JUCA ALFAIATE, UM MESTRE DO FUTEBOL

O jogador metódico e perfeccionista, que ensaiava as jogadas em detalhes, deixou muita saudade e o nome inscrito no futebol baiano

A morte de José Correia da Silva, o Juca Alfaiate, abriu uma lacuna no esporte itabunense e marcou o fim de uma história rica, com muitos gols assinalados. Ele também deixou na memória de várias gerações grapiúnas a elegância de quem vestiu as cabeças coroadas da região durante o período dourado do cacau. A jornalista Adriana Dantas, que hoje reside na Alemanha, lembra que ele não era daqueles jogadores que se acabam numa partida, correndo de forma dispersiva um lado para o outro, pois a sua especialidade era concluir as jogadas com um objetivo: marcar o gol, destacando-se como uma espécie de Romário nas décadas de 40 e 50 e um craque diferenciado em todas as equipes em que atuou.

Considerado um jogador clássico e de alto nível técnico, ele era em essência um atleta metódico e perfeccionista, que se dedicava a estudar cada jogada, treinando com afinco por vários meses, estudando sempre todos os possíveis detalhes, e, o que é melhor, ensaiando-as sempre meticulosamente de duas maneiras, podendo concluí-las ou com chutes com o pé direito ou com o esquerdo, um problema a mais para os seus marcadores e para os goleiros adversários.

Uma outra característica de Juca era o físico franzino. Por ser relativamente baixo, compensava o que para outros seria uma deficiência, intensificando os treinos de impulso para as jogadas de ataque superando os zagueiros adversários nas jogadas pelo alto, um exercício que consumia algumas horas diárias do seu treinamento rigoroso. Graças à persistência, ele conseguiu depois de dois anos de treinamento intensivo, incluir no seu elenco de jogadas ensaiadas o gol de bicicleta, criado pelo jogador Leônidas, do Flamengo do Rio, um dos jogadores que admirava e que se celebrizou como Diamante Negro.

Entre a paixão e o ofício

Em 1934, aos 12 anos de idade, ele era considerado pelos “olheiros” como uma revelação do futebol itabunense, tanto que acabou convidado pelos dirigentes do São José, para integrar a equipe num jogo amistoso contra Ferradas. Na época, ele era tão pequeno e franzino que os companheiros de equipe o levaram no colo, num trecho de areal, para que ele não se cansasse muito e estivesse em condições de jogo, quando do início da partida. A ideia valeu como uma estratégia, pois o São José venceu a partida por 1 x 0, com um gol de Juca, que marcou assim o início de uma trajetória brilhante e que o consagrou como um dos maiores craques do futebol itabunense.

Quatro anos depois, consagrado como um centroavante e um goleador nato, foi convidado para integrar a equipe titular, do Grêmio, sem precisar participar da equipe de juniores, que eram os aspirantes da nova equipe, formando uma espécie de equipe reserva. Na sua estreia pelo Grêmio, ele teve participação decisiva no jogo contra o Brasil, de Água Preta, hoje Uruçuca, que terminou com uma goleada de 3 x 0 aplicada pela equipe itabunense, com dois gols de Juca.

Depois de concluir o curso primário e sem condições de continuar os estudos em Salvador, porque sua família tinha poucos recursos, ele passou na adolescência a dividir o seu tempo entre duas atividades: o futebol, que era a grande paixão e o aprendizado do ofício de alfaiate, influenciado de certa forma pela sua própria mãe, que era, exímia costureira. Desde muito jovem, ele desenhava modelos e cortava os moldes com tanto primor e habilidade, que terminou também identificando-se com esta atividade, impondo-se como um profissional bem-sucedido.

O futebol, entretanto, não dava muito dinheiro e não garantia o seu sustento, até porque o máximo que se podia receber era uma pequena ajuda de custos, por isso muitos atletas trabalhavam no comércio, nos bancos, no funcionalismo público e mesmo em atividades informais. Juca se valeu de sua profissão, chegando mesmo a montar uma alfaiataria em Santa Rosa, hoje município de Pau Brasil.

