, e, posteriormente, um possível aliado do PT e candidato a vice-prefeito na chapa encabeçada por Geraldo Simões. Defeitos que tinha foram jogados em “baixo do tapete” e as qualidades ressaltadas pelas ruas e botequins de Itabuna. De condenado às profundas dos infernos foi elevado à condição de santo com lugar garantido no céu, sem sequer passar pelo purgatório.

Mas os quinze minutos de fama do capitão Fábio nas hostes petistas duraram pouco. Bastou uma simples conversa com as lideranças do PFL baiano, como o governador Paulo Souto e Antônio Carlos Magalhães, para que o castelo de areia geraldista caísse por terra, derrubado por uma onda avassaladora de argumentos. De anjo passou a demônio, sem direito a defesa nem explicações.

Lamentações a parte, a lógica prevaleceu e o capitão Fábio, homem forjado no cumprimento do dever e na hierarquia continuou onde estava, no ninho em que nasceu. Qual o pecado cometido pelo capitão Fábio? Não ter cedido às pressões políticas do PT? Ter continuado fiel aos seus princípios políticos? Não ter atendido ao chamamento e ao “canto da sereia” (legítimo numa campanha) de Geraldo Simões? É uma resposta para ser dada com o tempo.

Muito se gastou com tinta em jornais para endeusar e satanizar o capitão Fábio, que continua incólume em sua trajetória política, para o desgosto de alguns e regozijo de outros. Entretanto, ficou uma lição: não menosprezar a inteligência dos adversários, por menor que sejam pelas mínimas condições que apresentem. Em política, a conversa é uma arte que deve ser cultivada, os acordos devem ser propostos e, se aceitos, cumpridos.

A inteligência de ACM, mais uma vez, foi posta à prova e ele continuou a demonstrar que na arte de fazer política experiência ainda faz muita diferença. Nada como uma vitória para se comemorar ou uma derrota para ser meditada.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no jornal Agora em 23-06-2004