FUTEBOL DE ILHÉUS TEM SAUDADE DOS BONS TEMPOS

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Por Walmir Rosário

Um passado brilhante, um presente obscuro e um futuro de esperança. Assim veem os desportistas da cidade a trajetória do futebol de Ilhéus, cujas glórias e craques ainda estão na ponta da língua dos torcedores mais apaixonados. Não é pra menos. Afinal de contas, em 1941, o prefeito Mário Pessoa investiu 1 mil e 200 contos de réis na construção de um estádio à altura de suas tradições – o Mário Pessoa –, imponente e o maior de todo o interior da Bahia, que se orgulhava, dentre outros feitos, de ter mandado vir de Salvador um navio carregado de Salitre do Chile somente para fazer a drenagem “toda em espinha de peixe”, como relembra o cartola Airton Adami.

Grande futebol, grandes estádio. Isso foi reconhecido pelas equipes do Bahia e do Ipiranga, que vieram de Salvador para inaugurá-lo, num torneio em que participaram a Seleção de Ilhéus e o Fluminense do bairro do Pontal. Findo o torneio de inauguração, maus um título para a coleção do Bahia, que venceu a Seleção de Ilhéus por 1 X 0; o Fluminense por 9 X 0 e o Ipiranga por 4 X 2. Apesar de não ter ganho o torneio de inauguração do estádio Mário Pessoa, raramente uma equipe da Bahia – como geralmente era chamada Salvador – ou do Rio de Janeiro conseguia sair de Ilhéus com um triunfo frente à sua seleção “ou qualquer dos seus melhores amadores – Flamengo, Vitória e Colo Colo”.

Flamengo nasceu primeiro

O primeiro dos grandes clubes de Ilhéus foi fundado em 2 de abril de 1912, com o nome de Flamengo. No entanto, sete anos mais tarde, devido a um desentendimento entre os diretores, deu origem ao Vitória Esporte Clube, em 2 de abril de 1919. Esses dois clubes, por muito tempo, dividiram a preferência das elites do cacau, até surgir o Colo Colo, a 2 de abril de 1948, que logo ganhou adeptos entre os jovens e estudantes. Conta um dos fundadores e primeiro presidente do Colo Colo, Airton Adami, que o nome foi uma homenagem ao clube chileno. “Como não tínhamos um nome escolhido e o Madureira do Rio de Janeiro, que perdeu para a Seleção de Ilhéus por 4 X 1 foi jogar com o Colo Colo do Chile, escolhemos esse nome”, revelou.

Mantidos pelos “coronéis do cacau”, o Flamengo, Vitória e Colo Colo revezavam-se na liderança do Campeonato Amador da cidade, acirrando as brigas entre os torcedores, mas sem nenhuma estrutura que lhes permitissem sair da dependência dos cartolas, que pagavam desde a lavagem dos uniformes até “luvas” e prêmios pelas vitórias dos times. A única expressão doi o Colo Colo, que apesar da origem menos abastarda, conseguiu formar um patrimônio, construindo uma bonita sede no bairro do Pontal, perdida recentemente na Justiça em virtude de dívidas.

Celeiro

Quem até hoje não se recorda de Rui da Gata, que estreou no Vitória de Salvador marcando quatro gols, ou “Seu Mila”, que na primeira partida jogando no Ipiranga tirou a chuteira para marcar um gol de pênalti? “Como o juiz não permitiu que ele jogasse descalço, Seu Mila armou a maior confusão. Então o árbitro deixou que ele poderia bater o pênalti com um pé descalço. Seu Mila bateu e fez o gol para o delírio da torcida ipiranguense”, ironiza Aírton Adami. Outros dois jogadores do passado fizeram grandes carreiras no futebol de outros estados, como Palmier, que jogou no Corinthians e Seleção Paulista, e, ainda, Elias, um ex-jogador do Flamengo de Ilhéus que atuou no futebol pernambucana e na Seleção Brasileira.

Há não muito tempo, novos craques formados nos “babas” das praias ficaram conhecidos do público esportivo, como Americano, Wilson Longo, Manequinha, Esquerdinha, dentre tantos outros. Em que pese a decadência provocada pela crise do cacau, que fez desaparecer os benfeitores de clubes, surgiram valores como Cenildo, Nazaré, Solteiro, Dico Maradona e Albino, este último campeão pelo juniores em 90, e que joga atualmente na Itália. Também não se pode esquecer de outro craque “estrangeiro” e da Seleção Brasileira – Aldair – saído do distrito do Banco da Vitória.

Três Times foram o grande erro

O erro foi Ilhéus, uma cidade pequena, colocar de uma só vez, em 1967, três times de futebol no Campeonato Baiano de profissionais. Isto causou muitas brigas internas. Como o Flamengo entrou junto com o Colo Colo, o Vitória não quis ficar de fora. Esse foi um ano fatídico para o futebol ilheense”, comenta com tristeza o ex-presidente do Colo Colo, Aírton Adami. Quem também concorda com Adami é o ex-presidente do Vitória, Osvaldo Bispo da Silva, o Maninho, hoje presidente da Liga Ilheense de Futebol (LIF). Para ele, outro grande erro foi importar jogadores do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, em detrimento dos valores da terra.

