Inventário moral

Walmir Rosário

De tempos em tempos, sempre é bom dar uma repensada na vida. E é o que costumo fazer frequentemente para traçar novos rumos, mudar comportamentos, enfim, mudar o perfil. Acredito piamente que essa prática é benéfica por me permitir ficar de bem comigo mesmo e, por conseguinte, fazer com que outros possam melhor me tolerar.

Essa busca de ajuste pessoal faz com que eu possa compensar as deficiências da idade com a experiência que adquiri. Ou como bem diz o mestre José Adervan: “O diabo é sabido porque é velho, e não por ser o mais inteligente”. Mas, desde já, vou avisando que não me considero em fase de senilidade, de degenerescência. Meu inconformismo tem outras raízes.

Mas, afinal, qual a origem desse sentimento? Seria melhor dizer que se trata de ranhetice, própria da constituição biológica, coisa que somente o mapeamento do DNA ou o diagnóstico de um psiquiatra, após várias sessões de análise, possa explicar? Acredito que não. A experiência mostra ser isso o resultado de anos de vivência de situações que podem gerar a intolerância.

Como é que posso me conformar, por exemplo, com o andamento da política brasileira, quando a mídia revela escândalos sucessivos, a ponto de mazelas mais novas levaram as mais antigas ao completo esquecimento? Diferentemente do que pensam as autoridades “destepaiz”, acredito que a democracia representa a convivência pacífica dos interesses da maioria e minoria.

Também não posso me resignar quando a maioria, de forma acachapante e por métodos não tão apropriados eticamente, consegue esmagar a minoria, a exemplo do que aconteceu na eleição para a Presidência da Câmara Federal. Neste caso, ficou patente o projeto hegemônico elaborado e executado truculentamente pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

Nenhum demérito aí aos petistas, cujo projeto de poder pode ser retratado como “o céu é o limite”. Quem não ficou “bem na fita”, como se diz, foram os tucanos, capitaneados pelos governadores e pelo ex-líder Jutahy Magalhães Júnior. Líder, aliás, rejeitado pela maioria do partido, haja vista sua defenestração logo após o imbróglio criado.

Nego-me a conceber a existência de formas planas neste planeta, sem os pólos positivo e negativo. Afinal, o fogo e a água são essenciais na vida de qualquer sociedade. O que seria da vida sem a diversidade de pensamento, dos gostos e sabores? Água e óleo só não puderam conviver juntos numa época nem tão remota da política baiana, mas já execrada pela população nas urnas.

Claro que os conflitos deverão existir enquanto viva estiver a humanidade, pois da natureza humana é a dicotomia. Mas a própria sociedade deve criar e utilizar meios eficientes para solucionar esses embates, considerados normais quando provêm do campo das idéias. E o Poder Judiciário foi criado com esse mister. Com o avanço da sociedade, até mesmo contamos com o instituto da Arbitragem para dirimir questões de natureza econômica num menor espaço de tempo.

Mas, enfim, a diversidade deve existir e não deve ser encarada como uma questão estanque, como vemos na maioria dos partidos políticos brasileiros. Neles, logo após as eleições, é promovido um festival de troca-troca, sob uma pífia argumentação que vai desde a impossibilidade de convivência regional até o ufanismo mal explicado de servir às causas do País.

Nos sindicatos, sejam eles de trabalhadores ou econômicos, os associados não se fazem de rogados e chegam ao cúmulo de ensejar ações ou omissões no sentido de prejudicar a instituição. Nestes casos, como costumo dizer, as pessoas se colocam acima das instituições, quando deveria ser o contrário, creio eu.

Isto me faz lembrar o ocaso da Central Nacional dos Produtores de Cacau (CNPC), cujo prédio, construído com o dinheiro da cacauicultura, passa agora para a União. E olha que ainda teve produtor tecendo loas a mais esse grande equívoco. E não se pode colocar a culpa na ação da Justiça, que se ateve aos autos, apesar da celeridade jamais vista em outras ações.

Por mais pecados que tenham cometidos dirigentes da CNPC, não se justifica o abandono da entidade por parte dos sindicatos. Pelo contrário, seria mais um motivo para tomar a direção. Infelizmente, nem sempre se pensa assim. Os sindicatos patronais alegam que não podiam pagar sua contribuição à CNPC por não possuírem renda. Por sua vez, os cacauicultores também dizem não dispor de recursos para honrar as mensalidades junto ao seu órgão sindical, mesmo sendo uma anuidade de simbólicos R$ 50,00.

Assim como faço frequentemente, recomendo neste caso específico a prática do repensar a vida, afirmando algumas posições e reconsiderando outras. Uma espécie de inventário moral sobre o que realmente provocou este episódio e o seu desfecho. Neste caso, a experiência vivida agora talvez sirva para evitar dissabores semelhantes no futuro.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 10-02-2007

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Walmir Rosario

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