ITABUNA, CONSTRUÍDA COM SUOR E SANGUE

http://ciadanoticia.com.br/wp-content/uploads/2018/11/Itabuna-praça-adami.jpgITABUNA, CONSTRUÍDA COM SUOR E SANGUE

Walmir Rosário*

Itabuna, a cidade mais cosmopolita do Sul da Bahia, já nasceu grande. Grande não só no tamanho, mas no propósito de se tornar uma cidade que oferecesse todas as condições a todos que a procurassem. Grande na hospitalidade, recebendo indistintamente a quem chegasse, não importava de onde: Sergipe, Alagoas, Pernambuco, São Paulo, Síria, Líbano, ou Suíça, não fazia diferença e imediatamente passava a fazer parte dessa imensa Nação Grapiúna.

Ao chegar, não importava se a pé, no lombo de burro ou num “pau de arara”. Vestido em calças de sacaria, mesclinha azul, casimira inglesa, ou linho S 120, todos tinha sua oportunidade, com variações apenas da ocupação. Os sem grande instrução, mas com disposição, eram encaminhados às roças de cacau, para trabalhar na diária ou na empreitada. Já os de compleições físicas menos avantajadas arrumavam colocações no comércio e nos serviços.

Os de paletó e gravata abriam comércio, banca de advogado, consultório médico, vaga nos cartórios, ou em outras dezenas de profissões. Assim era a vida, estratificada socialmente, mas com oportunidade para todos. Fome não se passava e nem se vivia na miséria absoluta. O rio Cachoeira era abundante em peixes, camarões e pitus, a mata em pacas, tatus e aves. O dinheiro conseguido com o serviço prestado era suficiente para comprar o sal, o querosene.

Percalços existiam e não eram poucos numa terra rica, mas ainda em formação. Os que sabiam economizar aos poucos iam se remediando, adquirindo um lote para construir um barraco e abrigar a família. Os de sorte melhor, podiam alcançar bons empregos, mandar buscar a família em Sergipe, se estabelecer por conta própria, fazer fortuna. Quem sabe até conseguir um bom casamento com a filha de um fazendeiro de cacau e aumentar o patrimônio da família?

O sonho era plantar e colher cacau. De mil arrobas pra cima. Quanto mais melhor. Aumentava a conta no banco, o prestígio na sociedade e o poder político. Muitos deles compravam patentes na Guarda Nacional, Tenente, Capitão, Major, Coronel, de acordo com suas posses. Outros nem disso precisavam, pois pela quantidade de jagunços que mantinha para sua segurança e de seu patrimônio já era nomeado popularmente com se tal fossem.

Daí a se tornaram políticos era um pulo. Se agregavam aos líderes de partido da capital – caso sua fortuna e poderio comportasse –, ou aos líderes locais, juntando interesses e eleitores conseguidos por meios nem sempre recomendáveis. Mas era a lei informal que prevalecia e nas eleições cada um demonstrava o seu poderio graças às “comissões de convencimento” que formavam à entrada da cidade, entregando e trocando os envelopes com as chapas dos candidatos em que deveriam votar.

Se por um lado era perigoso pertencer a um determinado grupo político, por outro era necessário, dada a proteção que receberia, sem contar com as benesses conseguidas pelos coronéis com prefeitos (ou intendentes), deputados, senadores, governador e outras lideranças influentes. Se imperava a força do bacamarte, da pistola e do facão, por outro lado as publicações do Diário Oficial traziam nomeações que importavam em poder, prestígio e dinheiro.

Essa tríade – poder, prestígio e dinheiro – era de importância fundamental para quem tinha grandes pretensões. Funcionava como um alvará para solucionar as mais confusas e complexas demandas judiciais. Na vida social representava um passaporte para frequentar os clubes sociais ligados aos seus correligionários, aparecer nos jornais mantidos pelo grupo político, frequentar a conversas da alta-roda.

Se benefícios recebiam, também tinham o dever de contribuir para a comunidade, e numa demonstração de altruísmo e desprendimento, contribuíam com altas somas para as obras e festas religiosas, para o regozijo dos padres e pastores das igrejas. Ainda era muito comum substituir o poder público, implantando, individualmente ou em associações, obras e serviços à comunidade com recursos próprios.

A construção de igrejas, ruas e estradas, iluminação pública, dentre outros benefícios, faziam parte dos usos e costumes do povo grapiúna. A quem diga que essas costumeiras beneficências eram tidas e havidas como uma expiação dos pecados cometidos. Mais ainda: além das numerosas orações – Pai Nosso e Ave Maria – que eram orientados a rezar após as confissões, prestavam contribuições financeiras para se livrar do fogo do inferno, em caso de morte.

E assim foi sendo construída Itabuna, cidade resultante da argúcia e sagacidade de um povo trabalhador e que construiu a civilização do cacau, fruto da miscigenação, do suor e do sangue derramados na formação da Nação Grapiúna. Os pioneiros fizeram história, deixaram como legado a riqueza individual, construída de forma rude, mas se esquecer o coletivo, desprezando até o poder político, pois lhes bastavam o poder econômico.

Mudanças foram sendo feitas ao longo dos anos, algumas necessárias para acompanhar a evolução dos tempos, outras nem tanto, como a falta de comprometimento com a comunidade por parte de políticos e de representantes do capitalismo selvagem e desumano. Mudanças maléficas como dos pseudos líderes, sanguessugas do poder público e da coletividade.

Mas Itabuna é altaneira, continua trilhando o caminho do seu desenvolvimento, sem esmorecer ou se abater nos momentos mais difíceis e é capaz de renascer nos momentos mais adversos. E tal como na mitologia grega se compara à fênix, que quando morta consegue renascer das próprias cinzas. Itabuna é também iconoclasta e tem o condão de destruir todos os “santos que possuam os pés de barro”.

*Radialista, jornalista, advogado e itabunense por direito

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