JÁ VAI TARDE

JÁ VAI TARDE

Walmir Rosário*

Muito se tem falado sobre a exoneração do ex-diretor da Ceplac, Gustavo Moura, medida tomada recentemente pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. O assunto ganhou maior repercussão porque Moura foi substituído pelo pesquisador da Ceplac/Pará, Jay Wallace, desconhecido da maioria dos baianos, o que faz ressuscitar em alguns setores da cacauicultura a velha rivalidade entre a lavoura de cacau do Sul da Bahia e da Amazônia.

Nada mais inútil do que a volta dessa discussão, por ser inócua e não representar nada de novo na gestão da Ceplac. Se antes o poder de decisão da direção da Ceplac era determinante, hoje pouca diferença faz, basta analisar o poder de fogo detido pela direção do Órgão, notadamente quanto aos investimentos realizados em infraestrutura nas cidades em que atuava.

Se antes a Ceplac era beneficiada por um orçamento calcado nos recursos auferidos pela contribuição cambial – a taxa de retenção de 10% sobre a venda do produto –, hoje vive com uma cuia na mão, solicitando a liberação dos recursos orçamentários, constantemente contingenciado pelos ministérios da Fazenda e Planejamento.

Antes, esses recursos eram repassados através de compromisso firmado entre a direção da Ceplac, governos estaduais, ministérios econômicos e até o presidente da República. Apesar do regime fechado, a Ceplac gozava de conceito junto aos altos escalões governamentais, notadamente pelo desempenho de suas atividades e os resultados positivos do trabalho da pesquisa, extensão e ensino profissionalizante.

Diferenças de época à parte, o certo é que a Ceplac fazia por merecer o conceito auferido junto aos segmentos sociais, diferente de hoje, por ter se tornado apenas mais um órgão governamental a serviço de pessoas oriundas do partido político de plantão. Esta Ceplac não serve à economia das regiões produtoras de cacau, à sociedade, e muito menos ao País.

A discussão sobre os dirigentes da Ceplac não devem se restringir às mesquinharias de políticos que agem como se a instituição fosse uma extensão de sua cozinha, onde manda e desmanda por si próprio ou através de asseclas subservientes. Também não pode recair sobre a naturalidade ou ocupação profissional do pretendente ao cargo.

Nos seus 50 anos de existência, a Ceplac foi dirigida por pessoas das mais diversas formações, cada uma delas cumprindo o seu papel, de acordo com sua capacidade intelectual e prestígio político. Cada um fez jus a ter seu nome lançado na história – uns pelas qualidades positivas, outros pela incapacidade, subserviência e falta de liderança.

E foi exatamente o que aconteceu com o último diretor, indicado como o primeiro representante dos cacauicultores e somente por essa condição nomeado. Nesses cinco anos, entretanto, nada de positivo acrescentou à história da Ceplac, a não ser o clima tenso e negativo, marcado por perseguições aos funcionários, ameaças de demissões, chegando ao extremo de assédio moral.

Para dirigir uma instituição como a Ceplac, não importa se o currículo do dirigente ateste ter nascido em qualquer região do Brasil ou de que país, bastando que tenha capacidade administrativa, bom trânsito nos meios políticos e governamentais e, sobretudo, se portar com dignidade no exercício da função.

Infelizmente, os atuais mandatários da Ceplac – a bem da verdade, Geraldo Simões – não sabem distinguir a importância e a supremacia de uma instituição sobre os homens que a dirigem. Se sabem, agem de forma criminosa, colocando a entidade a serviço de seus interesses pessoais e partidários, fato esse mais próximo da realidade institucional.

Pior ainda é tentar desviar a atenção da população do Sul da Bahia para a incapacidade de solucionar os problemas técnicos e econômicos da lavoura cacaueira, tentando espalhar que todos os programas do Governo descerão ralo abaixo com a exoneração do diretor ineficiente. Se em cinco anos não foi capaz sequer de planejar as atividades do Órgão, aglutinar servidores em torno de um projeto, de repente tentam aparecer como se salvador da lavoura fossem.

Nada mais enganadora e mentirosa do que a afirmação de que o PAC do Cacau seria desmantelado com a troca de comando. Anunciado como uma medida miraculosa e capaz de curar todos os males da economia cacaueira, o PAC do Cacau tem se mostrado mais um daqueles planos eleitoreiros, elaborados apenas com a finalidade de postergar a solução definitiva dos problemas.

Se a eficácia – ou a eficiência – do PAC do Cacau estará comprometida, certamente não será pela saída do ex-diretor da Ceplac e sim por não ter sido elaborado corretamente, além de ter se mostrado incapaz de atender às necessidades da lavoura de cacau. Não trouxe facilidade para o pagamento, tampouco ampliou a capacidade de endividamento do produtor de cacau, condição sine qua non para pagar as dívidas existentes e possibilitar a contratação de novos recursos.

Por mais esdrúxulo que pareça, o secretário da Agricultura da Bahia, Geraldo Simões, prefere colocar o carro adiante dos bois, na tentativa de manter a Ceplac entre o seu feudo político, a despeito da evolução do processo democrático. Com o diretor, já deveriam ter saído os ocupantes de outros cargos de confiança, facilitando, assim, a execução do programa administrativo do novo diretor, Jay Wallace.

Quanto aos empecilhos à execução do PAC do Cacau que poderiam ser causados pela saída dos apaniguados de Geraldo Simões da direção da Ceplac, nada se apresenta de forma tão mentirosa. Aos incautos, vale lembrar, a caneta que exonerou Gustavo Moura da direção da Ceplac foi a pertencente à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, considerada a “Mãe do PAC”, a não ser que Geraldo Simões esteja afirmando que sua companheira tenha sido rebaixada à condição de simples madrasta.

* Radialista, jornalista e advogado

 

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