Em 1942, ocorreu a sua transferência do Grêmio para a Associação Atlética Itabunense, onde Juca vivencia o grande momentos da sua carreira futebolística. A Associação investiu numa série de contratações e conseguiu formar uma equipe forte e competitiva, integrada pelos melhores jogadores da região e, impondo-se como um time de elite, que conquistou cinco vezes consecutivas o campeonato itabunense de futebol.

A conquista do pentacampeonato itabunense ele dividia com outros craques de talento como Lubião e Macaquinho. O time era tão bom, que os seus dirigentes evitavam fazer excursões, temendo perder jogadores para outros clubes, mas, mesmo assim, apesar destas precauções, vários atletas foram vendidos para equipes de Salvador e até para grandes times do Rio e São Paulo.

Um fato interessante na história de Juca, é que em 1944, aos 22 anos, um ano antes do término da Segunda Guerra Mundial, ele foi convocado para lutar na Itália. Em Ilhéus, onde prestava o serviço militar, passou a integrar uma equipe formada por recrutas e soldados e, como após a sua entrada na equipe ocorreu uma melhora qualitativa no rendimento do time, os oficiais arranjaram um jeito de cancelar a sua viagem para a frente de combate na Itália, numa estratégia para outra importante vitória: a conquista do campeonato de Ilhéus.

Chave de ouro

Para o jornalista José Adervan, Juca era um jogador artilheiro e de alta técnica, perfeito no domínio da bola e do campo, visão de jogo impecável, e como tinha um físico de bailarino espanhol, a velocidade era uma de suas marcas para enfrentar adversários botinudos, mas lentos, o que lhe dava a chance de chegar primeiro na bola e se consagrar em todas as equipes por onde brilhou. “Era o jogador perfeito, numa época em que a maioria dos atletas não se cuidava e, ainda por cima, gostava da noite, da farra, de frequentar os cabarés”, registra Adervan

Juca praticamente encerra sua carreira com chave de ouro. Em 1949, conquista, pelo Guarani, que contratou quase o time inteiro da Associação, o titulo de campeão baiano de futebol, o que só não repetiu porque a equipe foi desfeita no ano seguinte e ele preferiu retornar a Itabuna, onde em 1953 casou com D. Isabel, com quem teve oito filhos, deixando ao morrer mais 15 netos e dois bisnetos.

Se como futebolista ele teve grande destaque, como alfaiate também esteve na seleção dos melhores. Além de ser profissional competente, e que trabalhava para uma clientela sofisticada, ele também foi um dos primeiros a investir num marketing agressivo nos anos 60, colocando o seu nome, sem nenhum outro indicativo, em placas, imóveis e cartazes. Tinha gente que pensava que ele era candidato a vereador.

Infográfico

1922

Nasce em Aracaju

1934

Estréia na equipe do São José, que vence a seleção de Ferradas por 1 x 0, com um gol seu

1935

Conclui em Itabuna o curso primário

1938

Transferido aos 16 anos para o time titular do Grêmio, que vence em sua estréia o Brasil, de Água Preta, por 3 x 0, e dois gols de sua autoria

1940

Instala uma alfaiataria em Santa Rosa (Pau Brasil)

1942

Campeão pela Associação Atlética

1943

Bi-campeão itabunense pela Associação

1944

Tri-Campeão itabunense AAI

1945

Tetra-campeão itabunense AAI

1946

Hexa-Camepeão itabunense pela AAI

1946

Conquista o campeonato baiano pelo Guarani

1950

Deixa o futebol e se dedica à profissão de alfaiate

1989

Recebe na Câmara de Vereadores o título de cidadão itabunense

2007

Morre em Itabuna aos 84 anos

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL AGORA

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