HIERARQUIA ARRANHADA

Walmir Rosário*

O episódio que causou a exoneração do ministro da Defesa, José Viegas, foi apenas a gota d’água que transbordou do cálice da insubordinação dos militares ao seu chefe. Não é de hoje ou de ontem, que os ministros militares não atendiam, sequer, uma sugestão do ministro Viegas, quanto mais a uma determinação, o que é muito grave, principalmente partindo-se do princípio de que a hierarquia é um verdadeiro dogma no militarismo.

De há muito a alta tropa estava sem comando e o que se via era um jogo de cena feito para tentar encobrir as insubordinações. Lula não admitia exonerar o seu ministro da Defesa (cargo por demais estratégico), para não demonstrar fraqueza e atender às pressões vindas do Forte Apache. Nessa queda de braço, perdeu Viegas, ganharam os militares e o governo Lula faz de conta que também é o vencedor.

O ponto nevrálgico da questão foi uma nota assinada pelo Ministério do Exército, sem a devida autorização do comandante da força (?), sobre as polêmicas fotos do padre canadense, publicadas na imprensa como se fossem do jornalista Vladimir Herzog. Preso pelo DOI-Codi de São Paulo, interrogado, torturado e morto (“suicidado”) dentro das dependências do II Exército, Herzog foi transformado num dos mártires da luta contra a ditadura militar, que culminou na exoneração do seu comandante.

Esses “esqueletos” ainda hoje estão guardados nos armários e porões da ditadura, e por certo será alvo de muita discussão, para não dizer cisões, entre as partes envolvidas. De um lado, os integrantes do governo Lula, políticos que lutaram contra a ditadura, em milícias urbanas e rurais, que sofreram perseguições, torturas e humilhações. Do outro, os militares, promotores da ditadura e que cometeram atrocidades sem limites em nome da permanência do regime.

Até hoje grupos de militares (pequenos, é verdade) não admitem o retorno aos quartéis e ainda sonham com a volta da ditadura sob o argumento de expulsar os comunistas do poder. Logo agora que vivemos um período democrático por excelência e que ficou provado que os comunistas não comem criancinhas. Portanto, é infundado o temor dos nossos militares, que poderão continuar na caserna se profissionalizando, como requer as forças armadas da modernidade.

Mas, voltando ao ministro José Viegas, todo o País sabe que ele não deixou o cargo pelos dissabores causados pela nota oficial do Exército, e sim pelas rusgas que vinha tendo com a caserna, notadamente pelas licitações para a aquisição de aviões caças para a Força Aérea Brasileira e outros equipamentos militares. As velhas rusgas em época de compras voltaram a extrapolar o Forte Apache e caiu de paraquedas no meio da Nação.

O que mais assusta a população brasileira é que a quebra da hierarquia tenha passado em brancas nuvens pelo Palácio do Planalto, que julgou o caso como se fosse uma simples troca de guarda: sai Viegas, entra o vice-presidente José Alencar, que, além do cargo de comando, terá a função de bombeiro, apaziguando os ânimos entre as três forças e os civis. Uma pergunta, entretanto, fica no ar: qual o preço que o País terá de pagar?

As qualidades para comandar as forças armadas não devem se restringir a apenas ser vice-presidente eleito e ser nacionalista, como se esta fosse uma qualidade apenas dos militares. É preciso restabelecer a ordem, e a hierarquia quebrada pelo ato de rebeldia deve ser reparada conforme preceituado no Almanaque do Exército. A troca de ministros apenas recompõe uma situação fática, mas não tem o condão de corrigir o erro cometido.

A Nação foi ultrajada com um comentário premeditado, na vã tentativa de reparar erros passados com justificativas nefastas, como se a tortura e a morte fosse penas a serem aplicadas contra atos de pensamentos, de ideais. Com o precedente aberto, fica mais fácil para os inimigos do Estado Democrático de Direito atingir, não mais o ministro, mas a democracia, tentando derrubar governos, como se vivêssemos numa republiqueta de bananas.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 06-11-2004

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