Indecisão ou incompetência?

Walmir Rosário

Minha intenção não é chover no molhado, mas os recentes acontecimentos políticos não me permitem outra alternativa senão a de voltar ao assunto das invasões feitas pelos membros dos movimentos sem-terras na região. Segunda-feira (26), a bola da vez foi o prédio do escritório da Ceplac, em Itabuna, até agora administrada pelos invasores.

São eles quem decide quem entra e quem sai, o horário de trabalho dos funcionários, e até se eles podem ou não trabalhar. O mais interessante em tudo isso é que os dirigentes da instituição na Bahia não se dignaram a informar à sociedade, por conta própria ou através do seu serviço de comunicação, quais as medidas tomadas para coibir a ilegalidade.

Ilegalidade, sim, pois seus dirigentes, mesmo sendo petistas, não permitiriam que “companheiros” outros, sem a devida demonstração de força, ocupassem o prédio. Com os “companheiros” sem-terra é diferente e se estabelece a máxima atribuída anos atrás a ACM: “Aos inimigos, os rigores da lei; aos amigos, os benefícios da lei”. Nada mais justo para quem está por cima, diriam alguns.

O mais estranho, nesse procedimento, é que os sem-terra invasores do prédio da Ceplac dizem nada ter contra ela ou sua atuação, e sim contra o Incra, que ocupa uma sala no local. Apesar da luta deles contra a ineficiência do Incra em não deslanchar a reforma agrária pretendida, a sala ocupada pelo órgão responsável pelo processo de desapropriação, no prédio, continua livre e desimpedida.

O mesmo, entretanto, não acontece com o restante do prédio, onde a Ceplac e outras instituições federais e estaduais ocupam salas. Nesses locais, os sem-terra têm trânsito livre a qualquer hora do dia ou da noite, entrando e saindo como se estivessem em sua casa, ou da “mãe Joana”. Mesmo no horário de expediente, os invasores gritam palavras de ordem, entoam cantorias, enfim, fazem o que “der na telha”, impedindo os servidores de exercer o trabalho.

Essas invasões a prédios públicos nada resolvem e trata-se apenas de estratégia dos “chefões” dos movimentos sem-terra, que utilizam tática de guerrilha urbana e rural para mobilizar sua “massa de manobra”. Com a demonstração de poder (já que não há reação), os liderados sentem-se estimulados a praticar mais ilegalidades, novos crimes contra o patrimônio público e privado.

O que mais chama a atenção é o imobilismo das autoridades legalmente constituídas em não desencadear ações em defesa do patrimônio público, aumentando, consideravelmente, o sentimento de impunidade entre os infratores. Neste caso, se privilegia a prática de crimes, instala-se um poder paralelo, Extingue-se as instituições, joga-se todo o legado da Justiça na lata do lixo.

Situações como essa somente provocam a ampliação das ações dos sem-terra, que demonstram, a cada dia, não possuírem a medida das coisas, ou sequer de suas reivindicações. Hoje, a invasão começou com o prédio de Itabuna, amanhã, será a própria sede da Ceplac, com toda sua infra-estrutura. Quem sabe os sem-terra não escolhem aquela área para assentamento, onde existe toda a infra-estrutura (casas, solos de boa qualidade, asfalto, computadores, dentre outras facilidades do mundo moderno).

A sede da Superintendência Regional da Ceplac para a Bahia e Espírito Santo, aliás, já foi vítima de várias invasões, inclusive as salas da mais alta administração, “ocupada” anteriormente pelos atuais dirigentes. Quem sabe esse ensinamento tenha sido aprendido pelos sem-terras, na matéria ocupação, e até copiem a elaboração de atos como o decreto que expulsou Carlos Viana, coordenador à época, de sua sala.

Uma cena lamentável, mas que pode ser repetida.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

 

Publicado no Jornal Agora em 23-03-2005

Author Description

Walmir Rosario

No comments yet.

Join the Conversation