Honrados, mas nem tanto

Walmir Rosário*

O mago da publicidade da campanha de Lula à Presidência da República e marqueteiro-mor do Palácio do Planalto, Duda Mendonça, deve estar se inspirando nos comerciais de maior recall (nível de lembrança) da propaganda brasileira para produzir as do PT nos mesmos conceitos. A melhor delas é a veiculada pela Semp Toshiba, sob o título “Os nossos japoneses são melhores que os japoneses dos outros”.

Nesse comercial, apareciam os japoneses da Semp Toshiba fazendo milagres, com invenções superiores à concorrência. No lado petista, essa mensagem não é reproduzida no formato dos comerciais de 30 segundos que estamos acostumados a ver nos intervalos do programas, mas estão lá em forma de entrevistas concedidas por ministros, presidente do partido, deputados e senadores.

Numa imitação grosseira, os próceres petistas dão a entender que “os nossos corruptos são mais éticos do que os corruptos dos outros”. Ao cidadão comum, que não costuma prestar a atenção aos noticiários políticos, isso passa despercebido, mas para quem costuma “ler com olhos profissionais” o teor dessas entrevistas percebem claramente a jogada de marketing.

Essa atitude não é por demais estranha a um partido que estabeleceu grau em matéria de ética e honradez, outra “invencionice” deste tipo não é nada demais nesse mundo de meu Deus. Entretanto, o que causa espécie é até onde chegou o nível de mentiras e enganações emitidas pelos petistas, antes e depois das eleições que valeram o Palácio do Planalto e a maioria no Parlamento brasileiro, com as numerosas adesões.

Se o Tribunal Superior Eleitoral utilizasse um Código de Proteção e Defesa do Eleitor, o Partido dos Trabalhadores já teria matado de inveja as empresas de telefonia, bancos, consórcios e outras tantas que abarrotam os procons e Juizados de Defesa do Consumidor. O eleitor, que comprou um tipo de discurso, uma proposta de administração, levou outra completamente diferente, cheia de erros, vícios e defeitos.

Quem tem memória regular há de lembrar as críticas monumentais feitas aos administradores públicos, teriam eles culpa formada ou não. Já hoje, os Waldomiros da vida são defendidos como pessoas da mais alta seriedade e somente deixou o alto cargo que exercia na Casa Civil da Presidência da República (mais importante órgão do governo Lula) por livre e espontânea vontade, conforme reza no Diário Oficial da União.

Agora, vêm aí as denúncias das transferências de recursos do Banco do Brasil para o Partido dos Trabalhadores, via ingressos para shows. E a tropa de choque do governo Lula volta a dizer: “Nossos corruptos são melhores do que os corruptos dos outros”, o que convenhamos, não é coisa de gente séria. O Banco do Brasil, uma das poucas instituições que sobrevivem desde os anos 1800, volta a ser enxovalhada pela prática do sangramento dos seus recursos para atividades partidárias.

Antes disso, o Banco do Brasil já tinha sofrido um golpe deste estilo, justamente durante o governo Collor, quando o presidente da época usou e abusou dos recursos da instituição para defender o presidente collorido no poder. Enquanto os cargos do governo forem usados como cabides de emprego para os partidos com assento no governo a probabilidade é que novos achaques ao dinheiro público sejam feitos.

Até mesmo os dirigentes do Banco Central, antes ocupado por pessoas de reputação ilibada e sem ligações estreitas com doleiros, hoje frequentam as páginas policiais com muita habitualidade e sem cerimônias. O que mais causa espécie à nação é que, ao invés de se defenderem, refutar as denúncias, “choramingam” junto ao presidente da República, para que impeça o Congresso Nacional de convocá-los.

No Governo Federal, como em Itabuna, as práticas são as mesmas, rezadas pelas mesmas cartilhas. Ainda puxando pela memória, a primeira administração do prefeito Geraldo Simões foi marcada por artimanhas idênticas ao defender as denúncias de desmandos e desvios do dinheiro público. Tudo como dantes no quartel de Abrantes…

*Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 07-08-2004

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Walmir Rosario

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