Relembram Aírton Adami e Maninho, que à época (1967) a Seleção de Ilhéus vinha de uma grande campanha, tendo se consagrada como campeã do Campeonato Intermunicipal de 66, ao vencer a sua maior rival: a Seleção de Itabuna (hexacampeã). “Tínhamos o que poderia ser considerado de melhor, pois a seleção era formada por Biquinha; Malagute, Manequinha, Tinho e Valdo; Americano e Deco; Ivo, Miltinho, Catroca e Wilson Longo. Era um dos melhores times da Bahia”, afirmam.

Engodo

Devido aos altos preços do cacau no mercado internacional, acrescido pelo incremento da produção, as cidades de Itabuna e Ilhéus eram vistas como o novo “eldorado”, onde os cartolas não regateavam contribuições para os clubes comprarem os melhores jogadores. Os cartolas ilheenses foram induzidos pelo Presidente da Federação Bahiana de Futebol, Carlos Alberto Andrade, a colocar de uma só vez os seus três melhores clubes no profissionalismo. “No Vitória, todos os 280 sócios pagavam suas mensalidades em dia, e os mais ricos como Joeli Macedo, Valdemir Ramos, Ariston Cardoso, Wilson Rosa Barros, dentre outros, contribuíam com uma cota especial para manter o time”, afirma Maninho.

Devido à rivalidade entre Flamengo, Vitória e Colo Colo, os torcedores não prestigiavam os jogos dos adversários, provocando um verdadeiro caos em virtude das pequenas rendas e altos custos com a importação e salários dos atletas. Não havia como resistir e a solução encontrada foi fundir os três clubes em um, e aí surgiu o Ilhéus de Futebol e Regatas que, a exemplo dos antecessores, conseguiu sobreviver apenas três anos, sendo extinto em 1972”, relembra tristemente Maninho.

Esperança

Como em Ilhéus o futebol não vive através de ajuda do poder público municipal, os cartolas não acreditam que ele possa voltar ao profissionalismo. O mesmo período de dificuldades enfrentadas pelo Flamengo, Vitória e Colo Colo nos anos de 1967, 68 e 69, foram experimentados pelo Ilhéus de Futebol e Regatas em 1970, 71 e 72, quando a diretoria decidiu retirar o time do campeonato, por absoluta falta de condições técnicas e financeiras. Até hoje existem dívidas a serem honradas pelo clube, às vezes confundido como o Ilhéus Atlético Clube, que participou do Campeonato de Acesso nos anos de 1990 e 91.

Mas a esperança que falta nos cartolas ainda existe nos torcedores que sonham em reviver o futebol jogado pelos craques do passado. Esse é o sonho acalentado por alguns ex-jogadores como Sérgio Vieira (hoje técnico da seleção); pelo diretor de Educação Física, Recreação e Desportos da Prefeitura de Ilhéus, Ivo Badaró; pelo professor Manoel Renato, que mantém uma escolinha onde foram revelados os últimos craques de Ilhéus; e pelo ex-jogador e ex-treinador do Ilhéus Atlético Clube, Americano.

Americano condena a chacina

Americano

Apesar de detestar o futebol, Arnaldo Santos de Carvalho conviveu ativamente durante 30 anos com essa modalidade esportiva, como jogador e treinador. Conta Arnaldo, ou Americano, como ficou conhecido dos torcedores, que somente começou a jogar futebol para não ficar de fora do grupo de amigos. “Eu não suportava futebol, e somente treinava na semana do jogo. Aí eu fazia o trabalho com seriedade”, revela.

Para Americano, que começou a jogar pelo Flamengo de Ilhéus em 1961, este foi o período mais florescente do futebol, pois o Brasil era bicampeão mundial, o que não era diferente na região, principalmente em Itabuna e Ilhéus. Com passagem pelo Vitória de Salvador, Flamengo de Ilhéus e Itabuna Esporte Clube, como jogador profissional, Americano foi pretendido por vários clubes do Rio de Janeiro e São Paulo, porém nunca se interessou em ter o futebol profissional como primeira atividade.

Vitrine

Americano recorda que com a recessão no futebol ilheense e nacional, houve um desgaste muito grande dos cartolas, agravado, ainda mais, com a crise financeira, impedindo a descoberta de novos valores. Ele cita como exemplo o futebol de Ilhéus, que apesar de possuir times era um mercado pequeno para a garantir a sobrevivência de três equipes profissionais, mas que, devido à insistência do presidente da Federação Bahiana de Futebol, Carlos Alberto Andrade, os cartolas resolveram remar contra a maré. “Eu mesmo era contra, porém fui voto vencido”, admite.

