FABRICANTES DE MONÓXILAS OU INVASORES DE TERRA?

Quando ainda não existiam cientistas da Ceplac ou historiadores e antropólogos da Uesc nestas bandas, nós pobres autóctones ignorantes, para descobrir coisas tínhamos de “cavar com as próprias mãos”… Pequeno exemplo é o gentílico GRAPIÚNA cujo significado este octogenário escrevente “antropagógico incurável”, orientado pelo saudoso Professor Plínio de Almeida gastou muitos meses entrevistando remanescentes dos índios que habitaram nossas matas. Naquele tempo encontrei em Coroa Vermelha a índia pataxó chamada Itambé, matrona de enorme família, a quem fiquei para sempre devendo os favores de indicação das muitas fontes autênticas.

Parei de escrever sobre História Grapiúna, deixando para os mais jovens a responsabilidade de continuidade –ou quem sabe até- correções que entenderem por verdadeiras, porém permaneço atento aos fatos regionais. Preocupam-me os tristes episódios de recentes invasões de fazendas por pessoas que, dizendo-se Pataxós, alegam como suas terras. Instado por queridos quasenheum leitores, permitir-me-ei pequena incursão nesta seara, pois se a História é feita e escrita por pessoas, nada custará atender. Muitos brasileiros imaginam que nossos índios só apareceram a partir do 22 de abril de 1500, data inventada para o descobrimento (“…pardos, nus, sem cousa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas, como relatou Pero Vaz), entretanto já existiam nestas bandas há milhares de anos. O aparecimento da Nação Tupi, é prenhe de histórias e lendas, que se entrelaçam. Extasiou-me uma, sobre filha de antigo rei da Samoa que embora prometida em casamento ao mais forte guerreiro da tribo, era apaixonada desde criança por humilde pescador, razão porque na véspera das núpcias fugiu com ele embarcados em frágil canoa, rumando pelo oceano em direção à “yvy nara ey” ou seja, “terra sem mal onde não há morte nem sofrimento e a vida eterna terá apenas, como ocupação, cânticos e danças”, que poderia ser onde hoje está a América do Sul. Engana-se quem imaginar os tupis com regiões demarcadas, onde teriam nascido e morrido durante séculos.. Quem estudar o povoamento desta região, haverá de encontrar relatos sobre permanentes caminhadas de pataxós, como por exemplo encontramos no livro “Bahia Indígena” escrito por Célia B. Gimenez e Raimundo S. Santos: “…na penumbra úmida da floresta, os pataxó cobriam com suas rotas, uma extensa região de mata entre o caminho real das minas, nas redondezas de Juiz de Fora, proximidades de Jequié Bahia e lugares conhecidos pelos mineiros como área proibida dos sertões do leste”. O que não falta é literatura sobre etnia dos silvícolas aqui encontrados (pataxós, aimorés, machacalys, macaxns, monochós, mongaiós (dos quais se originaram os camacans), etc., mas. não é este o prumo destas maltraçadas. Pretendo apenas contribuir para uma análise sem paixões daquilo que aprendi serem os pataxós. Embora registros históricos indiquem também na região do Rio Tietê, presume-se que foi no sul da Bahia onde existiram as maiores canoas construídas por índios comumente chamadas de manóxilas, com doze metros de comprimento e 60 centímetros de largura. Quem examinar gravuras dos primórdios de nossa mata atlântica constatará a existência de milhares de árvores gigantescas, sobretudo pau-brasil, que nossos pataxós já utilizavam para fazerem enormes canoas principal meio de transporte nas regiões ribeirinhas, inclusive após o século XVIII do próprio cacau que demandava ao porto de Ilhéus. Sequenciando aquela fase de construção das monóxilas, alguns ramos afastaram-se mais para o extremo sul (região de Porto Seguro), dedicando-se a fabricação de objetos em madeira para venda aos turistas; outros espalharam por estas bandas, empregando-se em fazendas de cacau e pecuária, constituindo ramos familiares mesclados através casamento com pessoas de várias raças. Também é de notar-se que atualmente existem originários dos pataxós como advogados, professores, médicos, empresários etc. (…e qual de nós, genuinamente nascidos nestas bandas, não “contemos” algumas gotinhas de sangue pataxó?). Pelo que assisti na TV, muitas pessoas dizendo-se pataxós “pintadas para a guerra, empunhando arcos e flechas, facões, até grossos porretes” escorraçavam moradores das fazendas formadas há dezenas de anos, desde que o próprio Governo da Bahia lhes garantiu posse. Falece a este pobre ex-Juiz de Paz competência para ajuizar valor sobre a papelada. Quanto ao aspecto físico dos auto denominados Pataxós, busquei socorro no meu livro de cabeceira sobre “índios grapiúnas” intitulado Bahia Indígena escrito pelos excelentes “pataxólogos” Célia Gimenez e Raimundo Coelho:…“os pataxós das aldeias do sul da Bahia, medem aproximadamente 1,65m.São considerados altos os que medem 1,75m e não são encontrados nestas aldeias indivíduos com estatura maior que esta. O rosto é largo, o crânio predominantemente braquicéfalo, cabelo liso marron escuro predominantemente o preto, freqüentemente avermelhado ou amarelado, o que os tupi históricos descreviam com o nome de “sarará” ou “saruaba” termo tupiniqukin (sic) até hoje usado pelos pataxó para designar pessoas de cabelo claro, avermelhado ou pessoas sardentas. O rosto é sulcado, de rugas profundas ainda na mocidade, olhos ligeramente (sic) puxados, nariz largo e prognatismo pouco pronunciado, lábios finos, a forma geral do rosto tende mais para quadrado que para oval e esse traço o diferencia do grupo tupi, cujo rosto é oval…”.

Desde criança travei amizade com um pataxó verdadeiro, criado na casa de meu tio Miguel Moreira (ex-prefeito municipal) achado recém nascido nas matas do Escondido, na sua fazenda de Mutuns onde passávamos férias escolares. Batizado como João, viveu até a década de 70. Calado, introspectivo, era agradável e servidor. “Outra experiência “pataxótica” que vivenciei: em sua edição dia 14 de novembro de 1984, o jornal Tribuna do Cacau mancheteava: Pataxós roubam mais oito cabeças de gado” e no corpo da notícia denunciava ações criminosas atribuídas a índios pataxós na região de Pau Brasil (coisa que não ficou claramente comprovada). Após tensa reunião na Associação Comercial de Itabuna com lideranças dos pecuaristas, foi decidida visita de uma Comissão àquele município para dialogar com os índios. Fomos recebidos cordialmente por vários “pataxós”, embora “pintados e vestidos para guerra”… Despertou-me atenção bem apetrechado “índio” esgueirando-se por trás do seu grupo e logo reconheci como um ajudante de pedreiro, morador em minha rua, que meio sem graça cochichou-me: “doutô, não mele não, por caridade. De vez em quando também venho aqui pra descolar uns trocados”…

Adelindo Kfoury Silveira, é Jornalista, Historiador, Conferencista e Escritor grapiúna, membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador da Fundação Jupará-Itabuna

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Walmir Rosario

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