DEMOCRATIZAR A INFORMAÇÃO JÁ

Walmir Rosário*

As cobranças feitas pela sociedade ainda não foram devidamente assimiladas pela Ceplac, no sentido de que ela possa se tornar um órgão transparente, demonstrando aos seus clientes qual o verdadeiro estágio do programa de pesquisa da vassoura de bruxa. Até agora nenhum mortal comum conseguiu abrir a famosa “caixa preta” da Ceplac, em que pese os veementes apelos que vêm sendo feitos há muitos anos.

É inadmissível – nos dias de hoje – que certos setores da administração pública ainda adotem certo tipo de comportamento, no qual a comunicação é feita em apenas uma via, mesmo que o investimento utilizado pela instituição seja feito com o dinheiro do contribuinte. A cobrança que temos feito à Ceplac – de certa forma sistemática – não se trata de perseguição, como pensam alguns, e sim de estabelecer um diálogo com os produtores rurais.

Enquanto uma parte da sociedade ainda se comporta como há anos, conforme o estabelecido no regime ditatorial, outra parte, consciente e livre de amarras, deseja saber detalhes sobre a parte técnica do programa de combate à vassoura-de-bruxa. E para isso, costumeiramente, o fazem através do Agora Rural, veículo de comunicação que vem se firmando como um porta-voz da cadeia produtiva rural.

Não se trata de nenhum demérito para uma instituição ser inquirida por setores da sociedade, ao contrário, pode ser entendida até como uma demonstração de interesse pelo trabalho que realiza. É uma rotina nas universidades e demais órgãos de pesquisa – e todos do corpo técnico da Ceplac sabem –, a “cobrança” iniciar-se ainda âmbito interno, através da “prestação de contas” da produção do pesquisador, solicitada pelos dirigentes.

Essa produção não se resume apenas à pesquisa em si, mas compreende todas as fases do conhecimento, como a publicação de artigos científicos em jornais e revistas especializadas, boletins técnicos, livros editados, entre outros. Em que pese a edição de publicações técnicas na Ceplac, a produção chega a ser incipiente, sobretudo se levarmos em conta a quantidade de pesquisadores que fazem parte do quadro do órgão, grande parte deles com pós-graduação em nível de especialização, mestrado, doutorado e PhD.

Outra deficiência da pesquisa da Ceplac é a falta de entrosamento entre pesquisadores e extensionistas, reduzindo, portanto, o número de informações sobre o andamento do programa de substituição dos cacaueiros decadentes por plantas tolerantes à vassoura-de-bruxa e de alta produtividade. Grande parte da recuperação da lavoura está sendo feita com recursos próprios e material genético de boa qualidade, prospectado nas próprias roças e distribuídas através do intercâmbio entre produtores.

Esse material genético, entretanto, é desconhecido oficialmente da pesquisa, que poderia alargar sua base genética através da validação, que poderia ser feita apoiando-se nos dados de extensionistas e produtores mais organizados. Outra proposta é identificar, nessas plantas utilizadas pelos cacauicultores, genes que indiquem novas fontes de resistência à vassoura e de comprovada produtividade, utilizando-se recursos da engenharia genética. É hora de aproveitarmos todo o potencial do laboratório de biotecnologia e o conhecimento dos seus técnicos.

Em qualquer país do mundo, a exemplo da Malásia, os institutos de pesquisa e fomento agrícola não permitem que qualquer tipo de plantio, por menor que seja, possa ser formado com menos de 20 plantas de características diferentes. Aqui, onde possuímos o maior centro de pesquisas de cacau do mundo, nos contentamos substituir 300 mil hectares com pouco mais de cindo clones, número insignificativo de variedades para o porte do programa.

A Ceplac prestaria uma contribuição significativa à economia cacaueira se imprimisse mais celeridade nas seleções locais, bem como ajudar de forma mais objetiva na identificação e seleção do material genético existente nas fazendas, e que estão sendo aproveitadas com sucesso por alguns cacauicultores. Nesse caso, seria feita uma seleção mais criteriosa, pois esse material genético já está adaptado às nossas condições, convivendo em harmonia o nosso meio ambiente.

Nesse particular, nossos cacauicultores estão esbanjando sabedoria ao dar preferência ao material genético local, implantando essas variedades nas áreas comerciais, por se tratar de plantas de características conhecidas. Isso não quer dizer que desprezem os clones liberados pela Ceplac, pelo contrário, eles – os clones – foram introduzidos em seus jardins clonais, onde são observadas suas características e comportamento ambiental.

Temos consciência da responsabilidade da Ceplac na liberação de cada clone, principalmente os trazidos de outros locais. Entretanto, não custa lembrar que o programa de identificação de material genético resistente e de alta produtividade, em nível de fazendas, teve início em 1991, e intensificado a partir de 93, através dos investimentos feitos pelo Fundecau. Durante esse tempo, mais de 1.500 plantas foram selecionadas, sendo que cerca de 150 delas foram consideradas de boa qualidade.

Hoje, pelo menos cerca de 40 plantas já são sobejamente conhecidas de técnicos e produtores, cujos estudos estão guardados a “sete chaves” nos computadores do Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec). É preciso, o quanto antes, abrir a “caixa preta” e demonstrar à sociedade o que está sendo feito e como deverá ser feito. A Nação Grapiúna, unida pela cultura do cacau, não suporta mais viver de especulação. Então, que se apresentem os dados com toda a transparência recomendada, e coloquem já esses materiais diretamente nos jardins clonais dos produtores.

Sabemos que a Ceplac detém conhecimento científico e materiais genéticos, mas faltam as informações suficientes para que a lavoura de cacau possa ser transformada. Toda mudança é difícil, traumática, e a Ceplac bem sabe disso. É necessário todo um processo educativo voltado para despertar o interesse nos atores envolvidos – produtores e trabalhadores rurais –, através de um acompanhamento sistematizado dos imóveis rurais participantes na clonagem.

Nisso a Ceplac tem know-how suficiente, adquirido nas históricas campanhas de utilização de adubos, inseticidas, fungicidas e outros insumos modernos. Nesse processo também entra o aspecto comportamental – com ênfase para a administração rural –, no qual o proprietário deixa de ser m simples dono de roça de cacau, realizando visitas mensais para fazer o pagamento, para se tornar um agricultor. Se isso acontecer, a lavoura estará salva.

*Radialista, jornalista e advogado

Publicado no Agora Rural em 29-05-1999

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