LÍDERES NÃO FOGEM À LUTA

Walmir Rosário*

Muito se tem discutido sobre a cobrança, via judicial, do imposto sindical pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb), inclusive na lista cacau. Entretanto, ninguém atentou para a questão política que o caso requer, e somente para o dever do agricultor pagá-la.

A legislação é clara e manda os sindicatos cobrar dos agricultores e, através da Caixa Econômica Federal, o pagamento é repassado mensalmente para os entes de direito, no caso em questão, 5% para a CNA, 15% para a Faeb, 60% para o sindicato respectivo, e 20% para a Conta Especial Emprego e Salário, do Ministério do Trabalho.

Acredito que a questão essencial é saber quem tem o direito de ir à Justiça para buscar o pagamento judicial, e esse direito pertence somente aos sindicatos. Apesar desse garantido por lei, não foram os sindicatos rurais que pediram a proteção do Poder Judiciário para satisfazer suas pretensões, e sim a CNA e a Faeb.

Como já se tornou praxe, os presidentes de sindicatos rurais de diversas cidades baianas preferiram se omitir, como costumeiramente fazem, e outorgaram procuração para que a CNA e a Faeb pudessem resolver seus problemas. E os dois órgãos, mais afastados das bases sindicais, o fazem sem a menor cerimônia.

Tal como Pilatos, as “lideranças” sindicais lavaram as mãos e se omitiram do mister conferido por lei. Derraparam feio os presidentes de sindicatos rurais que resolveram abrir mão de suas prerrogativas, voltando ao comodismo de sempre. Nada fazem nem querem fazer e ainda por cima ficam com raiva de quem faz.

No mundo globalizado, onde as decisões tomadas no hemisfério norte trazem reflexo imediato para os mais distantes grotões, e no sul da Bahia não é diferente, com os preços do cacau refletindo diretamente sobre as oscilações das bolsas de Nova Iorque e Londres, além de outros fatores. E aí é onde entra a representação classista dos produtores, hoje combalida e carente de líderes dinâmicos.

Dinamismo, sim, é o que precisa a região, onde a maioria dos sindicatos rurais funcionam aos trancos e barrancos, sem eleições abertas, sem participação dos filiados, que na verdade não se sabe (menos o presidente, é claro) quantos são. É esta a triste realidade do quadro sindical econômico, com raríssimas exceções, às vezes consideradas destoantes.

Lideranças de verdade são forjadas na lida diária entre a classe, discutindo idéias, debatendo os problemas, mobilizando os colegas, e não às portas fechadas, na calada da noite, realizando eleições na base do lápis e borracha. Verdadeiros líderes não abrem mão de suas prerrogativas, não se escondem, não fogem à luta, e nem por desídia delegam os afazeres a outras instâncias.

Líderes de verdade não usam dois discursos, soltando-os de acordo à situação conveniente. Quem repudia a cobrança de taxas, não tem o direito de taxar, ou exigir o cumprimento delas, sobretudo se tais cobranças tragam alguns pressupostos, como a oneração dos produtores, sob qualquer hipótese, como foi lavrado em documento entregue ao Governo Federal pela Faeb e CNA.

Líderes de verdade lutariam pela publicação da Nota Técnica a ser elaborada pela Ceplac, conforme compromisso assumido pelo seu diretor, e até agora não cumprido. Líder de verdade teria capacidade de mobilizar os companheiros, mostrando a necessidade de manter uma estrutura sindical forte e importância dos recursos financeiros para tanto. Um estágio dessas lideranças num sindicato de trabalhadores faria bem a toda a cadeia produtiva.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no jornal Agora em 11-06-2004

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