LULA E O VELHO CHICO

Walmir Rosário*

A insistência em realizar um projeto megalomaníaco como a transposição do rio São Francisco já se transformou numa obsessão para o presidente Lula e seu ministério, especialmente para o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes. Até mesmo a data para o início da obra está marcada: 1º de abril.

O Velho Chico, como é costumeiramente tratado pelos ribeirinhos, há décadas vem agonizando em seu “leito de morte”, sem que o governo se preocupe com sua revitalização, a começar pela sua nascente, na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Desde lá, o desmatamento ameaça o fornecimento de água e ainda aumenta o assoreamento do leito, dificultando a navegação.

A cada ano os barcos que navegam o Velho Chico têm diminuído de calado, pois não mais conseguem flutuar sobre os bancos de areia, em profusão na maior parte do rio. Grande parte dos marinheiros que singravam em embarcações o trecho Pirapora, em Minas Gerais, até Juazeiro e Petrolina, na Bahia e Pernambuco, foram obrigados a mudar de atividade, devido à constante queda das condições de navegabilidade.

A obsessão do governo Lula pelo projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco nos remete a um passado não tão distante, quando os governantes da época da ditadura militar, em delírios de grandeza, buscavam, a todo o custo, uma obra gigantesca para marcar sua passagem pelo poder. Em nome do crescimento do Brasil se construiu a Transamazônica, se prometeu a Perimetral Norte, onde o ditador de plantão e assessores, munidos de machados e motosserras derrubavam árvores para demonstrar o início da construção.

Hoje, ao que nos parece, o marketing do Governo Lula adota estilo idêntico para demonstrar que o “Brasil é um país que vai pra frente, how, how, how”. Os tempos são outros, mas os metidos são os mesmos, ou melhorados, para compensar o desenvolvimento dos meios de comunicação. Antes, os ditadores utilizavam a força, a censura à imprensa e, de forma sub-reptícia, propaganda subliminar, e até mesmo de alto impacto, conforme a definição estratégica de lançamento do produto desejado.

Agora, os métodos são parecidos, quase os mesmos, do tipo “os fins justificam os meios” e como verdadeiros discípulos bem aplicados de Maquiavel promovem negociatas, pre$$ionam meios de comunicação, repetem milhões de vezes a sua versão até que se torne uma verdade. Essa briga dialética tenta, à força, calar o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, o Ministério Público, os técnicos de ONG’s e universidades cujos projetos não sejam os mesmos do governo.

A “comissão de convencimento” do governo mais se assemelha a uma tropa de choque, que abomina os princípios democráticos caso a “sua verdade” esteja sendo posta em xeque. Um só projeto de revitalização do Rio São Francisco foi apresentado, pois somente interessa a faraônica obra de transposição do rio. De um lado, a tropa de choque, de forma ardilosa, fomenta o conflito entre os estados banhados pelas águas São Francisco e as que esperam ser beneficiadas pela transposição.

E nessa guerrilha dialética, o argumento “os ricos querem matar de sede os nordestinos” foi resgatado da pregação de religiosos fanáticos dos séculos XIX e XX, tão em voga na caatinga, estabelecendo a dissensão entre os brasileiros. O mais interessante é que tudo isso é pago pelos contribuintes, interessados ou não nesta importante questão.

Por outro lado, o presidente Lula se apresenta como um fanático religioso iluminado com poderes terrenos e divinos que, parafraseando o beato Antonio Conselheiro, promete aos sofridos irmãos nordestinos “um rio de leite e uma ribanceira de leite”, como se a transposição das águas do São Francisco fosse extirpar, de vez, todos os males que assolam o Nordeste brasileiro.

Ao completar dois anos de governo, o presidente Lula contempla o povo brasileiro com mais uma de suas brincadeiras pagas pelo povo brasileiro, com projetos do reino do faz de conta, a exemplo do Fome Zero, cujos recursos nunca conseguem chegar ao destino. Até agora, a única brincadeira do presidente que deu certo, foi a compra seu brinquedo preferido: um aviãozinho da Airbus.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no jornal Agora em 15-01-2005

Author Description

admin

No comments yet.

Join the Conversation