FERNANDO E JOHNNY – UMA SILENCIOSA AMIZADE

José Nazal*

Entre o final dos anos 60 e a primeira metade dos anos 70, o Bar Santa Clara, no térreo do primeiro “arranha-céu” de Ilhéus, vivia dias de apogeu, principalmente nos finais de semana, aliado ao cinema, que também era a coqueluche do povo de Ilhéus.

Naquela época, o arrendatário do bar era ‘seo’ Olegário, empresário que cativava os clientes fazendo seus gostos. Lembro-me especialmente de ‘seo’ Pompílio Barreto, que morava na casa de número 1086, a exatos cem metros do bar. Na prateleira do estabelecimento tinha sempre uma garrafa de ‘Leite de Onça’, um coquetel de frutas com cachaça, de cor rosa. Nenhum outro cliente provava um gole do elixir, por mais caro que pudesse pagar. Depois de algumas doses, ‘seo’ Olegário acompanhava o cliente e amigo até a porta de sua casa. Ritual diário, muitas vezes por mim testemunhado.

Do garçom mais procurado do bar, que já não me lembro o nome, guardo dele apenas a fisionomia e a lembrança do inesquecível apelido, “Lady Laura”, forma como carinhosamente era tratado pelos clientes fiéis.

Havia uma dupla de clientes assíduos, de todo final de semana, daqueles que sentavam na mesma mesa da hora que o bar abria e só se levantavam quando a conta chegava, mesmo sem ter sido solicitada. Eram os amigos Fernando e Johnny.

Fernando, filho de tradicional família de cacauicultores, descendente de italiano, apreciador de uma cerveja estupidamente gelada (mas se preciso bebia como viesse), e Johnny, cidadão inglês, súdito de Sua Majestade, que veio parar aqui como funcionário da _“The State of Bahia South-Western Railway Company”_, a nossa Estrada de Ferro de Ilhéus. Depois que foi extinta, o inglês ainda morejou aqui por um tempo, apaixonado por uma bela morena, quase uma Gabriela.

Os dois amigos tinham em comum um hábito que os unia cada vez mais: gostavam de beber calados. Conversar era perder tempo. Sentavam-se na mesa do Bar Santa Clara às 10 da manhã e só saiam depois da última sessão do cinema. A amizade deu certo e a fidelidade ao bar também, devido ao fato de que “Lady Laura” entendia perfeitamente a língua de sinais inventada pelos amigos. Falavam pouco, cumprimentando o garçom com um bom dia ao chegar e um até logo ao sair. Mais nada!

Depois de acomodados, o prestativo garçom se aproximava e um dos dois levantava um dedo indicador. O outro, levantava dois dedos, o indicador e o maior de todos. Perfeitamente entendida a fala com os gestos, prontamente vinham na bandeja uma cerveja e dois copos. Fazendo um círculo com as mãos, era servido um pratinho de azeitonas; o círculo e os três dedos apontados para baixo, chegava em seguida o pratinho com farofa de carne do sol e o garfo. Conversa que é boa, numa mesa de bar, nenhuma.

Quando se aproximava uma moça, aquele que visse primeiro arregalava os olhos de admiração; quando ela passava e o outro também via, confirmava balançando a cabeça afirmativamente. Se não achava bonita, contrariava a opinião do amigo, negando com o movimento da cabeça. No final da farra, após o sinal da mão imitando uma escrita, a conta chegava.

Certo domingo foi diferente. Os amigos chegaram como sempre às 10 horas, sentando na mesa cativa para iniciar a silenciosa farra. Quase meio-dia, o céu repentinamente nublou, indicando a chegada da chuva, tão esperada no escaldante verão. Vendo a mudança brusca, Fernando olhou vagarosamente o Norte, o Leste e o Sul, afirmando com convicção de um experiente meteorologista: “Vai chover”. Johnny, que calado estava, calado ficou. Não se deu ao trabalho sequer de conferir.

Quando começou a matinê das 15 horas, diminuindo o número de jovens e adolescentes na calçada do cinema e do bar, Johnny olhou para o horizonte e percebeu que o astro rei tinha voltado a brilhar. Olhou demoradamente para o Norte, o Leste e o Sul, por fim resmungou: “Não choveu!”. De imediato, Fernando, visivelmente aborrecido, respondeu: “Se for para discutir, melhor pagar a conta e ir embora”. E decidiram por não discutir, terminando a silenciosa farra depois que acabou a sessão das 20 horas.

*Vice-prefeito de Ilhéus

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Walmir Rosário

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