FERRADAS, O NOVO PORTO DE ILHÉUS

Walmir Rosário*

A mudança ocorria no meio ambiente nos dá conta de que está havendo um esquentamento da terra. Segundo os cientistas, as geleiras estão derretendo, provocando enchentes; o aumento do buraco da camada de ozônio provocando doenças, como o câncer de pele; as secas do Nordeste; enfim, estamos assistindo, presenciando ao vivo e em cores, nem sempre tão coloridas, o cumprimento da profecia: o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão.

Qualquer aluno bem aplicado lembras das pesquisas feitas no livro de Dantinhas (José Dantas de Andrade) para os trabalhos escolares de 28 de julho – dia da cidade de Itabuna –, da figura de Frei Ludovico de Livorno, o bravo Capelão do glorioso Exército Francês de Napoleão Bonaparte. O religioso franciscano capuchinho que, após cruzar o Atlântico em situações nunca bem esclarecidas, veio bater os costados na inóspita região Sul da Bahia, com o objetivo de catequizar almas para o catolicismo.

Aqui chegando, Frei Ludovico estabeleceu-se em Ferradas, onde se devotou a Nossa Senhora e tratou de conseguir fiéis para a sua religião, seja com orações poderosíssimas, ou através de parábolas que prometiam fazer arder no fogo do inferno quem ousasse desobedecer aos preceitos divinos. E não eram raras as promessas de fim de mundo e, de acordo com o pecado, o frade não esperava sequer o ano 2000, antecipando o castigo.

Desses castigos prometidos a índios, sergipanos, árabes, turcos e libaneses recém-convertidos, um era predileto de Frei Ludovico: o de que Ferradas seria transformada no porto de Ilhéus, dada a qualidade e quantidade de crimes e heresias praticadas nas roças de cacau, abertas às custas da ambição dos mais poderosos e do suor e sangue dos mais fracos e desprotegidos.

Já mudamos de século, de milênio, e nada da profecia creditada a Frei Ludovico e disseminada pelos seus seguidores se cumprida, embora tenha a mais absoluta convicção de que a população do Sul da Bahia e, especialmente a de Itabuna – Ferradas e redondezas – tenha lá deixado de cometer seus pecados. Mais eis que, há pouco tempo, tivemos notícia de que a profecia do santo frade italiano estava prestes a acontecer.

E essa notícia tem cunho científico – se é que podemos acreditar em todos eles – e nos foi dada por uma competente caranguejóloga, durante conferência proferida em Canavieiras, e ainda por cima com o aval do ambientalista Sérgio Ramos, pesquisador abnegado desses crustáceos decápodes, braquiúros, deliciosos, especialmente se acompanhados de cerveja bem gelada. Ante a catástrofe anunciada pela eminente caranguejóloga, de que a destruição dos manguezais provocaria a elevação do nível da água do mar, lembrei-me imediatamente do fim do mundo e do extermínio da humanidade.

Se bem que pela pesquisa dessa especialista, a fúria do mar não seria tão drástica como a que nos noticia a Bíblia, embora ela – a caranguejóloga – tenha sido categórica em dar como favas contadas a submersão da Ilha de Atalaia, em Canavieiras, bem como as terras a 20 léguas de distância, o que, pelos meus cálculos, vem dar em Itabuna. Mas aqui, pela profecia do nosso capuchinho, até que dá para escapar desse dilúvio se alojando nos morros da cidade. O morro do Pau do Urubu, então, de simples e depreciada favela passaria à condição de morada de gente chic, desbancando o Góes Calmon e outros locais menos favorecidos topograficamente.

Como sou pessoa extremamente preocupada com o bem-estar dos amigos, passei um e-mail para o correligionário Tyrone Perrucho, que hoje desfruta da aposentadoria em Canavieiras – mais exatamente na Ilha de Atalaia – apesar dos protestos de FHC pela inatividade precoce. Diante de tão iminente perigo, bem que poderia, junto com os amigos, mudar-se de volta para Itabuna.

Aqui chegando, instalaríamos a “republica canavieirense” num dos privilegiados morros da cidade, ou melhor, numa das melhores praias de Ferradas, com o de que melhor existe na boemia grapiúna. Quem sabe até não seria viável localizar o ABC da Noite, do folclórico Cabloco Alencar, em frente ao Berimbau de Ouro, de seu Neném, outrora músico famoso, e promover aqui um clone ampliado do “Troféu Galeota de Ouro”.

Garanto que, adotadas essas providências, atenderemos a profecia do Frei Ludovico de Livorno, salvamos os caranguejos e outras espécies marinhas, e ainda por cima reuniremos os melhores biriteiros de Itabuna fora do “Beco do Fuxico”.

* Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora em 28-07-2001

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