O ex-jogador Americano acredita que a profissionalização do futebol do interior, realizada sem critérios ou infraestrutura, provocou uma verdadeira “chacina de valores”, impedindo o aparecimento de novos craques, já que ninguém mais se interessava pelo futebol amador. “Antigamente, qualquer garoto se espelhava num craque como Pelé, Garrincha ou Didi, isto em nível nacional, ou então com os jogadores de sua cidade. Eu mesmo tive ídolos como ‘Pelé Cotó’, Esquerdinha (Eduardo) ou Bebeto, que foi meu grande professor, pois ainda tive o privilégio de jogar junto com ele. E hoje os garotos vão se espelhar em quem?”, pergunta.

Treinador

Como treinador, Americano defendeu o Ilhéus Atlético Clube, nos anos de 1990 e 91, época em que revelou uma série de craques que ele considera uma nova geração de valores, a exemplo de Cenildo, Nazaré, Cocada, Bico de Pato, Solteiro, José Alberto, dentre outros. Americano afirma que todos esses jogadores vieram da escolinha do professor Manoel Renato, um obstinado profissional que tem retirado algumas crianças até mesmo do convívio das drogas e transformando-os em atletas. “Se mantivermos essa célula viva, nunca deixaremos de produzir bons jogadores”, observa.

Sua passagem como treinador do Ilhéus Atlético Clube traz recordações boas e amargas. Como as boas, Americano destaca a geração de novos valores e, como as amargas a atitude dos dirigentes da Federação Bahiana de Futebol, principalmente do presidente Marcos Andrade, que na sua opinião, ludibriou o pessoal de Ilhéus, acabando com todos os estímulos. “Se tivermos dirigentes como Francisco Rebouças, do Itabuna; Gutemberg Cruz, de Ilhéus; ainda poderemos revelar craques como Ivo (Babá), Vilson Longo, Manequinha, Deco ou Bebeto”, sentencia Americano.

Presidente quer entregar o clube

Fundado há mais de 30 anos, o Ilhéus Atlético Clube foi reativado em 1990 para disputar o Campeonato de Acesso ao Profissionalismo. Totalmente formado por atletas amadores, o Ilhéus foi classificado em segundo lugar, perdendo apenas a partida final. Neste mesmo ano, a equipe de juniores se sagrou campeã, quase repetindo o feito em 91, quando ficou em terceiro lugar, a despeito de o time principal não ter feito uma boa campanha.

Apesar de ter conseguido bons resultados, o Ilhéus Atlético Clube está acabando. Os últimos jogadores com passes presos ao clube foram liberados, como o goleiro Paulo Roberto, atualmente na Seleção de Uruçuca, ou albino, que joga atualmente na Itália. Também o presidente do Ilhéus, Gutemberg Cruz, aguarda ansiosamente a realização de uma assembleia geral para entregar a direção do clube. “Como uma andorinha só não faz verão, não tem sentido eu permanecer na presidência. Já gastei muito dinheiro sozinho e não posso comprometer meu patrimônio”, reclama Gutemberg das promessas não cumpridas por outros dirigentes.

Em dia

Gutemberg Cruz tem muitas queixas das falsas promessas de pessoas que somente participaram da diretoria do Ilhéus Atlético Clube visando as campanhas políticas para se manter na mídia, sem cumprir qualquer dos compromissos assumidos. Também a falta de ajudar por parte do poder público, como o veto do prefeito João Lyrio no Orçamento aprovado pela Câmara Municipal, destinando recursos ao time para o ano de 1993. “Já que falta unidade nas pessoas que assumiram um compromisso, é melhor acabar de uma vez com o clube”, afirma.

Relembra, com amargura, Gutemberg Cruz, que, para saldar todos os compromissos do clube, ele teve que se desfazer de alguns bens, inclusive uma camionete D20. Porém todas as dívidas foram pagas, à exceção de três ou quatro indenizações trabalhistas, mas que ainda serão liquidadas. Mas a volta do Ilhéus ao profissionalismo ainda não está descartada totalmente por Gutemberg, que apresenta algumas modificações de base para não incorrer em novos erros.

Infraestrutura

Para resgatar o futebol de Ilhéus, Gutemberg acredita que devam ser trabalhadas as divisões inferiores, com um acompanhamento sério no tocante à ajuda de custo para transporte e complementação alimentar dos atletas. Também é preciso realizar um acompanhamento educativo e de formação do caráter dos futuros jogadores, acrescenta o dirigente. “Esta estrutura é necessária para criar condições de o atleta ficar aqui em Ilhéus. A mesma coisa tem que ser feita em relação ao estádio Mário Pessoa, criando acomodações e locais para a realização de atividades preparatórias, como uma sala de musculação”, vaticina.

Outra consideração feita pelo presidente Gutemberg Cruz é a falta de uma política séria para os clubes do interior, manipulados constantemente por interesses dos dirigentes. Para ele, é preciso urgentemente desvincular o interior do atual campeonato estadual, realizando certames regionais, uma ideia concebida por João Xavier, ex-presidente do Itabuna e que está sendo amadurecida.

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