ISAAC NUNES, SUA PROSA, SEU VERSO

Resultado de uma experiência de vida, “Mochila de Cego” conta histórias da vida urbana e rural com a simplicidade de quem bate um papo bem animado com os amigos

Walmir Rosário*

Isaac Nunes e o livro Mochila de Cego

“Mochila de Cego” é o livro que foi lançado no Rancho Texas, no quilômetro 41 da rodovia BR-415, trecho Itabuna-Ibicarai, por Isaac Nunes Filho. Com 155 páginas, Mochila de Cego é o quarto livro de Isaac e conta histórias e estórias presenciadas e vividas pelo autor, um homem que viveu em quase sua plenitude no campo.

Prefaciado por Bule-Bule, o qual Isaac considera um cordelista autêntico e poder de criação dos mais completos que conhece, pois canta todos os estilos de cordel de Nordeste, sem falar que canta tirana, coco do Recôncavo. “Bule-Bule é o ‘Rái da Silibrina’”, denomina.

E no prefácio, Bule-Bule não deixa por menos: “Para quem não sabe, Isaquinho, como carinhosamente nós, seus amigos, é um doutor formado em sertão e sabiamente construiu uma ‘Mochila de Cego’ como o que existe de mais autêntico. Identificou só com a carapuça dos dedos e os olhos fechados, todo o material para encher a mochila”, escreveu.

Essas linhas escritas especialmente para a Banda B não tem a finalidade de resenhar o livro, mas sim exaltar as qualidades da literatura do campo, prosa e verso sem academicismo (nada contra), mas resultante do apanhado da cultura de gente simples que vive desde o Norte de Minas até o Ceará. Sim, isso mesmo, pois Isaac Nunes Filho é uma pessoa irrequieta, um fazedor de amigos que sai garimpando histórias por esse Nordeste afora.

Ler ou ouvir, tanto faz

Um dos muitos dos seus amigos era o poeta cearense Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva), que viveu 93 anos e é considerado um dos maiores poetas do Brasil. Por três vezes esteve na casa dele, e Patativa o reconhecia pela voz, pois era praticamente cego.

Patativa, onde você arranjou tanto conhecimento? – perguntou.

Lendo, meu filho, aprendi a ler quando tinha 12 anos e até hoje não parei mais – respondeu.

E hoje confessa:

Tenho preguiça de ler, gosto de conversar, ouvir versos – confessa sem a menor cerimônia.

E o interesse pela prosa e verso veio quando ainda era menino, com o contato com os cantadores de folhetos de cordel, a quem ele considera os repórteres daquela época, pois os assuntos mais palpitantes eram feitos à pressa e levados às toscas gráficas para serem impressos e cantados nas feiras livres, pois naquela época nem mesmo rádio havia.

E Isaac gosta de diferenciar o cordelista de “bancada”, que faz o poema e não canta, do cordelista improvisador, que tem a feira livre como principal mercado de trabalho. Pois foram esses clássicos do cordel como ”Pavão Misterioso”, A Chegada de Lampião no Inferno”, que chamou a atenção do menino Isaac, que decorou as estrofes que até hoje guarda na memória.

Aprendi a gostar de poesia e com o passar do tempo passei a conhecer o soneto, a poesia mais clássica, mas gosto mesmo é de soneto e aprendi a fazer uns versos como esses que estão no “Mochila de Cego”. Eu fiz este livro baseado em mim mesmo, depois de sofrer uma cirurgia e ficar magro, parecendo um camaleão na seca – informa.

Isaac Nunes Filho é um cavalheiro, daqueles de antigamente, mas que trata todos com distinção até hoje. É considerado a alegria da família, principalmente dos primos mais novos, a exemplo de Ruy e Paulo Roberto Nunes, que adoram prosear com o primo mais experiente. Mesmo assim diz convicto:

Só escrevo poesia quando estou triste, mas como estou há três anos sem saber o que é tristeza, nunca mais escrevi nada. Só coisa do tipo “…mas não tire o chapéu de menininho” (páginas 75 e 76), coisa alegre, cordel, mas se me botar para fazer um soneto, primeiro tenho que ficar triste – admite.

Outra característica de Isaac Nunes Filho é sua extroversão. Sabe como ninguém transitar por todos os caminhos – urbanos ou rurais. Com a mesma distinção que frequenta um palácio abraça um velho conhecido que mora numa choupana de “barro batido” nos íngremes da caatinga. Igualzinho ao seu primo Walter Fonseca, o conhecido Baleado.

Pois o seu Isaquinho já percorreu os quatro cantos do mundo. Volta e meia, deixava sua fazenda e rumava para os cantões da caatinga conviver com os poetas nordestinos, beber de fonte limpa o mais rico do cordel.

A maioria deles não sabia escrever nem falar direito, mas são repentistas que conhecem a métrica e a rima e deixam um legado muito grande para a cultura brasileira – exclama.

Como disse, Isaquinho é “homem dos sete instrumentos”, tanto assim que criou gado leiteiro, cavalos quarto de milha e carneiros em sua fazenda de Jaguaquara; plantou e colheu café arábico de qualidade em Barra do Choça. Não satisfeito, mudou-se para o Prado no extremo sul da Bahia, onde implantou o “Pouso do Guerreiro”. Para não ser incomodado, encomendou uma placa com os seguintes dizeres: “Cuidado com o Cão”, na qual pintou a figura do Satanás, com chifres e tudo, bem ao lado de uma igreja evangélica. Assim fazia crer que o sítio era guardado por um cão feroz. Que nada, em casa somente um cachorrinho da raça pincher (bem pequeno) reinava soberano.

Sobre o livro e o autor

Escreveu assim o professor universitário Paulo Pires, de Vitória da Conquista, numa resenha intitulada A Academia do Papo:

E os sonetos? Seus sonetos (a maioria) têm influência formal italiana. Isso significa Escola de Petrarca, o pai do soneto na terra dos Césares. Quando informo “influência formal” o faço para assinalar que se a obra obedece a formas, sob o ponto de vista estético é absolutamente original no plano da criação. Claro que ele não se propõe como fez João Guimarães Rosa, inventar uma nova literatura. Mas qualquer pessoa medianamente culta chegará a uma bela conclusão: A obra de Isaac é original [autêntica] porque nela se sente imediatamente seu timbre de cantor. Seu jeito de trovador, menestrel e homem de estrada – e nada mais precisa ser dito. Basta conferir o livro.

* Radialista, jornalista e advogado

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