EU E OS BARULHOS DO SILÊNCIO MUSICAL

EU E OS  BARULHOS DO SILÊNCIO MUSICAL

Janine Soub*

Vivem me pedindo para eu atualizar isto aqui com mais frequência, só que minhas inspirações me dominam. Quem não queria que fosse o contrário? Se alguém consegue, por favor, me ensina, tá? Mas vamos ao que interessa:

Eu estou de (merecidas) férias, escutando amiúde no fone de ouvido um CD novo que comprei. É que assim percebo melhor cada arranjo, é quando as melodias me balançam melhor e o ritmo se aproxima de meu comboio de cordas. E é assim que as letras começam a fazer mais sentido para mim. Quando desperto, ali estou eu, seja no ônibus ou no meio da sala, dançando e sorrindo para o nada!

Pois bem. Você já reparou como o silêncio e o barulho entre um acorde e outro, cada pausa e a interpretação têm de estar bem sincopadas? Eu sempre viajo nisso… Quando eu era estudante e morava numa República, tinha uma amiga que, como eu, assobiava todos os arranjos. A gente sabia de cor os tchans, prins, pruns e demais barulhinhos que quase passam despercebidos a ouvidos nus. Nós sempre ríamos muito de nossas coincidências rítmicas!

Como sempre, fico cá a pensar sobre o processo de criação dos arranjos musicais. Valorizo cada “lenço azul” que cai na música, seja suavizando ou pesando a arte musical como deve ser. Não sei se isso mexe com todas as pessoas, mas com certeza deve ter uma função especial! Por exemplo, eu me lembro de um dia, quando saí com um amigo para um show de jazz. Já estávamos, cada um a seu modo, unidos ao som que ecoava. Ali, em meio a todas as pessoas, veio a mim uma metáfora epifânica: será que neste corpo-banda o piano é que era os membros, o baixo era o coração, a bateria era o oxigênio que fazia pulsar as artérias e o sax entoava o que seria a nossa voz? Só sei que era meu momento de flutuar…

Nesse compasso, talvez por isso eu admire tudo quanto é tipo de música. Sem distinções. Porque no fundo o que eu quero mesmo é me sentir viva, sentir pulsando em mim cada barulhinho musical, venha de onde vier. Meu único critério é que deva alimentar sem azias ou regurgitações o meu silêncio contemplativo da arte e das letras.

*Janine Soub é psicóloga

 

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Walmir Rosario

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