CRÔNICA DE UMA TARDE DE SEXTA-FEIRA

Janine Soub*

Depois de uma manhã exaustiva no trabalho, recebi o convite de uma amiga para almoçarmos juntas. Às vezes saio desenergizada das profundidades alheias e preciso urgentemente de uma descontração. Então, aproveitamos para colocar o papo em dia, com nossas banalidades acompanhadas de dois chopes ao ponto. Só não estava nos planos o perfume das peruas na mesa ao lado nos inebriando mais do que o álcool.

Decidimos comer a sobremesa no seu apartamento, que fica em frente ao shopping onde estávamos. Enquanto ela preparava o mousse industrializado de chocolate com pedaços, peguei um livro de bolso de Caio Fernando Abreu e fui à varanda passar o tempo.

Adorei esse trecho da página 60. Olhei para a frente e lá estava um segurança do shopping trabalhando, posicionado embaixo da árvore. Pensei: deve ser interessante trabalhar olhando a vida que ali circunda. Fiquei a imaginar o tanto de pessoas que transitam de lá para cá e de cá para lá!

O que será que passa na cabeça daquele sujeito a cada dia de trabalho? Que músicas ele fica ouvindo do rádio instalado dentro de sua cabeça? Eu ri sozinha imaginando como seria a voz de Silvano Salles, “o cantor apaixonado”, declamando suas dores ali, no interior daquele homem. Sua cabeça fazia meneios de um lado para o outro, já que a atenção é necessária e a postura deve ser sempre ereta.

De onde eu estava pude ver um arsenal de tipos e “tipas” elencados por roupas, modos de andar, com suas conversas que podiam ser ouvidas aos trechos, entrecortados por exclamações, tons de voz e expressões faciais. Ah, não posso esquecer: ele não usa carimbos, mas deve haver uma paranoia instalada em cada profissional da área de segurança, sempre a postos para identificar o perigo a qualquer momento. Há também o tempo que muda o tempo todo em Salvador… E ali os dias iam, do sol escaldante às chuvas frontais, dos turistas aos pedintes; sem falar no fumante, do lado de fora, alimentando o vício. Tem aquele que passa apressado, o que vai bem devagar, o estressadinho ao telefone celular… ou o perfume que fica no ar!

Pisquei de novo e percebi que minha amiga já estava me chamando pela terceira vez. O mousse estava servido. Era, enfim, a descontração que eu precisava. E voltei a outros assuntos, enquanto eu refletia Drummond: “Eta vida besta, meu Deus”!

*Janine Soub é psicóloga

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Walmir Rosario

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