ESTIMULAR O DEBATE

Walmir Rosário*

Curiosamente, a região cacaueira não é afeita ao debate, principalmente quando o tema nos interessa. Até agora, os principais segmentos da cadeia produtiva do cacau não se manifestaram quando ao documento elaborado pelo Grupo Temático Cacau, do Fórum Nacional da Agricultura, e entregue ao Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em 3 de setembro próximo passado.

Os mais acomodados podem indagar: o documento não foi exaustivamente debatido pelos diversos setores da sociedade organizada? Claro que os organizadores percorreram milhares de quilômetros pelas estradas das regiões cacaueiras da Bahia, Pará, Amazonas e Rondônia. E nós agricultores, participantes dessa sociedade, pessoas diretamente interessadas no nosso futuro? De nada sabemos, pois nada queremos.

Será que basta a nós discutirmos somente o ataque da vassoura-de-bruxa, reclamarmos da Ceplac por não ter distribuído mudas tolerantes à doença e de alta produtividade, como se da noite para o dia tudo fosse resolvido como num passe de mágica? Claro que não. É preciso nossa participação se quisermos fazer nosso próprio futuro.

Enquanto isso, outras regiões agrícolas do Brasil estão preocupadas em formular propostas, exigir compromissos que beneficiem suas corporações aos seus representantes. Salvo uma ou outra ação isolada, não se tem notícia de que nossos líderes tiveram essa preocupação. É preciso ter em mente que não se pode cobrar compromissos de quem não os tenham assumidos. Ainda mais quando eles são de difícil execução.

Enquanto nós assistimos passivamente “chorando o leite derramado”, outros setores da economia estão falando por nós, mesmo sem ter conhecimento de causa. Até agora, a única voz que se levantou para rebater os estudos equivocados realizados pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) foi a de José Haroldo Castro Vieira, o ex secretário-geral da Ceplac e profundo conhecedor da economia cacaueira.

Por incrível que pareça, não ouvimos outra voz, nem mesmo das pessoas que, por dever de ofício, deveriam ter se manifestado. Talvez estivessem absortos com outras ocupações mais importantes do que as do cacau, atividade cheia de problemas. Talvez estivessem acompanhando os passos dos recursos destinados ao Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira.

Após 200 anos de implantada a cacauicultura na Bahia ainda vivemos submetidos a um regime de “escravidão branca”, obedecendo cegamente aos compradores, assim como fazíamos no início deste século, obrigando-os a comprar no barracão da fazenda. Saldo, nem por sonho.

Antes, ainda tínhamos a opção de entregar nosso cacau para o exportador mais amigo, que pagava mais. Agora, nem esse direito nos dão, pois somente existem três ou quatro multinacionais operando nesse ramo.

A voz de José Haroldo também se levantou contra um documento, um bonito livro intitulado “Bahia ano 2000, editado em português e inglês, apresentando 183 excelentes fotos da paisagem baiana, seus casarios, igreja, suas praias e ladeiras, seus artesanatos, suas indústrias e seus produtos agrícolas. Entre melões e mangustões, uvas e tomates, mangas e cenouras, página dupla de pimenta-de-cheiro e dezenas de outras frutas e legumes, até de procedências asiáticas e europeias, nem uma foto do cacau, fruto que deveria ser o símbolo da Bahia, pois sustentou seu desenvolvimento praticamente sozinho…”, adiantou José Haroldo em artigo publicado nesta edição do Agora Rural.

Está na hora de corrigirmos nossas falhas.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Jornal Agora Rural em 27-09-1998

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